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APRESENTAÇÃO

     Na Grã-Bretanha as primeiras conversões ao cristianismo foram feitas durante os últimos séculos da ocupação romana, mas, logo depois da retirada das legiões, em 407 A.D., com exceção do extremo oeste, o cristianismo foi banido pelos invasores normandos. Duzentos anos depois, Santo Agostinho aportou em Kent, foi bem recebido pelo rei fundou a Catedral de Canterbury. A realeza, a nobreza e sua criadagem seguiram a fé cristã. porém, durante muitos séculos, as massas continuaram a ser pagãs. Para não provocar descontentamento a seu senhor feudal, eles prestavam aparente serviço ao Deus cristão

em suas igrejas de aldeia, aos domingos; mas, nas noites de lua cheia, eles se encontravam nas campinas para prestar homenagem ao antigo Deus de Chifres, nos sabás.

No entanto, foi apenas no fim do século XV que a Igreja se sentiu suficientemente forte para desafiar esse underground com suas múltiplas atividades criminosas.

A 5 de dezembro de 1484, o papa Inocêncio VIII declarou guerra contra o satanismo pela publicação de uma bula intitulada Summis Desiderantes Affectibus. Isso deu início ao Santo Ofício, nome oficial da Inquisição. Investia inquisidores apontados pela Santa Sé de poderes para participar de todos os julgamentos de heresias, desautorizar pessoas de qualquer nível e prender e punir todos os considerados culpados.

Dois anos depois da bula foi publicado o mais famoso livro sobre bruxaria, o Malleus Maleficarum (O Martelo das bruxas), escrito em 1468 por dois monges dominicanos, Jacobus Sprenger, prior do Convento de Colônia, na Alemanha, e o prior Henrich Kramer. Durante três séculos, foi o manual indispensável para todos os juízes, magistrados e padres católicos e protestantes na luta contra a bruxaria na Europa. 

   (Fonte: Apresentação, por Dennis Wheatley, Manual da caça às bruxas, Heinrich Kramer e Jacobus Sprenger, Edições de Planeta, Editora Três)


 

ORIGENS DA BRUXARIA

     Não há referências às origens históricas e geográficas da bruxaria. Seu inicio no tempo e no espaço não está registrado. A Bíblia faz referências a feiticeiros e feitiçarias. No Dicionário Aurélio Eletrônico encontramos que bruxa é a mulher que faz bruxarias; feiticeira, maga, mágica. A título de curiosidade, vale citar que o termo folclórico em Goiás refere-se à última das sete filhas de um mesmo casal que não foi batizada pela irmã mais velha, e que se transforma em coruja, que, à noite, entra pelo telhado e pelas janelas para chupar o sangue de crianças, bebe cachaça e pia forte, voando e soltando gargalhadas.

Se a Bíblia não cita a palavra bruxa, cita feiticeiro e feitiçaria. O feminino de feiticeiro é feiticeira, que segundo o Dicionário citado é a mulher que faz feitiços; bruxa, carocha, estrige, maga, mágica. Esclarece ainda que bruxaria é ação maléfica atribuída a bruxos ou magos. Para entender o temor que o assunto encerra basta citar a segunda definição de

bruxaria, no mesmo Dicionário: acontecimento que, à falta de explicação, se atribui supersticiosamente a artes diabólicas ou a espíritos sobrenaturais. [Sin. (bras. na maioria), nestas acepções: bagata, bozó, bruxedo, caborje, carochas, coisa-feita, despacho, feitiçaria, feitiço, fungu, macumba, malfeito, mandinga, mandraca, mandraquice, mocô ou mocó, mundrunga, pajelança, sacaca, salgação.

     Embora sem podermos definir a origem histórica do termo e da prática, é sabido que o termo bruxa surgiu da antigüidade como "a que sabe". Ela sabia as respostas aos enigmas que confundiam as mentes dos homens. As respostas que ela fornecia não eram freqüentemente as que se daria hoje, mas ela vivia num mundo primitivo, elementar, e suas afirmações eram marcadas por essas características. O homem e seu meio eram primitivos, e a mulher era a sólida criatura elementar de quem o homem dependia para as rudes ocupações domésticas, os trabalhos agrícolas, para o sustento e, acima de tudo, para a fecundidade que torna possível a continuação da vida.

 A mulher, completa em seus poderes biológicos, tornou-se o protótipo tangível da Deusa Mãe – uma "geradora de vida", antes da função contribuidora da paternidade ser totalmente percebida, ou simplesmente conhecida. Se a vida do homem primitivo era uma constante procura de alimentos nos bosques, nos campos e nos rios, em que ele cansava

o corpo e o espirito na luta implacável contra a natureza, contra a própria mente, os esforços femininos eram de caráter mais conservador, de acordo com sua natureza analógica.

Nas relações humanas primitivas, ela assumiu o papel de enfermeira e curadora. Esta função não surgiu acidentalmente; era inerente ao seu modo de ser biológico e sua posição econômica. Cuidava e tratava da criança e a necessidade e a experiência fizeram-na conhecer cada vez mais as ervas que os animais procuravam, por corresponderem a uma necessidade fisiológica. Há razões para acreditar-se que as mulheres foram os primeiros mágicos e videntes e como tais tinham grande autoridade e força. O profundo mistério do mundo da natureza, como seus ventos ferozes e uivantes, trovões, relâmpagos, chuvas e secas; as mudanças de estação com o sol quente e generoso, renovando a vegetação adormecida depois de longo inverno e trazendo um renascimento de amor e de vida na primavera – todas estas manifestações eram atribuídas aos espíritos ou demônios de conhecida malevolência ou às divindades boas e amáveis, conforme o caso.

A bruxa surgiu portanto na mulher que tinha comprovado conhecimento e compreensão das misteriosas forças que rodeavam o homem primitivo e que exercia influência sobre tais forças. Foi a sucessora lógica e natural da sacerdotisa da antigüidade.

     Representantes dessas primeiras haegtesse (de onde deriva o infamante termo hog – bruxa) foram incorporadas à mitologia de várias nações, como deusas e divindades, por seu entendimento superior e sua posição biológica de "geradoras de vida". Mais tarde, com a mudança gradual do matriarcado, ou dominação feminina, para o patriarcado, a mulher perdeu muito de sua posição autoritária, sem, durante muito tempo, abdicar de suas prerrogativas de curadora da família. Foi durante esse período de transição que ela degenerou na crença popular para a posição de demônio feminino ou bruxo, e quanto mais se afastou de suas condições de origem e de seus áureos tempos, mais triste se tornou sua posição.

     Quais eram as qualidades que davam à mulher primitiva sua posição superior como "aquela que sabe" e a posterior humilhante posição de bruxa "que sabe" ou demônio? A mulher está mais perto da natureza que o homem. Na época em que a participação de ambos na procriação não era conhecida, ela simbolizava a fertilidade, a continuação da vida – o que era máxima importância; enquanto o homem, individualmente, não era sexualmente importante, porque a criança nascida da mulher primitiva não reconhecia a existência do pai.

A mulher é no seu próprio ser físico mais dominada pelos processos autômatos inconscientes e, por isso, mais consoante, em maior harmonia como a natureza. Ela tem, como já foi comprovado, uma percepção instintiva e intuitiva superior. Quanto mais nos aproximamos da natureza primitiva, mais aguçado encontramos o desenvolvimento instintivo e intuitivo. Ela é mais concreta em seus hábitos mentais, em suas simpatias, em seus amores e ódios, enquanto o homem é mais abstrato. E nos hábitos mentais e comportamento, é mais elementar o concreto que a abstração. Tem mais vitalidade que o homem para resistir á doença, aos grandes choques e à desintegração física. Esta resistência maior é um dom especial da natureza à sua progênie mais próxima. As meninas são em geral mais precoces em seu desenvolvimento que os meninos. E a precocidade é um característico peculiar do primitivo, sendo análogo ao desenvolvimento relativamente rápido do indivíduo de todas as espécies inferiores. Finalmente, havia os misteriosos períodos menstruais, que a distinguiam do homem. Essas épocas coincidiam com a periodicidade da lua, que exercia papel importante na vida do homem primitivo.

     Havia, portanto, na mulher, qualidades enigmáticas que a ligavam intimamente às forças invisíveis, misteriosas do bem e do mal, que exerciam seus encantamentos e magias sobre a humanidade. Eis a razão da influência da mulher primitiva, da antiga haegtesse, da deusa, e mais tarde da demônia e da bruxa.

O PERÍODO DA LEGITIMIDADE

Em todas as sociedades primitivas de que tivemos conhecimento, através de documentos históricos, ou pela observação de viajantes e antropólogos, houve uma forma de crença nos agentes sobrenaturais, os demônios, ou na influência dos espíritos malignos.

É em geral nesse estágio da cultura que o culto das bruxas medrou, com base legítima. Em resumo, a bruxaria não se diferenciava do exercício comum da arte da magia nas tentativas para influir e pacificar as forças sobrenaturais e os espíritos que penetravam o mundo dos homens.

Por toda a Europa — particularmente nos países nórdicos — nos primeiros séculos da era cristã e até a Idade Média, a bruxa competiu, e não sem sucesso, com os outros praticantes da feitiçaria e artes congêneres. A bruxa tinha seu aspecto construtivo e durante séculos a ela recorriam para aliviar as desgraças de toda e qualquer espécie, doenças e parto. Em todos esses ofícios operava com eficiência igual à de seus contemporâneos.

     Nos primeiros tempos da bruxaria, a bruxa, como o mágico, evocava os espíritos do outro mundo, descobria o esconderijo de tesouros, abatia com feitiços homens e animais, cobria os céus de nuvens e agitava os ventos da tempestade. Era capaz de fazer gear, queimando as colheitas, confundir os planos dos inimigos ou destruir a saúde de suas vítimas.

