Recentemente, numa cidadezinha do interior do Brasil, não se menciona qual porque
O falecimento do bom velhinho entristeceu a todos, mas sua expressão serena na morte, aquele sorriso tranqüilo na face e a lembrança de seus atos de caridade e humanidade
consolaram todos aqueles que, ainda que furtivamente, deixaram rolar uma lágrima de adeus.
A família, consternada, por um longo tempo se ressentiu do falecimento dele que era o patriarca daquela família de imigrantes alemães, que vieram para o Brasil havia muitos anos, no período negro que antecedeu a deflagração da Segunda Grande Guerra. Pelo seu espírito humanitário, o Dr. Fritz era avesso a guerra ou qualquer tipo de discórdia ou desavença.
Quando a tristeza arrefeceu, tentaram pôr em ordem o velho gabinete do médico para mantê-lo quase que como um museu em homenagem àquele homem tão querido. Entre os diversos livros, anotações e manuscritos, encontraram um, com uma capa feita em madeira entalhada e um sistema de dobradiças feito de couro, uma maravilha de artesanato. Nesta capa de madeira havia sido entalhada a seguinte palavra e um sistema de dobradiças feito de couro, uma maravilha de artesanato. Nesta capa de madeira havia sido entalhada a seguinte palavra em alemão: Heinzelmãnnchen.
Os filhos e netos do Dr. Fritz Berger havia muito não liam ou falavam o alemão mais, uma vez que o médico, quando chegaram, impusera como norma que todos aprendessem as línguas e costumes da terra que os adotava a partir de então.
Um dos netos dele mencionou-me o livro, numa de minhas aulas. Era meu aluno. Curioso, pedi-lhe que trouxesse o livro para que eu tentasse traduzi-lo. Ele pediu para consultar a família, mas, no dia seguinte, quando lhe indaguei a respeito, ele desconversou e não quis tocar no assunto.
Fiquei intrigado com aquilo, pois percebi que a garota, de alguma forma, estava intimidada. Eu jamais teria tomado conhecimento ou manuseado o famoso livro se, um dia,
o pequeno Hans não se sentisse mal na sala de aula. Imediatamente leve-o ao hospital, onde foi medicado, e em seguida leve-o para casa.
A família ficou muito agradecida pelo meu gesto, convidando-me para um lanche. Indagaram o que poderiam fazer em retribuição ao meu gesto. Lembrei-me do livro. Pedilhes que deixassem vê-lo.
Imediatamente houve quase uma reunião da família, onde discutiram acaloradamente o meu pleito, que acompanhava à distancia. Por fim, com uma solenidade que beirava o ritual, trouxeram-me uma caixa de madeira e colocaram-na em minhas mãos.
Abri-a. Ali dentro o famoso livro e, sobre ele, um pequeno pedaço de madeira que me intrigou de imediato, pois não devia ter mais do que cinco ou seis centímetros e era feito de madeira dura, possivelmente de raiz de alguma árvore antiga.
Examinei-o com dificuldade, pois seu tamanho minúsculo tornava isso difícil. Sobre uma base quadrada, com detalhes incrivelmente perfeitos, havia uma escultura, uma estátua, por assim dizer, de um ser que me lembrou um dos anões da história da Branca de Neve. Todos os detalhes presentes na pequena estátua eram proporcionais e fiquei admirando a habilidade do artista que havia esculpido tão delicada peça.
Deixei-a de lado e retirei o intrigante livro. Examinei-lhe a preciosa encadernação, feita de madeira e couro, com entalhes tão delicados e precisos que somente a mão de um artista hábil ao extremo poderia realizar.
Dentro, em páginas manuscritas, mas com uma letra bem traçada e legível, estavam apontamentos do próprio Dr. Fritz Berger. A palavra "Heinzelmãnnchen" se repetia constantemente naquele que se assemelhava a um diário do médico, escrito em forma de narrativa, com capítulo e títulos específicos.
Aquele rápido contato com o livro foi suficiente para aguçar ainda mais a minha curiosidade. Eu precisava traduzir o livro.
Começou, então, toda uma batalha entre mim e a família do querido doutor. Eles usavam como argumento o fato de o bondoso médico nada ter deixado recomendado a respeito do livro. Teria sido impossível essa tarefa se, numa das inúmeras vezes em que estive em casa deles e examinando o livro, não tivesse percebido aquela última anotação, no final do seu manuscrito.