     A cruzada legal contra a bruxaria é relativamente recente, começando no período do Renascimento que, sob muitos aspectos foi marco de entrada da humanidade no modernismo. O primeiro ato do Parlamento de repressão à bruxaria data de 1541. A primeira condenação formal da bruxaria pela Igreja foi a Encíclica de Inocêncio VIII, publicada em 1484. Pode-se dizer que a perseguição legal e eclesiástica à bruxaria começou nesse período.

     Perseguições esporádicas de feiticeiras pelo povo ocorreram de tempos em tempos, mesmo durante o que se poderia chamar de seu período legítimo, devido provavelmente a casos individuais de abusos de bruxas ou grupos de bruxas. Durante séculos, os legisladores e juízes pouco se ocuparam com a sua prática. Afinal de contas ela era tradicional e a lei sempre respeita a tradição. Encontrou maior oposição por parte da Igreja; na verdade, havia casos em que entrou em conflito direto com a religião cristã e, à medida que a Igreja foi fortalecendo gradualmente sua influência nas atividades do século, o conflito se intensificou, resultando em uma era de terríveis perseguições e excessos, que durou dois séculos.

     O conflito entre os eclesiásticos e a bruxaria evidenciou-se também no fato das bruxas terem suas parteiras e a Igreja, as dela. As parteiras reconhecidas eram licenciadas pelas autoridades eclesiásticas e era seu dever primordial zelarem para que as crianças fossem batizadas o mais depressa possível, depois do nascimento, antes que as bruxas tivessem tempo ou oportunidade de lançar seus feitiços sobre elas.

O batismo da criança era considerado tão importante que, se não houvesse padre que pudesse oficiar a cerimônia, a parteira era autorizada a administrar o sacramento. Esses parteiros reconhecidos não eram mulheres, eram homens e continuaram o seu oficio até o século XVII.

     Nesse período a crença nos espíritos malignos e nos fantasmas era universal e a comprovada existência da bruxa era mais conclusiva que a da existência de espíritos, sendo elas acusadas, presas, condenadas e queimadas vivas, ou executadas de outra maneira.

     Os padres podiam apontar, e apontavam, a ordem das Escrituras (Êxodo 22,18) "Não deixarás uma feiticeira viver". Havia grupos determinados de padres que se consideravam legítimos perseguidores das bruxas, que eram consideradas mulheres "possuídas" do demônio. Tinham portanto de ser perseguidas e liquidadas para que o mundo pudesse ficar livre de perigo para os crentes. (Nota do Tradutor: Em nenhuma versão em português das Bíblicas pesquisas localizamos o termo "bruxa". Em todas as versões o termo usado é "feiticeira". Manipular textos bíblicos, adaptando-o aos interesses do momento, não é nenhuma novidade. É interessante e digno de nota, porém, comparar o teor das diversas versões, a saber: 1 - Não deixarás viver os feiticeiros -Pe. Matos Soares, Edições Paulinas; 2 -Mate toda mulher que fizer feitiçaria - Tradução na Linguagem de Hoje ­Sociedade Bíblica do Brasil; 3 -Tu castigarás de morte aqueles que usarem de sortilégio e de encantamentos - Pe. Antônio Pereira de Figueiredo - Livraria Editora Iracema Ltda.; 4 -A feiticeira não deixareis viver - João Ferreira de Almeida - Sociedade Bíblica do Brasil. 5 -As feiticeiras têm de ser mortas - A Bíblia Viva - Editora Mundo Cristão. Vale citar que todas essas versões referem-se a edições recentes.)

Kramer, um teólogo do século XV, citava e aprovava o Eclesiastes: "Não há nenhuma cabeça, acima da cabeça da serpente; nenhum ódio maior que o ódio de uma mulher. Preferiria morar com um leão ou um dragão, a morar com uma mulher má". O vocábulo "má" é supérfluo, porque "má" e "mulher" eram sinônimos para eles.

 As mulheres, dizia Kramer, são mais impressionáveis que os homens e consequentemente muito mais facilmente influenciadas por um "espírito sem corpo". As mulheres são irresolutas e naturalmente fracas; por isso acham facilmente os meios e segredos de se vingarem por meio da bruxaria. Além disso, a mulher é o sexo "mais carnal"; mas disso ela não tem culpa, pois nasceu torta, feita de "uma costela arqueada, isto é, de uma costela do peito, que é arqueado como se estivesse na direção contraria à de um homem". Kramer concluía que todas as bruxarias provinham da concupiscência carnal inerente à mulher, a "insaciável". Na verdade, grande parte da longa e terrível perseguição às bruxas foi devida ao medo subconsciente medieval à mulher — uma herança de origem antiga e primitiva.

     Processos judiciais, empregando a tortura colocada nas mãos do juiz, eram usados como meios para forçar a confissão da culpa que ele queria imputar. O corpo de delito estereotipado foi logo inventado e legalmente usado. As acusações seguiam um padrão único e permanentemente repetido. As supostas bruxas eram forçadas a confessar serem capazes de voar pelos ares em vassouras ou com o auxílio dos espíritos familiares, e assim dirigirem-se para lugares isolados onde realizavam um Sabbath ou festa religiosa, na presença de Satã, a quem adoravam e com quem tinham relações carnais e outras relações criminosas.

O SABBATH DAS BRUXAS

     A bruxaria dos primeiros séculos da era cristã era muito diferente da dos períodos subsequentes, como daquela que se desenvolveu durante a Idade Média, por exemplo. No primeiro período, o que reconhecemos como bruxaria, era um remanescente dos cultos pagãos da fertilidade dos antigos e da adoração da natureza, que muito se prestava para o uso da magia em suas diversas formas. Parece que grande parte da terminologia que se introduziu nas práticas da bruxaria veio da conversão, ou conversão parcial, dos antigos membros dos cultos ao cristianismo. Adotaram, então, alguns termos e ritos da Igreja e usaram-nos muitas vezes sob forma subvertida ou de paródia. Desta maneira, os praticantes da bruxaria tinham o seu Sabbath, uma Dedicatória, um Sacramento, e possuíam um Batistério. Suas reuniões chamadas covens (de couvene — reunir), requeriam o numero treze para perfazer o quorum — doze bruxas e um chefe, correspondentes aos doze discípulos e o Mestre.

     A rotina dos ofícios no Sabbath das bruxas era a Missa Negra, uma paródia e inversão da cerimônia da missa cristã. Prestava-se devoção ao demônio que presidia ou a um seu representante sob forma de cachorro, cabra ou outro animal. Uma parte do ritual das bruxas era o recitativo do Padre Nosso de trás para diante e, mais tarde, a produção da "Bíblia Má" com os mandamentos do Decálogo ao contrário; por exemplo, o sétimo mandamento dizendo: "cometerás o adultério.

Nos séculos VII e VIII, na Inglaterra, os bispos publicaram pastorais contra o oferecimento de "Sacrifícios ao Demônio" ou "comer em Templos Pagãos, inclusive a celebração de festas abomináveis dos Pagãos"; era também proibido "vestir-se com peles de animais selvagens"— forma sob a qual o diabo aparecia freqüentemente.

As leis dos padres northumbrianos decretavam que "se alguém for encontrado daqui por diante praticando atos pagãos ou, de qualquer forma apreciando a bruxaria, terá, se for nobre do rei, de pagar X meios-marcos, metade para Cristo e a outra metade para o rei".

 Enquanto os cristãos tinham os santos e os anos, a quem recorriam quando necessitados de auxílio, as bruxas invocavam os Poderes das Trevas — os espíritos malignos e especialmente o próprio Satanás. A analogia era portanto bem completa e contribuía para o conflito entre a Igreja e o culto das bruxas, que cresceu com o correr dos séculos, como a historia dramaticamente conta.

     O lugar de encontro das bruxas era segredo entre os membros do coven, e era dirigido por uma pessoa cuja identidade verdadeira só era conhecida do chefe supremo do culto. Ele era o Mestre de Cerimônias e era conhecido entre os fiéis só como o Diabo. Para enganar melhor, aparecia nas cerimônias num uniforme escuro ou preto, usando máscara, como o antigo deus Janus. Outras vezes, usava uma cabeça de cabra por cima da sua e uma máscara na parte de trás da cabeça.

A significação de Janus é que esta divindade era o deus da fertilidade e o santo patrono das encruzilhadas, controlando tanto o sol como a lua. O poder de Diana, a deusa da Lua, "Rainha da Noite", protetora tanto da virgindade como da fertilidade também era invocada pelas comunidades primitivas de bruxas, na sua festa do Sabbath. Diana, além dos atributos acima referidos, possuía o temível poder de rogar pragas e outras coisas horríveis, tanto contra os homens como contra os animais.

     Enquanto as reuniões locais do coven se realizavam uma vez por semana, em geral na quinta-feira, o Sabbath das bruxas era celebrado quatro vezes por ano. Estas festas principais eram, na primavera, a véspera do 1º de maio (30 de Abril), chamada roodmas, Dia da Cruz, na Inglaterra, e Walpurgis-nacht, na Alemanha; no outono, à véspera de Todos os Santos, 31 de outubro, chamada na Inglaterra all hallow eve. Entre estas, vinha, no inverno, a candelária (2 de fevereiro) e em agosto, chamada lammas, na Inglaterra. As festas dos solstícios também eram celebradas — Beltane no verão e Yule no inverno.

     O demônio personificado que presidia era chamado Beelzebuth, Satã, Lúcifer ou outro nome apropriado. Era adorado de joelhos como o reconhecimento de ser ele o doador de todas as coisas, más ou indiferentes. Durante a cerimônia, o chefe lia os mandamentos das bruxas. Depois pregava um sermão de cristianismo negativo, dizendo à assembléia que não tinham nenhuma espécie de alma, porque a tinham abandonado, juntamente com

o seu nome.

De sete em sete anos realizava-se um grande sabbath, no qual se congregavam todos os covens locais. De acordo com a tradição, o bruxo-chefe, ou o Diabo, era nessa ocasião sacrificado, O "sacrifício" nesse caso, naturalmente, deve ter uma simulação inteligente ou um ritual simbólico.