Foi com indizível satisfação que a traduzi para a família:
"Quando perceberem que aqueles pássaros maravilhosos, que antes pousavam em nosso quintal, agora não são vistos; quando aquelas árvores ancestrais estiverem sendo consumidas pela ganância e cortadas; quando os animaizinhos e a própria natureza estiverem sendo exterminados, dêem conhecimento às minhas palavras e impeçam o fim daqueles que são responsáveis pelo equilíbrio e pela harmonia: os gnomos."
Aquele foi o argumento final que os convenceu. Atirei-me fascinado à tarefa de descobrir
o mundo maravilhoso desses seres fantásticos e bondosos, seus hábitos, seus amigos, seus inimigos, tudo através da narrativa agradável e apaixonada do Dr. Fritz Berger.
HEINZELMÃNNCHEN
Em 1910, após formar-me em medicina, aceitei montar minha clínica ao sul Leipzig, num vilarejo próximo de Plauen, quase aos pés dos Alpes. O local era muito pobre, com pessoas humildes, mas sinceras e afáveis. Não tinha pretensões de me enriquecer ali, mas apenas amealhar experiência para habilitar-me, posteriormente, a trabalhar num hospital de um grande centro, talvez na própria Leipzig, cidade que eu, particularmente adorava.
Atendia, indistintamente, a todos os que me procuravam e, muito embora raramente recebesse em dinheiro, devo confessar que minha dispensa estava sempre cheia e jamais passei necessidade alguma naqueles invernos rigorosos que enfrentava.
Foi justamente, num desses invernos que tudo aconteceu. Ou melhor, que tudo começou. Um guarda-florestal me procurou uma noite, informando-me que a velha Sra. Asfeld, que morava retirada da cidade, havia sofrido uma queda e fraturado um dos ossos da perna. O guarda-florestal fizera todo o possível para atendê-la, improvisando uma tala, recolhera o máximo possível de lenha e deixado alguma comida pronta.
Preparei-me para ir atendê-la, pois sabia que, em sua avançada idade e imobilizada, ela poderia simplesmente morrer de frio ou de fome, caso eu não me apressasse. Infelizmente, logo em seguida começou uma nevasca que se estendeu por três longos dias. Minha angústia e minha preocupação foram enormes, mas nada havia que pudesse ser feito. Não se enxergava um palmo adiante do nariz e, com aquele tempo, tentar chegar a qualquer ponto era suicídio.
Quando a nevasca amainou, saí imediatamente para vê-la, pois temia que algo pior tivesse acontecido. Na verdade, apenas um milagre poderia ter mantido aquela pobre velhinha com vida durante aqueles três dias.
Ao chegar a casa dela, percebi, com alívio, que a lareira estava acesa, pois havia fumaça na chaminé. Imaginei o sacrifício e o tremendo esforço que ela tivera que fazer para se manter viva.
Como ela não atendesse às minhas batidas na porta, abri-a e entrei. Lá estava ela, deitada em sua cama, coberta. O ambiente estava aquecido. Ao lado da cama havia uma pequena mesa, sobre a qual repousava um prato de sopa ainda fumegante. No fogo, um caldeirão fumegava igualmente, indicando que ela acabara de preparar a comida. Estranhei que dormisse, mas me dei por feliz por perceber que ela respirava normalmente e parecia bem. ao lado do prato de sopa, chamou-me a atenção um pequeno pedaço de madeira, uma escultura tão minúscula e tão perfeita que provocou a minha admiração. A Sra. Asfeld continuava dormindo tranqüilamente. Passei em olhos pela cabana. Estava impecavelmente limpa como se ela tivesse acabado de arrumá-la.
Certamente pensei, no momento, que o guarda-florestal cometera um engano ou, então, pregara-me uma peça. Tudo parecia perfeito.
Isto não se confirmou, porém, no momento em que a velhinha moveu-se na cama e gemeu, encolhendo uma das pernas. Desperta, ela olhou-me e sorriu:
Ela descobriu a perna quebrada e contou-me seu acidente, enquanto eu examinava o local. Uma tala havia sido colocada e cuidadosamente envolvida com pele de coelho e amarrada. Apenas um especialista improvisaria aquilo, num local como aquele.
Ela silenciou. Estendeu gentilmente sua mão e eu lhe entreguei a escultura, que ela guardou num dos bolsos de sua roupa. Nada comentou.
Quando retornei ao vilarejo, procurei o Sr. Hauen para agradecê-lo e elogiá-lo pelo trabalho que, praticamente, salvara a perna da Sra. Asfeld.
Ele ficou sem entender do que eu estava falando. Afirmou que apenas improvisara uma tala com duas cascas de árvores, envolvidas com um pano, nada mais.