 Outra assembléia chamava-se o esbat, que diferencia do sabbath por ser principalmente para negócios, enquanto o sabbath consistia inteiramente de rituais religiosos. Ambos terminavam com festas e danças. Os negócios tratados no esbat eram em geral a prática de magia para algum cliente ou membro e para fazer mal a algum inimigo. Algumas vezes o esbat era celebrado por puro prazer.

     A celebração do sabbath das bruxas era, portanto, uma prática dos rituais do satanismo que floresceu em toda a Europa por muitos séculos, até os tempos modernos. É pouco provável, no entanto, que a maior parte das supostas bruxas que confessaram ter participado das orgias popularmente associadas a tais celebrações, fossem verdadeiras participantes, porque as chamadas "confissões" eram meras repetições orais de declarações obrigatórias para toda as acusadas.

     Durante o período em que a bruxaria foi influente, acreditava-se popularmente ser a bruxa o instrumento direto, e mesmo a escrava do Demônio, cumprindo suas instruções de acordo com o pacto, escrito em letras de sangue, pelo qual a bruxa dava sua alma ao poder infernal em troca do gozo de prerrogativas sobrenaturais, por um período definido.

Lavrado o contrato, a feiticeira recebia a marca em alguma parte do corpo, que daí em diante se tornava insensível à dor. Este era o estigma ou a marca do diabo, pela qual ele conhecia os que lhe pertenciam. Um diabinho "familiar" ou espirito, era destacado para acompanhá-la, e em geral tomava a forma de um animal, especialmente de um gato preto ou cachorro.

Acreditava-se que as bruxas, que podiam a qualquer momento invocar o seu senhor satânico, tinham o poder de transforma-se em animais, especialmente gatos e lebres, e podiam atormentar as pessoas que quisessem lesar, espetando-lhes agulhas nas carnes.

A MARCA DA BRUXA

Os exames nas bruxas, mesmo quando feitos em boa fé, se assim se pode chamar a sinceridade da ignorância maliciosa, eram levados a efeito presididos pela mais abjeta superstição. Alguns funcionários provavam sua eficiência descobrindo as marcas das bruxas e assim identificando-as como traficantes de bruxaria. O mais célebre desses advogados chamava-se Mattew Hopkins, que exercia sua profissão nos condados de Essex, Norfolk, Huntingon e Suffolk, na Inglaterra, nos meados do século XVII, sob o titulo que ele mesmo se havia conferido de "descobridor geral de bruxas’.

Tendo obtido a licença autorizando-o a examinar todas as suspeitas de bruxaria, ele aplicava torturas que obrigavam as vítimas a confessar a culpabilidade das ações mais improváveis e até mesmo impossíveis. As confissões, naturalmente, eram invariável e rapidamente seguidas da pena de morte. O descobridor geral de bruxas fazia saber que possuía certa caderneta que obtivera do diabo, enganando-o. Nesse livro, havia uma lista de todas as bruxas, assim como das pessoas que, na Inglaterra, consultavam as bruxas. Desta fonte superior ele tirava informações exclusivas, possibilitando-o a continuar sua descoberta de bruxas com o maior sucesso.

     Hopkins era, na verdade, um bandido desumano e parece incrível que, mesmo nessa época, esse impostor, por um período de vários anos, pudesse continuar suas práticas monstruosas com a aprovação oficial. Só nos condados de Essex e Suffolk, foi o responsável por nada menos de 260 condenações, sendo a maioria de penas capitais. Residindo em Manningthee, Essex, Hopkins viajava com seus dois assistentes, uma mulher e um homem, de um lugar para outro, cercando os suspeitos — em geral pessoas excêntricas, que os espiões haviam informado serem suspeitas ou da prática de bruxaria ou de consulta de bruxas.

O teste que Hopkins aplicava para procurar "a marca da bruxa", como prova de culpabilidade, era o seguinte: a pessoa acusada, moça ou velha, honesta ou desavergonhada, era inteiramente despida e faziam-na sentar-se, pernas cruzadas, num banco ou mesa no centro de algum celeiro. Se a pessoa que estava sendo julgada resistia, recorria-se a força e era amarrada com cordas. Introduziam-lhe então na carne alfinetes compridos "para encontrar a marca" que provaria tratar-se de uma bruxa. Diziam ter encontrado a marca se, no momento em que o alfinete era introduzido em algum ponto ou mancha do corpo, a vitima não gritava de dor. Considerando que a tortura continuava até a perda de toda sensibilidade normal, podemos compreender facilmente que o descobridor de bruxas era sempre bem sucedido em sua busca.

     Para ter certeza de descobrir a marca, mesmo no acusado mais difícil, Hopkins recorria ao embuste, usando um instrumento para picar, baseado no principio telescópio, de maneira que, quando apertado de encontro o corpo, a ponta desaparecia, como se tivesse encontrado a carne. Não sentindo dor, a paciente não reagia ao teste, e assim era considerada culpada, graças a uma verdadeira fraude. Muitas vezes a "marca" era uma mancha comum, uma pinta ou algumas elevação carnosa semelhando vagamente uma teta ou, em casos mais raros, uma pequena glândula mamaria. Tendo sido encontrada a marca, era popular que um diabinho familiar, delegado do diabo, viria chupá-la, por isso vigiava-se por um buraco na porta e, invariavelmente, o vigia informava ter visto o diabinho executando o seu trabalho.

No The Laws Against Witches (As leis contra as bruxas), publicado em 1645, narra-se que a "bruxa tem uma teta pequena ou grande no corpo, onde o diabo suga; e além da sucção, o diabo deixa no seu corpo outras marcas, algumas vezes com um ponto azulado. E nos prosélitos inferiores o diabo fixa em alguma parte secreta do corpo uma marca, que é a sua chancela, para conhecer os seus. A parte que recebe a marca fica daí por diante insensível e não sangra, mesmo sendo picada ou unhada pela introdução de um alfinete, sovela ou agulheta".

     Outro teste usado por Hopkins era o bárbaro costume antigo conhecido por "fazer nadar a bruxa". A idéia primitiva era que o puro elemento da água não receberia uma pessoa que tivesse renunciado ao batismo, como se acreditava ser o caso das bruxas; então, se a pessoa não afundava quando arrastada através da água, ficava provada a sua bruxaria. O processo deste teste — "prova judiciária pela água"— era levar a pessoa a um lago e lá amarrar-se lhe com barbante os polegares aos dedos do pé. A vítima era então colocada num lençol, cuja pontas eram afrouxadamente atadas. A trouxa seria então puxada através do lago por uma corda. Se flutuava, o que era comum por causa da qualidade flutuante da trouxa, a mulher era culpada de bruxaria e consequentemente condenada. No caso da "bruxa" afundar e ser puxada para a praia antes de morrer, a multidão em geral pedia outros testes e novos métodos de torturas eram aplicados.

     Finalmente, uma espécie de justiça poética colheu Hopkins, após uma carreira pública longa demais. Críticas abertas aos seus métodos começaram a ser ouvidas. Um padre obscuro de Huntingdon teve a coragem de escrever e pregar contra as crueldades dos descobridores de bruxas em geral, e de Hopkins em particular. Em 1677, foi preso por seus conterrâneos revoltados e sofredores, e submetido ao próprio teste de "natação". Como muitas de suas vítimas em circunstâncias semelhantes, em vez de afundar, ele flutuou. Por isso foi julgado culpado e enforcado como bruxo — o correspondente masculino da bruxa.

LEIS CONTRA AS BRUXAS

Por um decreto de Elizabeth contra os feiticeiros, ficou determinado que, para o primeiro crime, o castigo tinha de restringir-se ao pelourinho; a incidência pela segunda vez e vezes subsequentes, requeria castigos mais severos. As leis, no entanto, que se aplicam aos casos que envolvem profundas emoções humanas, não são em geral seguidas à risca. No caso presente, a multidão muitas vezes foi além da letra da lei. Como conseqüência, calcula-se que nas duas centenas de anos em que predominou na Inglaterra a maior severidade contra as supostas bruxas, trinta mil assassínios judiciários foram cometidos à guisa de punição legal contra crimes imaginários, tais como bruxaria e feitiçaria.

Em algumas partes do Continente foi ainda pior. Diz-se que sete mil vítimas foram queimadas em Treves; seiscentas por um só bispo de Bamberg, e oitocentos em um ano, no bispado de Wurzburg.

Na França, os Parlamentos de Paris, Toulouse, Bordeaux, Reims, Rouen, Dijon e Rennes decretaram a condenação das bruxas, com o conseqüente dilúvio de sangue. Em Toulouse, sede da Inquisição, quatrocentas pessoas foram mortas por feitiçaria em uma só execução. Remy, um juiz de Nancy, vangloriava-se de ter condenado à morte oitocentos bruxas, em dezesseis anos.

     Torquemada, o Inquisidor Geral espanhol, dividia seus extraordinários talentos entre a extirpação da feitiçaria e da heresia e escreveu um livro sobre a enormidade do crime de bruxaria. Na província de Gomo, na Itália, 1.000 pessoas foram executadas em um só ano. Era tão grande a severidade dos inquisidores nesse país que chegou a originar uma rebelião popular.

Jaime VI da Escócia (e I da Inglaterra) decretou que qualquer pessoas "que usar, praticar, ou exercer uma invocação, consulta, ou reunir-se com, convidar ou empregar, dar de comer ou recompensar em espírito maligno ou mau, para algum fim, ou levar consigo um cadáver, deve, sendo condenada, sofrer a morte". Este edital, negligentemente expresso, era uma ordem lata, suficiente para condenar qualquer pessoa que tivesse um inimigo que quisesse fornecer o depoimento condenatório.

Os mais famosos advogados e juízes do tempo acreditavam no fenômeno da bruxaria e agiam de acordo com esta crença. William Forbes, membro da Faculdade dos Advogados, professor de direito da Universidade de Glasgow e autor de importantes trabalhos de direito, escreveu a respeito das bruxas:

     Bruxaria é a magia negra, pela qual coisas estranhas e maravilhosas acontecem, por um poder derivado do diabo. Tem diversos nomes, segundo os efeitos e métodos empregados: como o de magia, para o conhecimento de mais do que é legal saber; adivinhação, para a revelação de coisas passadas, presentes ou futuras; encantamentos, para um trabalho com feitiços, cerimonias e rituais, etc.; feitiçaria, para o lançamento de sortes para trazer à luz coisas oculta; necromancia, para o invocação e consulta do diabo, por meio de pessoas mortas; fascinação, para o prejuízo causado a certas pessoas por meio de olhares invejosos, palavras, etc. Os que praticam tais artes são, por isso, chamados bruxos, mágicos, adivinhos, encantadores, feiticeiros, necromantes e fascinadores, respectivamente.

Estes nomes dados, nos diferentes casos, a discípulos do diabo, são, em sua maior parte, usados indiscriminadamente para designar qualquer pessoa que, por um pacto com Satã, e com seu auxílio, realiza coisas estranhas, em vista da afinidade de todas as suas operações, que tem a mesma base geral e tendência. Entram em pacto tácito com Satã os que praticam, com conhecimento de causa, os ritos supersticiosos ou cerimoniais das bruxas, ou recorrem a meios ilegais para alcançar qualquer coisa que sabem ser impossível, sem o concurso do diabo.

O doutor professor continua por muito tempo a discorrer sobre as supostas complicações da bruxaria e artes congêneres. Acreditava que esta espécie de encantamento podia ser provada por meio de testemunha que tivessem ouvido a pessoa acusada, invocando o auxilio do diabo, ou visto o suspeito falando com um "demônio familiar", alimentando este demônio, conjurando tempestades, mostrando em um copo ou bola de cristal rostos de pessoas ausentes.

     Na sua opinião podiam servir de provas os testemunhos de bruxas penitentes à hora da morte, referentes a outros acusados, comprovando assim ser difícil obter provas de bruxaria. A arte mais secreta — o encontro das bruxas durante a noite, para adorar o seu Senhor Infernal e tramar seus projetos maléficos, quando as pessoas estavam dormindo ou quando as próprias bruxas se tornavam invisíveis — não pode ser provada, senão por aqueles que confessam ter presenciado estes atos.

Referindo-se a bruxas e feiticeiras, o bispo Jewell, quando pregava na presença do rei, em 1598, disse: "As bruxas e feiticeiras, nos quatro últimos anos, cresceram milagrosamente no reino de Vossa Majestade. Os súditos de Vossa Majestade definham, chegam a morrer; desaparece-lhes a cor; sua carne corrompe-se; fala com dificuldade, privam-se dos sentidos. Peço a Deus que elas só atinjam os súditos de Vossa Majestade".

     O Pe. Glanvil, capelão de Carlos II, era de opinião que "o que não acredita em bruxaria deve pensar que o diabo é incapaz de fazer mal". Esta declaração é significativa no sentido de que toca o cerne da crença, a saber: alimentar a crença no diabo, que tem contato com as pessoas da terra, torna perfeitamente lógico e natural que algumas pessoas tenham um pacto com ele e cumpram as suas ordens. A crença na bruxaria, portanto, é baseada na crença da existência do diabo personificado, com contatos humanos diretos. Esta simples constatação permite-nos compreender muito mais facilmente porque as pessoas mais eminentes e instruídas da Idade Média e épocas posteriores acreditava na bruxaria. Praticamente todos, nesse período, acreditavam não só nos espíritos mas no diabo incarnado, sempre a realizar os seus intentos contra os humanos. A crença na bruxaria era simplesmente uma conseqüência lógica da premissa.

Foi John Welsley, em 1768, quem disse que "não acreditar mais na bruxaria significava não acreditar na Bíblia". O culto Lord Bacon, Lord Cocke e doze bispos tinham voz ativa na legislação do país, quando o ato de Jaime I da Inglaterra se transformou em lei.

Lutero foi especialmente severo na condenação de toda espécie de feitiçaria e, falando especialmente da bruxaria e sua prática, disse: "eu não teria compaixão para com as bruxas. Queimaria todas!"

     Sem dúvida houve, durante esse período, e talvez tenha havido em todos os tempos, umas poucas pessoas céticas com relação à bruxaria, mas tratava-se de uma minoria insignificante e ineficaz. E além disso, a descrença era desprezada como sendo uma forma de ateísmo, e por não serem ortodoxos, não tinham credenciais nem influência para dirigir a comunidade. Cudworth, considerado o mais profundo de todos os intelectuais da Igreja Inglesa, declarou que o ceticismo neste assunto era principalmente conseqüência da influência de Hobbes e que os que participavam desse ceticismo podiam ser suspeitos de ateísmo.

     Sob interrogatório judicial, as bruxas confessavam ter-se encontrado com o diabo nos sabbaths, o encontro dando-se sempre próximo a uma encruzilhada, num horrível lamaçal, ou à beira de um lago estagnado ou charco. Estas confissões, naturalmente, eram feitas sob torturas e depois da vítima ter sofrido tormentos indescritíveis. Dizia-se que nessas reuniões ofereciam-se crianças a Satã. Os feiticeiros comiam carnes deliciosas e bebidas, servidas em baixelas de ouro ou prata; e, outras vezes, sapos cozidos, crianças não batizadas e a carne dos malfeitores que tinham sido enforcados eram-lhes servidos. Os sapos, na qualidade de "familiares" das bruxas, compareciam às reuniões vestidos festivamente e tendo campainhas de prata à volta do pescoço ou atadas aos pés. Ao primeiro canto do galo, Satã desaparecia para baixo da terra e as bruxas voavam pelos ares, para suas casas respectivas. Quase todas as mulheres acusadas admitiam facilmente que as bruxas podiam transformar-se em lebres, lobos e outros animais.

     O clero da Escócia prestou-se à perseguição das bruxas com incansável zelo. Em Assembléia Geral, fizeram passar cinco atos condenatórios contra as bruxas, entre os anos de 1640 e 1649. As sessões da Igreja por todo o país rivalizavam em esforços para trazer a juízo as bruxas e para contrariar os atos tenebrosos de Satã.

     Em meados do século XVII, a mania da bruxaria dominou a tal ponto que afetou todas as atividades da vida. Se uma criança caía doente, se acontecia a uma família uma infelicidade, se o gado morria, se os navios desapareciam no mar ou ocorria qualquer espécie de acidente, até a simples queda de um arado, tais males eram atribuídos às bruxas ou feiticeiros.

Em tais ocorrências, se não se podia recorrer ao auxílio de um descobridor profissional de bruxas, empregava-se uma bruxa para localizar outra bruxa, ou mais provavelmente o bando de bruxas causador do mal. No caso da bruxa alugada (raramente o descobridor profissional falhava, com seus instrumentos de torturas), nada conseguir, recorria-se então à assistência de um padre. Se os recursos combinados das bruxas e do diabo eram muito fortes para serem enfrentados por um só indivíduo, tinha-se de recorrer ao Presbitério, Sínodo e até mesmo à Assembléia Geral.

O CASO SINGULAR DE
SIR GEORGE MAXWELL

     A historia do enfeitiçamento de Sir George Maxwell, que morreu em 1677, é baseada nas informações detalhadas, fornecidas pelo seu filho. Parece que Sir George, quando em Glasgow, no dia 14 de outubro de 1676, foi de repente, acometido de uma "moléstia febril". O doente apressou-se em voltar para casa, temendo conseqüências graves, e fez bem, porque ficou muito tempo de cama, com um distúrbio doloroso, que não cedia ao tratamento do médico. Acontece que, por essa época, uma menina muda, desconhecida, apareceu em Pollocktown. Vinha de vez em quando à casa de Sir George, solicitar auxílio.

     Vendo o estado do senhor, ela pareceu muito perturbada e deu a entender às filhas dele, que uma mulher havia picado os lados de Sir George. A menina em seguida apontou Janet Mathie, como autora da maldade. Por sugestão da menina, a casa de Mathie foi varejada para ver se encontrava nela uma imagem de cera, que acreditavam ter sido o instrumento usado para torturar o pobre homem. Com efeito, encontrou-se a imagem, com dois alfinetes espetados. Janet Mathie foi então presa e encarcerada. Em presença do delegado de Renfrewshire, os inspetores competentes, que já tinham encontrado muitas marcas do demônio, procuraram nela a marca insensível. Sir George melhorou um pouco, mas, a 4 de janeiro, ficou tão doente que a família perdeu as esperanças de salvá-lo. Enquanto isso, ainda por sugestão da menina muda, varejaram a casa em que residia John Stewart (o filho mais velho de Janet Mathie) e encontraram, na cama onde eles dormiam, uma imagem de barro, com três alfinetes espetados.

     Stewart e uma de suas irmãzinhas, de quatorze anos, foram imediatamente presos. Sendo forçada a dizer a verdade, a menina confessou que a imagem havia sido feita por seu irmão e três mulheres — Bessie Weir, Margaret Jackson e Margery Craig, na presença de um homem negro que ela julgava fosse o demônio.

O fato curioso foi que Sir George melhorou depois de encontrada a segunda imagem, tanto como depois do encontro da primeira. John Stewart conservou-se obstinado, até procurarem em seu corpo as marcas insensíveis. Tendo sido encontradas em grande quantidade, ele perturbou-se de tal forma que admitiu seu pacto com Satã. Numa declaração judiciária posterior, confessou que suas cúmplices eram sua irmã e as outras mulheres citadas. Em um segundo interrogatório, a menina admitiu que ela, assim como sua mãe e seu irmão, tinham um pacto com o Demônio.

     Publicou-se um mandato de prisão contra Bessie Weir, Margaret Jackson e Margery Craig; esta última já atingira a idade de oitenta anos. Nela, como nas outras, encontraram-se muitas marcas do diabo. Ela confessou ter auxiliado na confecção de imagens destinadas a causar a morte de Sir George Maxwell.