Fiquei imaginando, então, que a própria Sra. Asfeld havia feito aquilo. Intrigava-me, porém, o fato de que ela nada dissera a respeito, deixando-me crer que o guarda-florestal havia feito o curativo. De qualquer forma, estava aliviado por ela estar bem, mas curioso a respeito de toda aquela história.
No dia seguinte retornei à casa dela. A perna estava bem, mas percebi, nela, sinais de que a velhice roubava suas forças e os rigores do inverno poderiam ser demais para ela.
— Sra. Asfeld, deixe-me levá-la para o hospital do vilarejo. Lá poderá se recuperar melhor. Percebo que o inverno está sendo rigoroso demais com a senhora.
Ela apenas sorriu e respondeu:
— Anéis. Os anéis da minha árvore. Meu tempo está chegando ao fim. Só sinto deixar os meus amiguinhos, mas eles entenderão. Eles entendem melhor que nós essas coisas.
— Quem são esses amiguinhos de que me fala?
Ela sorriu novamente e seu olhar foi pousar na pequena estátua de madeira ao lado da cama.
Habituei-me a ir até a casa da Sra. Asfeld todos os dias, sempre no mesmo horário. Apesar de sua perna melhorar, sua saúde geral parecia comprometida. Não havia nada de grave com ela, mas apenas o peso da velhice cobrando seu pesado tributo.
Eu já nem reparava mais na casa impecavelmente limpa, na comida sempre fumegando no fogão nem no asseio geral da velha senhora. Um dia, porém, algo me chamou a atenção.
Como nova nevasca se anunciava, fui visitá-la mais cedo do que de costume. Como de hábito, apenas bati na porta e abri-a em seguida. Julguei ter visto um ser cinzento, pequeno e veloz, disparar pela cabana e sumir por um dos cômodos.
Foi então que aquele detalhe se revelou ante meus olhos. Todos os dias eu comparecia ali e, todos eles, o fogo se mantinha acesso e a pinha de lenha abastecida, arrumada cuidadosamente, com troncos uniformes da melhor madeira para o fogo.
Se a Sra. Asfeld se mantinha de cama, impossibilitada de maiores esforços, quem estava recolhendo toda aquela lenha?
Enquanto ela falava, brincava com a pequena estátua de madeira. Intrigado, caminhei pela cabana. Fui disfarçadamente até perto da lareira, a pretexto de me aquecer um pouco. Olhei o local de onde vira aquele pequeno vulto cinzento disparar pela cabana. Havia marcas molhadas ali. Pequenas marcas de passos, de botas, mas tão pequenas que, se feitas por um ser humano, ele deveria ser um recém-nascido, de tão pequenas que era.
Observei de onde vinham. Junto à porta, havia um recorte no tronco da parede, como uma pequena porta. A Sra. Asfeld me observava.
— Doutor, deixe que seu coração veja. Não seja curioso apenas.
Olhei-a sem entender. Ela havia depositado a pequena estátua ao lado da mesa. Aproximei-me.
— Posso? — indaguei-lhe.
Ela hesitou por instantes, depois aquiesceu, olhou-me com seus olhos bondosos.
Apanhei a pequena estátua. Era realmente um prodígio de perfeição. Levei-a à mesa, próxima da janela. Com uma lente de aumento que levava sempre em minha valise, examinei-a. Era a imagem de um pequeno ser, com uma longa barba e um chapéu pontudo. Parecia muito idoso, embora tivesse um rosto saudável e bonachão. A cintura, num entalhe incrivelmente perfeito, via-se pequenas bolsas presas num cinto largo. Os pés eram voltados para dentro, com as pontas se tocando e os calcanhares afastados. Usava um gorro pontudo. Por entre a barba fechada e os cabelos, despontavam duas orelhas um pouco maiores do que seria o normal.
Sim, era um gnomo. Deveria ser um gnomo. Mas que artista havia sido tão perfeito e tão meticuloso para entalhar uma figura como aquela na raiz dura de um carvalho?
Continuei examinando a pequena peça. Os lábios estavam entreabertos e, observando melhor, vi que o interior da boca era oco. Intrigado, percebi que, na base da escultura, havia outra abertura. Compreendi logo o principio daquela peça. Aquelas duas aberturas só poderiam ser uma espécie de apito. Para quê, no entanto?
Levei-a aos lábios.
Ela falava com tanta convicção que era impossível não acreditar nela. Eu era um homem de ciências. Conhecia lendas a respeito, mas sempre creditara isso à natureza tendência humana de mistificar tudo aquilo que desconhece. A ciência, no entanto, explicava muitos mistérios, desmistificando as lendas. Assim eu pensava, mas não quis argumentar com ela.