No dia 17 de janeiro, encontrou-se uma terceira imagem, debaixo da cama de Janet Mathie, na prisão de Paisley, à que havia se referido a menina muda, mas esta imagem parecia ser o retrato de uma mulher. Julgava-se que fosse o retrato de uma senhora pertencente à família Pollak, família esta de quem Janet tinha ódio vingativo.

Os Lords do Conselho Particular de Sua Majestade, sendo informados do caso, comissionaram Sir Patrick Gauston, Sir. John Shaw de Greenock e outros associados competentes para julgarem as pessoas aprisionadas. A comissão teve sua primeira sessão em Paisley, no dia 27 de janeiro de 1677. Annabil Stewart, a menina de quatorze anos, quando compareceu ao tribunal, sob acusação de bruxaria, declarou que, na colheita anterior, o diabo, um homem de preto, veio à casa de sua mãe e pediu-lhe se entregasse a ele, sob a alegação de que, se assim fizesse, nada haveria de faltar. Instigada por sua mãe e Bessie Weir, ela havia posto uma mão na cabeça e outra na sola do pé, e jurou que se havia entregue à satânica majestade. Declarou ter um espírito que cumpria as suas ordens, conhecido por ela e pelas outras bruxas pelo nome de Enippa. Declarou ainda que todas as outras bruxas tinham espíritos que as auxiliavam em seus feitos maus. Disse quais as que estavam presentes, quando as diversas imagens foram feitas. Uma dessas imagens foi posta num espeto e virada sobre o fogo. Enquanto se ia virando, todos iam repetindo: "Sir George Maxwell, Sir George Maxwell" sem parar. Uma noite, disse ela, vira seu irmão John Stewart com um homem negro, de pés fendidos.

     Em uma segunda declaração, John Stewart confessou que ele, Bessie Weir, Margaret Jackson e Margery Craig tiveram um encontro com o diabo na noite de 3 de janeiro, em que ele, a pedido de Satã, havia renegado o batismo. Foi levado a esse ato, confessou, pela promessa do diabo de que todos os seus desejos seriam satisfeitos, e as pessoas que o houvessem ofendido seriam castigadas. Nessa noite, fizeram-se as efígies de barro para tirar a vida de Sir George Maxwell. John observou, quando o diabo estava modelando a imagem, que suas mãos eram azuladas e que tinha algemas nos pulsos.

     Margaret Jackson, em sua confissão, admitiu que estivera presente quando foi feita uma efígie e o retrato encontrado na casa de Janet Mathie, confeccionados como instrumentos para tirar a vida de Sir George Maxwell. Admitiu, além disso, que quarenta dias antes de ser presa, havia se entregado, da cabeça aos pés, ao diabo. Para que essas declarações fossem mais solenes, foram subscritas por Roberto Park, um tabelião.

Todas as pessoas acusadas, exceto Annabil, foram consideradas culpadas e condenadas a serem queimadas, junto com as efígies que haviam preparado para destruir Sir George Maxwell. Annabil exortou a mãe a confessar antes de ser torturada, mas contam-nos que nada conseguiu demover a velha bruxa obstinada e endurecida, tendo ela morrido negando a sua culpa até o último momento.


 

AS BRUXAS DE EDIMBURGO E LEITH

Apesar das supostas bruxas serem perseguidas, torturadas e executadas em todos os cantos da Europa, na maioria dos casos, temos poucas menções de suas atividades e dos julgamentos. De algumas feiticeiras escocesas, no entanto, temos relatos extremamente detalhados, possivelmente devido à relativa perfeição dos registros locais. Algumas bruxas tornaram-se verdadeiramente famosas.

 Agnes Finnie, habitante de Potter-row, Edimburgo, foi acusada perante o juiz, constando os autos de vinte itens, culpando-a de bruxaria e feitiçaria. O libelo estabelecia que era culpada de assistir partos, curar moléstias graves e distúrbios das pessoas. No item da acusação narrava que Agnes, tendo brigado no mês de junho precedente com Cristina Dickson, a acusada, com grande ódio pronunciara estas palavras: "O diabo te moleste, a ti e aos teus". Pouco tempo depois, a filha da citada Cristina, voltando de Dalkeith, caiu e quebrou a perna, o que foi causado, se acreditarmos no libelo, pelas ameaças demoníacas da citada Agnes Finnie.

Como agravante de seus crimes, declarava-se que ela havia confessado, no primeiro interrogatório, perante a Sessão do Sudoeste da Igreja de Edimburgo, que era comumente chamada uma bruxa de classe. Foi considerada culpada de quase todas as acusações e sofreu as conseqüências.

     Alexander Hamilton, um bruxo, foi acusado de feitiçaria. Confessou ter sido instigado por um demônio, sob a forma de um homem de preto, a ir às colinas de Kingstown, East Lothian. Em consideração ao pobre homem que renegara o batismo e prometera obediência ao senhor satânico, o sinistro contratante lhe assegurara que teria tudo quanto almejasse. Ele, de então por diante, chamava freqüentemente Satã, batendo três vezes com um galho de abeto, e Satã respondia ao chamado, às vezes sob a forma de um corvo, outras, sob a forma de um gato ou cachorro. Com o auxilio do Diabo, Hamilton fazia mal aos que o ofendiam. Incendiou o moinho cheio de trigo do Prior Cocuburn, tirando três hastes de trigo dos montões do Prior e queimando-as nas Colinas Gairnetoune. Pela acusação, vê-se que o diabo lhe ensinou a preparação de um ungüento de óleo de nardo e gordura, para curar doenças. Uma senhora de alta posição, tendo-o ofendido, ele e duas bruxas, na floresta de Salton, invocaram o diabo, que apareceu e lhe deu o "botão de blue due", mandou-o deixá-lo na porta da casa da senhora, e que o acusado, tendo-se valido do referido botão, conforme as instruções, a senhora e sua filha mais velha morreram tempos depois. Tendo todas as acusações sido solenemente admitidas pelo criminoso, ele foi torturado e queimado vivo.

     Janet Barker, uma empregada, confessou aos magistrados e ministros de Edimburgo que havia curado um jovem que fora enfeitiçado, dando-lhe um colete que ela recebera do diabo; e pondo debaixo de uma porta um cartão negro que também lhe tinha sido dado por Satã.

     No ano de 1662, Agnes Williamson, residente em Samuelston, Haddingtonshire, foi acusada de bruxaria e de, entre outras coisas, tirar a força nutritiva das refeições de seu vizinho, por meio de feitiçaria; levantar um furacão e assim atirar o vizinho Carfrae na água, onde ele a avistou, e a outras bruxas, nadando; dizer a um vizinho que Carfrae perderia quinhentos marcos e, por meio de feitiçaria, incendiar seu forno de cevada; renegar o batismo e tomar o nome de Mannie Luckfort. O júri deu o veredito de culpabilidade de ser ela, por hábito e reputação, uma bruxa.

     Isabella Young, esposa de George Smith, vivendo em Eastbarnes, foi, no ano de 1629, acusada de bruxaria e feitiçaria. Acusavam-na de muitos atos de feitiçaria e bruxaria, ocorridos durante um período de vários anos. Os senhores do judiciário julgaram-na culpada e sentenciaram-na a ser torturada e depois reduzida a cinzas, em Castle Hill.

     Em Cross, Gallow Lee, entre Edimburgo e Leith, e nas areias desta última cidade, inúmeros bruxos e bruxas foram executados da maneira mais bárbara. Quase todas as vítimas eram primeiro torturadas para confessar e depois algumas eram "aborrecidas" (novamente torturadas), sendo posteriormente queimadas; algumas eram enforcadas em Cross, Gallow Lee. Não poucas acusadas de bruxaria eram presas a uma estaca, nas areias de South Leith, e ali permaneciam até que a maré desse fim aos seus tormentos.


 

BRUXARIA NA AMÉRICA

Como a cultura social da América e das colônias era européia e principalmente britânica, foi inevitável que um fenômeno social tão amplo como a bruxaria fosse transferido para estas terras. Verdadeiramente, o objetivo visado pela bruxaria era universal, e os aborígenes da América tinham a sua espécie nativa de bruxaria, como muitas outras tribos primitivas e selvagens. Tratamos aqui, no entanto, da bruxaria como ela existiu entre as comunidades brancas civilizadas, da América do Norte. Houve perseguições deste suposto crime, durante o século XVII, em Massachusetts, Connecticut, Virgínia, e em outros lugares, mas atingiu sua maior intensidade em Salem, Massachusetts, em 1692, sob o estímulo de cruzado, de Cotton Mather.

Na primavera de 1692, soou o alarme contra a bruxaria, na família do ministro de Salem, quando alguns empregados negros foram acusados do suposto crime. Uma vez dado o alarme espalhou-se rapidamente e, em pouco tempo, grande número de pessoas foram suspeitas e muitas aprisionadas. Os julgamentos começaram em princípios de junho, e a primeira vitima, Bridget Bishop, uma lavadeira, foi enforcada. O cheiro de sangue aumentou a excitação e a necessidade de novas vítimas. Pessoas da mais alta posição social estavam entre os acusados. No dia 19 de junho, mais cinco pessoas foram executadas e mais cinco tiveram a mesma sorte um mês depois. Neste último grupo, encontrava-se o Reverendo George Burroughs, que parece ter sido acusado por proclamar sua descrença na bruxaria, refutando assim a verdade revelada na Bíblia.

     A sorte de Burroughs despertou muita simpatia, que foi no entanto reprimida por Cotton Mather que, presente à execução, dirigiu-se à multidão, assegurando que o prisioneiro era um impostor. Entre os que foram executados com Burroughs, havia um homem chamado John Willard, que fora empregado para prender as pessoas acusadas, e foi acusado porque, por questão de consciência, se recusou a efetuar mais prisões. Ele tentou salvar-se, fugindo, mais foi perseguido e capturado.

Mais oito das infelizes vítimas foram enforcadas no dia 22 de setembro, perfazendo um total de dezenove condenados e executados, além de um que, de acordo com a lei criminal, fora condenado à morte por se recusar a defender-se. A excitação chegou a tal ponto que dois cães, também acusados de bruxaria, foram sumariamente mortos. Por todo

o período da perseguição da bruxaria, acontecia comumente que animais fossem implicados, como médiuns por meio dos quais o diabo realizava seus feitos maléficos, e executados com as vítimas humanas.

Muitas pessoas então se alarmaram com os processos dos promotores e até mesmo os magistrados que dirigiam os julgamentos começaram a ter dúvidas sobre a justiça e a prudência dos processos.

Sir William Phipps, o governador da Colônia, chamou Cotton Mather para justificar o que tinha sido feito. O resultado foi que Mather escreveu um livro, The Wonders of the Invisible World (As maravilhas do mundo invisível), em que o autor conta sete julgamentos de Salem, comprara as atividades das bruxas na Nova Inglaterra e em outras partes do mundo, e acrescenta uma complicada dissertação sobre a bruxaria em geral, sustentando a perseguição dos acusados. Este livro foi publicado em Boston, em outubro de 1692.

Outras circunstâncias, no entanto, contribuíram para desacreditar os processos da corte, malgrado a mania de perseguição às bruxas estar se espalhando por toda a colônia. No mesmo mês de outubro, a mulher do Reverendo Hale, ministro de Beverley, foi acusada, apesar de nenhuma pessoas com um pouco de senso de responsabilidade ter a menor dúvida sobre sua inocência. Seu marido fora um zeloso promotor das perseguições. Esta acusação, atingindo a sua família, trouxe a luz ao espirito de Mr. Hale, que se convenceu da injustiça de que tinha sido cúmplice.

     Outros ministros, que tomaram parte importante nos processos, convenceram-se com menos facilidade de seus erros, apesar de igualmente certos da inocência da Senhora Hale; levantaram uma questão de consciência, a saber: se o diabo não podia tomar a forma de uma pessoa inocente e piedosa, da mesma maneira que a de uma pessoa má, com o propósito de perseguir as vítimas. Para ajudar a resolver essa questão teológica, recorreu-se à assistência de Increase Mather, Presidente do Colégio Harvard e pai de Cotton Mather, e ele aquiesceu, publicando um livro sobre o assunto, intitulado A Further Accont of the Tryals of the New England Witches ( Mais um relato dos julgamentos de bruxas da Nova Inglaterra), ao qual acrescentou Cases of Conscience Concerning Witchecraft and Evil Spirits Personating Men (Casos de consciência referentes à bruxaria e aos espíritos malignos incarnados em homens). Nesse último tratado, o Presidente Mather, sem hesitação, decidia afirmativamente.

Após a fúria popular ter-se satisfeito em Salem, a agitação espalhou-se para Andover, onde grande número de pessoas foram acusadas de bruxaria e jogadas em prisões até que o Juiz de Paz, chamado Bradstreet, a quem os acusadores recorriam para a expedição dos mandados de prisão, se recusou a concedê-los. Eles então reclamaram contra Bradstreet e declaram que ele havia morto nove pessoas, por meio de bruxarias. O Juiz de Paz ficou tão alarmado com o perigo, que fugiu. Os perseguidores das bruxas dirigiram suas acusações contra pessoas das mais altas posições sociais, até que por fim acusaram a esposa do Governador Phipps. Esta ação voltou o governador contra os perseguidores que ele havia patrocinado, baseado nas afirmações dos dois Mathers.

     A maré da opinião pública começava agora a mudar de rumo, apesar de Cotton Mather e seu pai persistirem na crença da autenticidade da bruxaria e considerarem a mudança de tendência como um triunfo de Satã e seus sequazes. Nesse ano, ocorreu um incidente que decidiu definitivamente o desfecho, nessa localidade. No dia 10 de setembro de 1693, uma rapariga de Boston, chamada Margaret Rule, foi acometida de convulsões, durante as quais pretendeu ter visto formas ou espectros de pessoas, exatamente como se afirmava terem sido vistas pelos acusadores das bruxas de Salem e Andover. Foi imediatamente visitada por Cotton Mather, que a examinou e declarou sua convicção na veracidade de suas declarações.

Se a opinião pública não tivesse mudado, mercê dos excessos do ano anterior, é perfeitamente possível que nova e igualmente fanática perseguição se repetisse em Boston. No entanto, um comerciante influente da cidade, Roberto Calef, corajosamente encetou a luta humanitária. Ele também examinou Margaret e declarou sua convicção de que se tratava de uma impostora. Calef escreveu um relato judicioso sobre os acontecimentos dos anos de 1692 e 1693, expondo os enganos e contestando a opinião dos dois Mathers. Esta análise oportuna do assunto foi publicada sob o título de More Wonders of the Invisible World; or the Wonders of the Invisible World Displayed inFive Parts. An Account of the Suferrings of Margaret Rule (Mais maravilhas do mundo invisível; ou as maravilhas do mundo invisível desenvolvidas em cinco partes. Um relato dos sofrimentos de Margaret Rule). Coligidos por Roberto Calef, negociante de Boston, na Nova Inglaterra.

     Os seguidores dos Mathers evidenciaram sua hostilidade aos sentimentos judiciosos e humanitários, queimando publicamente o livro, e os próprios Mathers nunca abrandaram suas opiniões a respeito da bruxaria, nem mostraram arrependimento pelo papel que haviam desempenhado em um dos episódios mais vergonhosos da história da América. Em sua Magnolia, uma historia eclesiástica da Nova Inglaterra, publicada em 1700, Cotton Mather repete seu ponto de vista primitivo sobre as atividades de Satã em Salem. O povo de Salem, no entanto, era mais inteligente que seus professores. Humilhados e penitentes, retrataram publicamente seus erros. Os jurados assinaram um papel expressando seu arrependimento, alegando que tinham laborado em erro. Desertaram seu ministro, o Reverendo Mr. Paris, que havia instigado as perseguições, e não ficaram contentes enquanto não o expulsaram da comunidade.

      (Fonte: William J. Fielding, Strange superstitions and magical practices)


 

FEITICEIRO

     Em 1687, Eustachio Visier, arrendatário em Passy, a seis léguas de Paris, das terras do Sr. Lefèvre, secretário do Rei, questionou com Pedro Hocques, seu pastor, que, em lugar de 300 libras que lhe pertenciam pretendia 400, sob o pretexto de que o número de animais que estavam ao seu cuidado tinha aumentado consideravelmente. Das palavras passaram aos fatos, e Visier espancou o pastor que jurou vingar-se terrivelmente. A promessa não demorou. Hábil na arte dos sortilégios, preparou um dos mais eficazes contra os rebanhos de Visier, produzindo, no curto espaço de dois meses, a morte de 7 cavalos, 11 vacas e 395 carneiros. Esta é uma prova que o pastor era um iniciado em Magia Negra.

     Suspeitando Visier, com bons fundamentos, do pastor Hocques, dirigiu-se ao tribunal de Passy, instaurado sem perda de tempo o conveniente processo. Preso, Hocques declarou ter enfeitiçado os rebanhos de Visier, o que ficou inteiramente comprovado. Em conseqüência disso, o tribunal condenou Hocques no dia 2 de setembro de 1687, a trabalhos forçados perpétuos. De acordo com a prática estabelecida, este apelou; os autos foram para o Parlamento de Paris, e Hocques entrou no gabinete do juiz, e as ameaças deste conseguiram amedrontar o pastor que confessou tudo. Essa confissão deu, como resultado a confirmação de sentença do Tribunal de Passy, a 4 de outubro do mesmo ano em curso.

     Entretanto, a morte continuava a fazer estragos no rebanho do arrendatário. Ameaçado de ruína próxima e inevitável, Visier não encontrou outro meio senão procurar desfazer o feitiço, pois era a causa de tudo aquilo que se passava.

Entrando em combinação com o carcereiro da prisão de la Tourelle, onde se achava recolhido Hocques, encontrou um condenado que, mediante uma boa recompensa, fez o pastor falar, revelando este que só havia duas pessoas capazes de desfazer o feitiço: uma chamada Braço de Ferro e outra com o nome de Curta Espada. Não foi difícil conseguir, por meio dos vapores do vinho, que Hocques ditasse uma carta para o primeiro, indicando o estábulo onde se achavam enterrados os feitiços, sem indicar, porém, exatamente o lugar certo.

     Ao receber a carta, Braço de Ferro estranhou muito pelo seu conteúdo.

— Este homem está louco! — exclamou. — Se fizer o que me encarregou de executar, morrerá imediatamente, com as mais terríveis dores que possam existir.

A promessa de uma boa paga venceu facilmente os poucos escrúpulos que lhe restavam e empreendeu a tarefa, avisando antes Visier de que devia mandar dizer, primeiramente, uma missa a S. Carlos.

Dois dias depois, Braço de Ferro procedeu ao levantamento do feitiço. Quando fechou as janelas do estábulo, entrou nele com uma lanterna, em companhia de Visier e de um filho de Hocques, chamado Estevão. Depois de pronunciar certas palavras inteligíveis, tomado de uma espécie vertigem, foi direto ao lugar em que o feitiço estava enterrado, arrancou-o e colocou-o numa bolsa de couro que levara para essa finalidade. Fez o mesmo no estábulo das vacas; porém, quando instaram que entrasse num lugar imediato, em que se presumia estivessem enterrados outros feitiços, negou-se obstinadamente a fazê-lo pretextando que outros os haviam enterrado e que, se os arrancasse, morreriam todos como acabava de morrer naquele mesmo instante Hocques. Em seguida, acendeu uma fogueira e queimou a bolsa que continha os ditos feitiços.

Os presentes, estranhando o que acabaram de ouvir, trataram imediatamente de verificá-lo, e de fato, conforme a declaração do Sr. De La Motte, governador de la Tourelle, Hocques morrera, tomado das mais violentas convulsões, na mesma hora em que Braço de Ferro desenterrava e desfazia o feitiço feito por ele.

(Relatório publicado na Bibliothèque Eclésiastique, par I’Abbé Guion)

O QUE É O SABBATH

     A ele presidia o diabo, sentado numa grande cadeira, às vezes dourada, outras vezes escura como ébano, com muitos adornos de estilo majestoso. Tomava a figura de um ser monstruoso, triste, iracundo, negro e horrível. Sua cabeça de burro apresentava dois chifres grandes, como de bode, na fronte e outro menor no meio; deste se desprendia uma luz, que alumiava mais que a Lua, porém, menos que o Sol. Seus olhos eram grandes, redondos, muito abertos, cintilantes e atemorizadores; a barba era como a de cabra; o corpo e a estatura como o de homem e uma parte de bode; nos ombros havia grandes asas de uma plumagem extremamente negra; os braços e as mãos eram de forma humana; os pés, como os de cabra; sua voz era como a de um touro, rouca e desagradável; suas palavras eram pronunciadas em tom severo e grave; seu semblante tinha uma expressão repugnante e melancólica, chamavam-no de o Bode de Sabbath.

     As sessões iniciavam-se às vinte e uma horas em ponto e terminavam à meia-noite ou mais tarde, sempre porém antes do cantar do galo. Os assistentes começavam por aproximar-se do diabo e a prestar-lhe adoração, que consistia em beijar-lhe o pé esquerdo, a mão esquerda, o orifício anal e as partes sexuais, chamando-o Senhor e deus, pois era o deus do Mal, o negativo. Depois faziam um arremedo infernal da missa. Seis ou mais diabos inferiores apareciam e apresentavam no altar, cálices, patena, galheta e outras coisas; preparavam um dossel com figuras diabólicas; ajudavam-no a pôr o hábito, a alva, casula e outros ornamentos, todos pretos, como as toalhas de adornos do altar, e assim, era arrumado o palco para a Missa Negra.

Começava a sua missa e sermão exortando a que nunca mais voltassem ao cristianismo, pois que prometia aos seus um paraíso melhor do que o dos cristãos, para o qual quanto mais fizessem, nesta vida, do que os cristãos chamam pecado, maior e melhor éden os esperaria na outra. Recebia as ofertas sentado numa cadeira preta; a feiticeira mais importante, chamada Rainha das Feiticeiras, sentava-se ao seu lado direito, trazendo um porta-voz em que se achava pintada a figura do diabo; ao lado esquerdo sentava-se o feiticeiro mais importante, chamado o Rei dos Feiticeiros, com uma baciazinha. Os principais concorrentes e outros professores, se o desejam, ofereciam dinheiro e, as mulheres, torta de farinha. Depois beijavam o porta-voz e de joelhos adoravam o diabo e beijavam-lhe onde já dissemos, e ele expelia um cheiro horrível pelo orifício anal, para cujo fim um feiticeiro escolhido levantava-lhe a cauda. Continuava a sua Missa Negra e consagrava, primeiramente um objeto redondo e preto, que parecia ser uma sola de sapato, com a imagem do diabo, dizendo as palavras da consagração do pão e depois, com o cálice cheio de um liquido asqueroso, comungava e dava a comunhão aos presentes.

Acabada a missa, os feiticeiros e as feiticeiras realizavam um banquete e logo se entregavam a uma furiosa bacanal, em que cometiam toda espécie de aberrações sexuais.

     (Descrição dessa assembléia, tal qual a celebravam os feiticeiros na Espanha, feita por Dom Juan Antônio Lorente, secretário-geral da Inquisição Espanhola, tirada de documentos oficiais do Santo Oficio.)


 

MISSA NEGRA

     Margot, a Trianon, a Chanfrein, a Voisin e sua filha Margarida ocupam-se ativamente dos preparativos. Naquela noite celebra-se a Missa Negra na casa da marquesa de Montespan, em um pavilhão situado no fundo do jardim. Lesage acaba o mistério da quarentena que precede ao ofício diabólico. A Chanfrein entregou um borrego branco, sem máculas. Romain acende o forno e o verdugo facilitou o ter-se uma quantidade suficiente de banha de enforcado.

A Voisin já embolsou as cem mil libras que lhe haviam prometido. A quantia é bonita, mas para a marquesa nada representa em se tratando de satisfazer aos seus desejos.

Pois então? A favorita do rei quer conter a vontade de seu régio amante e pede a morte de sua rival. Esta é a senhorita Fontagens, beleza odiada, que projetou temerosas sombras na ascendência da Montespan sobre Luís XIV. Predisseram-lhe um poder sem exemplos e ela resolveu sentar-se no tronco de França, mas para chegar a tanto, é indispensável que a morte a livre da rainha e que o rei queira casar-se novamente. A Voisin, autora de tais predições, se encarregará de aplanar o caminho, pois a seus filtros tanto o Amor como a Morte obedecem.

A noite está escura, a hora solene aproxima-se. Um sacerdote sai por uma porta secreta para ir orar no pavilhão reservado aos ritos infames.

O cura Guibourg já disse muitas vezes a Missa Negra sobre um corpo nu de mulher em seus castelos de Vilebousin. No esconderijo da rua Beauregard, porém, é a primeira vez e convém inspirar à demandante dos sortilégios a maior confiança.

     Apesar da máscara perfumada que cobre o seu rosto, a Voisin a reconhece logo pelo seu porte altivo, pelo seu talhe de deusa, pelos seus ombros maravilhosos; uma de suas damas, Mlle. Des Oeillets, a acompanha. Sem dar tempo para refletir, é conduzida pela bruxa para o pavilhão misterioso.

A Montespan não podia decidir-se sem estremecimento, pois conhecia o rito da Missa Negra; já consentira que seu corpo servisse de altar a Satanás mas isso fora em sua casa, enquanto ali...

A bruxa Voisin a conduz a um pequeno aposento onde Des Oeillets tira os vestidos e adornos de sua senhora, cujo espirito está decidido, mas sua carne nacarada estremece.

 — Coragem, marquesa! — aconselha a Voisin.

Mas no momento de ficar sem as últimas roupas que escondem suas admiráveis formas, a favorita do rei titubeia. A bruxa intervém:

                — Já sabeis que, para o pacto todo poderoso com o espírito das trevas que se vai celebrar, é indispensável que fiqueis completamente nua sobre o pano preto.

                — E o sangue do borrego cairá sobre mim? — interroga a marquesa, com angustioso aceno.

 

     A Voisin respondeu-lhe com uma galantearia sinistra:

                 — Parecerá ver esmaltado de rubis esse admirável mármore que o rei adora.

                 — Oh! Fazeis-me estremecer. Nunca me atreveria.

 

 — Pensai no trono de França, marquesa! Pensai que será o sangue de vosso rival que cairá sobre vós. Nada temais. Fazei a Satanás a oferta de vossa radiante nudez.

     Começa a cerimônia. O corpo de linhas impecáveis e de curvas apetitosas, de alvura de alabastro, repousa sobre um pano preto contra o qual mais se destacam suas perdições; uma almofada de veludo da mesma cor sustém a cabeça e recebe a magnifica onda de seu abundante cabelo solto. As pernas estão de um e outro lado do altar; os braços, estendidos em forma de cruz. Cada mão segura um candeeiro de ouro. Reina profundo silêncio; as luzes vacilantes das velas iluminam a habitação com resplendores fantásticos e produzem suaves reflexos nos contornos do corpo nu; as espirais de fumo que se despendem dos incensários perfumam o ambiente, não se ouvindo outro rumor senão o do círio preto que estala... E o do coração da favorita, cujas batidas agitam os seios redondos e fazem estremecer as rosas daquele peito ereto.

     Ouvem-se leves passos cautelosos. É o sacerdote que vem coberto de fino pano e de um pergaminho onde se escreveram os desejos da postulante.

Eleva-se a voz do cura sacrílego, monótona, ardente, rouca, como convém aos atos do sortilégio. Diz ladainhas infames, às quais responde a Voisin, que desempenha o papel de sacristão, conforme o ritual. A bruxa agita uma campainha; o cura põe a rodilha no chão e apoia seus lábios no púbis da marquesa que estremece ante o contato lascivo do sacerdote.

     O instante da consagração aproxima-se. Guibourg mistura no cálix as cinzas de um borrego branco sem mácula queimado no forno e fragmentos de hóstia consagrada. Não falta senão um pouco de sangue para fazer a pasta conjuratória. Mlle. Des Oeillets, ajudante de Voisin, entrega ao cura o borrego trazido pela Chanfrein. Guibourg levanta sobre sua cabeça a criatura que dá berros de horror e diz:

 — Deus criou todas as criaturas com vida e eu, que sou sacerdote, sacrifico esta, ó Satanás, para que ela vá unir-se a ti e me concedas o que te peço.

     Com uma faquinha, abre as veias do pescoço da inocente vítima; os gritos da criatura vão ficando cada vez mais débeis e depois cessam; sua cabeça se inclina enquanto o sangue jorra, manchando de púrpura o palpitante corpo de alabastro da marquesa. O oficiante impassível, aguarda que o cálix esteja cheio e então entrega a Mlle. Des Oeillets

o corpinho inerte para que a Voisin o meta no forno.

     Em nome da postulante, o cura infame diz o objetivo da Missa Negra, antes que o círio negro feito com banha de um homem enforcado deixe de arder; levanta o cálix que contém a horrível mistura e dirigindo-se a Satã exclama:

 — Eu (aqui diz o nome, apelido e títulos da Montespan), peço o carinho do rei e do delfim para que nunca de mim se separem. Peço que a rainha fique estéril; que o rei abandone o leito conjugal. Peço que meus criados todos sejam do seu gosto. Que seu carinho aumente sempre mais, que obrigue o rei a não olhar mais a Fontagens e repudie a rainha para que eu me case com ele.

     Em seguida, baixa a taça até os lábios da Montespan, que sorve um gole. O cura mantém o cálix nos lábios dela, fazendo com que a mistura escorra pelo seu rosto até o travesseiro de veludo. Em seguida, lambe a pele da Montespan, removendo com sua língua os vestígios da mistura.

     Ele pede, então, à marquesa que repita suas palavras. Começa dizendo:

 — Eu (diz novamente o nome, apelido e títulos da Montespan), me ofereço a Satã, para que em troca ele me dê o carinho do rei e do delfim para que nunca de mim se separem. Que faça com que a rainha fique estéril; que o rei abandone o leito conjugal. Que meus criados todos sejam do seu gosto. Que seu carinho aumente sempre mais, que obrigue o rei a não olhar mais a Fontagens e repudie a rainha para que eu me case com ele.

Quando ela termina de repetir a oferenda, o cura sacrílego abre seu manto e debruça-se sobre a marquesa, possuindo-a de forma animalesca, para deleite das demais pessoas presentes.

     (Baseada na descrição de uma missa negra celebrada em janeiro de 1678, transcrita da "Medicine et Empolsoneurs", escrita pelo Dr. Légué - Biblioteca Nacional de Paris.)


 

OLHAR DE DESPREZO
OU MAU OLHADO

     O medo ao mau olhado perseguiu a humanidade selvagem, primitiva, a relativamente civilizada, desde tempos imemoriais. Nenhuma raça ou cultura em seus estágios inferiores parece ter passado imune a esta fobia.

     Esta crença era aceita sem reservas pelos autores medievais e padres da Igreja. Os escritores do período medieval tinham o hábito de comparar a influência do mau olhado com a fascinação do terror, assemelhando-se à paralisia de todo o sistema nervoso, observada quando as serpentes fixam os olhos na presa.

     É evidente que as pessoas não definhavam por terem recebido um mau olhado. É um truísmo psicológico que a crença da iminência da moléstia ou da ameaça de um desastre pode ser suficientemente forte para que as apreensões resultantes causem alarmantes sintomas físicos e mentais, e até mesmo a morte.

Os olhos são a parte mais expressiva do semblante humano, e muitas vezes também do animal inferior. É perfeitamente compreensível, no mundo dominado pelo medo, que as suspeitas recaíssem sobre os olhos que pareciam ter um olhar venenoso ou uma sutileza fora do comum.

     Não é estranho, portanto, que durante anos o azar fosse imputado à influência maligna dos olhos. O vocábulo ill (doente, em inglês) é uma contração da palavra evil (mal) e foi conservado desde o tempo em que se acreditava toda a moléstia conseqüência da maldade, provinda dos espíritos ou do mau olhado.

     Em nossa linguagem corrente continuamos a usar frases denotando a existência do mau olhado, conservadas do tempo em que tinham implicação justificada. Expressões diversas têm sua origem no lançamento de maus olhados.

Os olhos, que já foram descritos como o espelho da alma, eram um perigo terrível, quando refletiam a depravação espiritual ou mesmo a simples interpretação subjetiva do observador. Era muitas vezes questão, não só de interpretação, mas de mera acusação.

     Até há pouco tempo os camponeses da Irlanda atavam rebentos de frutinhas silvestres no rabo das vacas para evitar os maus olhados. Os pescadores espanhóis ainda pintam um olho no lado dos seus barcos e os camponeses italianos usam um feitiço com forma de olho, como proteção contra essa espécie de bruxaria. O coral vermelho é considerado um dos talismãs mais eficazes para este fim. Acreditava-se que sofrimentos e calamidades terríveis podiam recair sobre o homem ou animal sobre quem tivesse sido lançado um mau olhado. O mau olhado era capaz de enfeitiçar, e mesmo matar.

     Em muitos julgamentos de feiticeiras confessou-se que Satanás havia dito aos seus discípulos: "Se quiserdes mal a alguém, fitai-o com os olhos bem abertos e pedi que lhe advenha algum mal, em meu nome, e obtereis o vosso desejo".

O poder de lançar o mau olhado era considerado involuntário ou inato. Em alguns casos, no entanto, acreditava-se ter sido maliciosamente cultivado e desenvolvido sob impulsos reprováveis. Nesse caso, o poder maligno podia ser destruído em se dizendo ou mostrando alguma coisa ridícula ou brutal. Isto, naturalmente, levou a resultados curiosos. A ferradura pregada na porta, um vestígio da antiga superstição que foi conservado, protegia os moradores particularmente do mau olhado e da feitiçaria em geral. Era importante, porém, que as pontas ficassem para cima, não só porque a sorte não poderá fugir nessa posição, mas porque, se as pontas ficarem para baixo, será o símbolo de Diana, a Deusa da Lua.

     Aos antigos bardos irlandeses, os camponeses supersticiosos atribuíam o poder de "congelar e matar, tanto homens como animais". Essa habilidade dos satíricos irlandeses de matar por congelamento é muitas vezes citada nas lendas antigas. Por tal motivo, os camponeses respeitavam e temiam seus bardos, pelo seu poder sobrenatural.

     Alguns primitivos acreditam que a comida pode ser envenenada pelo mau olhado. Na Abissínia, as portas são cuidadosamente fechadas antes das refeições e acende-se uma fogueira porque, senão os "demônios" entrarão e "não haverá bênção na carne". Entre os núbios não se carrega comida descoberta, com medo da contaminação do mau olhado.

     Os gregos acreditavam tanto no mau olhado que criaram como antídoto, a lendária irmã de Gorgon, medusa, cujo terrível olhar era tão destruidor que transformava um ser humano em pedra. Era a incarnação do mau olhado. Sendo a quintessência do mal, podia enfrentar

o mau olhado; por isso era encontrada a sua imagem em vasos, escudos e proas de navios, perdurando ainda o uso desse símbolo como herança dos dias da antigüidade.

A BRUXARIA

Através de toda a longa história da bruxaria, a prática desse culto sempre esteve ligada ao "mau olhado". É provável que a crença na influência perniciosa do mau olhado seja anterior à bruxaria, tendo continuado, causando medo e apreensão depois de ter cessado a perseguição aos feiticeiros.

Ainda há casos esparsos que vêm ao conhecimento público, nos quais se acusa uma pessoa de lançar o mau olhado ou de enfeitiçar, derivando dessas práticas, sérias e muitas vezes trágicas conseqüências. As pessoas bastantes crédulas para acreditar nisso e possivelmente em estado de espírito próximo à insanidade, provocada pelo medo, são capazes de medidas extremas para se protegerem de suas terríveis conseqüências.

     Há poucos anos, no sudoeste da Inglaterra, um pequeno proprietário de terras foi preso por ter assaltado a vizinha, arranhando-a no braço com um alfinete e ameaçando-a de morte. Sua defesa foi que ela "lhe havia desejado mal, e enfeitiçado o seu porco".

     Tinha portanto tentado anular o efeito, recorrendo à prática antiga de tirar sangue do braço da feiticeira por meio de um alfinete. Estava tão convencido em sua crença dos poderes de feitiçaria da mulher, que pediu à policia que a levasse para casa e se apossasse de um vidro que ela usava para conseguir seus propósitos nefandos.

     Recorrendo ao expediente antigo de "sangrar a feiticeira", o homem citado seguiu o método que, por centenas de anos, fora considerado o mais eficaz para anular o feitiço da bruxaria.

     A preparação de instrumentos e objetos para lançar feitiços era uma parte importante da bruxaria e da feitiçaria. Faziam-se modelos das pessoas a quem se desejava mal e esses modelos, tendo os nomes das pessoas em questão, eram sujeitos a várias manipulações, ferimentos e torturas.

     Substâncias de consistência mole, tais como chumbo ou cera, sob forma de miniaturas humanas, eram postas ao fogo, ou sobre uma vela, até ficarem deformados ou destruídos pelo calor. Tudo isto era acompanhado de encantamentos apropriados. Acreditava-se que

o corpo da pessoa representada seria também deformado e destruído.

Uma maneira especial de enfeitiçar era tomar um pouco de terra de um túmulo recém-cavado, depois roubar uma costela de um cadáver e reduzi-la a cinza, e misturar os ingredientes com aranha preta e seiva de sabugo. Tudo disposto na forma de uma rã ou sapo, representando a pessoa que ia ser enfeitiçada; enfiavam-se então alfinetes ou espinhos na mistura.

A vitima era enfeitiçada e devia morrer no nono dia. Se a fatalidade não ocorresse, conforme fora previsto, tinha-se de recorrer à ação mais direta do veneno.

     Platão condena os feiticeiros venais que se alugam às pessoas que querem destruir os inimigos por meio de artes mágicas, encantamentos e figuras de cera. Por toda parte do mundo as conchas, especialmente búzios e coisas semelhantes, são usadas como talismãs, para proteger seus portadores contra o mal, em particular contra o mau olhado. O murmúrio cavernoso de um caramujo era a "voz de Deus" e a trombeta feita de uma concha tornou-se instrumento importante nas cerimônias de iniciação e da adoração no templo.

Os dentes e garras de animais carnívoros também protegiam o portador. Na Ásia e na África ainda predomina a noção de que os tigres e leões não farão mal aos que se encontrem assim protegidos.

O uso vulgarizado de conchas, fetiches, amuletos e talismãs de todas as espécies originou-se no dia em que se recorreu a eles para atrair a "sorte" ou afastar o "azar". Sua popularidade, nunca diminuída até o dia de hoje, é testemunho do prazer que tem o subconsciente no uso desses objetos.

Atribuir o seu uso à satisfação estética do adorno pessoal é contar a história pela metade. Nem todos os homens trazem consigo um pé-de-coelho, um fetiche, uma medalha protetora ou outro objeto associado à sorte e à proteção sobrenatural, mas os que o usam são em número bastante significativo. E serão as mulheres menos suscetíveis que os homens ao engodo das superstições antigas?

     (Fonte: William J. Fielding, Strange superstitions and magical practices)

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