Afinal, estava vivendo seus últimos dias e por que não deixar que ela cultivasse suas próprias crenças? Não iria lhe fazer mal algum. Pelo contrário, dava-lhe a seriedade para enfrentar o Grande Momento.
Enquanto isso, eu tentava localizar algum parente da Sra. Asfeld para comunicar-lhe o estado de saúde da velha senhora. Infelizmente, se havia algum, ninguém na vila o conhecia. Aqueles que se lembravam mencionavam que ela e o marido viviam ali havia muito tempo. Após a morte dele, ela continuara sozinha, naquela casa. Desconhecia a existência de filhos ou alguém próximo. Isso me fez assumir um parentesco com ela, principalmente porque, naquela época, eu ainda era solteiro e não tinha nenhum parente que vivesse perto dali.
Apesar de seu estado de saúde, impressionava-me, porém, como seu humor e sua alegria não se esgotavam. Ela se mantinha incrivelmente serena e tranqüila. Além disso, qualquer outra pessoa, na sua idade, naquele momento, estaria em pior estado, com o corpo refletindo visivelmente os horrores da agonia lenta. A Sra. Asfeld se mantinha absolutamente intacta fisicamente. Apenas seu tom de voz e o brilho que esmorecia em seus olhos denunciavam a gravidade de seu estado.
Eu percebia, constantemente, junto de sua cama, pequenos vidros com substâncias que eu sequer imaginava o que fosse. Certa vez lhe perguntei. Ela respondeu apenas assim:
— É a poção mágica me preparando para o Grande Momento.
Por mais que eu indagasse, ela não me deu maiores explicações. Se era alguma espécie de remédio, quem o estava preparando? O que continha? Ela não me deu respostas.
Um dia indaguei-lhe por que não tinha um animalzinho de estimação, um gato que fosse, para lhe fazer companhia? Ela riu e me respondeu:
—Tenho toda a companhia de que preciso. Além disso, eles e os gatos jamais se entenderam.
E eu fiquei sem saber, pelo menos pôr algum tempo, mais este mistério.
Naquela época do ano, aumentavam os casos de doenças, principalmente porque o inverno estava sendo particularmente rigoroso. Isso exigia de mim longas caminhadas para visitar meus pacientes, que aumentavam a cada dia. Nenhuma vez, no entanto, deixei de ir ver a Sra. Asfeld, principalmente porque, lá naquela cabana, eu me sentia bem, como se uma atmosfera mágica existisse lá e me fizesse recuperar as energias e o ânimo para cuidar de todos os meus doentes.
Mesmo assim, o trabalho avolumou-se. Passei a dormir pouco e a alimentar-me mal. Tudo isso, aliado à exaustão que as penosas caminhadas na neve provocavam, foram me debilitando.
Certo dia, ao visitar a Sra. Asfeld, eu ardia em febre. Estava tão mal que, após trocar poucas palavras com ela, eu desmaiei. O que houve depois apenas me vem à mente em rápidas imagens.
Ouvi um longo e agudo assobio, prolongado e penetrando. Algum tempo depois, senti-me deslizar pelo piso da cabana. Vozes baixinhas, numa língua estranha gritavam ordens que eu não entendia. Senti-me arrastado para cima de uma cama, que havia num outro cômodo da casa. Ali me cobriram. Houve uma intensa agitação ao meu redor. Em determinado momento, julguei ver uma minúscula figura, talvez do tamanho de um palmo dos meus, diante de meus olhos. Tinha em suas mãos uma pequena caneca, que introduziu entre meus lábios, derramando em minha boca o seu conteúdo.
O sabor lembrou-me o gosto do chá de sabugueiro, mas havia outros sabores. Adormeci. Devo ter dormido por algumas horas. Quando despertei, sentia-me bem, revigorado, como se todo o cansaço e a fraqueza houvessem passado miraculosamente.
Levantei-me e fui até a Sra. Asfeld. Ela sorria fracamente, pobrezinha, mas se mostrou feliz ao me ver em pé.
WADJA
Depois daquele acontecimento, deixei de questionar a Sra. Asfeld. Primeiro porque não obteria dela nenhuma resposta; segundo porque meus princípios de homem de ciência já haviam sido por demais abalados, desde que começara a visitar aquela cabana.
A perna da Sra. Asfeld curou-se, mas ela já não podia me levantar. Estava cada dia mais próxima do Grande Momento e nada havia que eu pudesse fazer, a não ser estar ali, diariamente, ouvindo-a contar-me, de modo enigmático, histórias de seus amiguinhos.
Aquilo se tornou um hábito e, mesmo nas piores nevascas eu conseguia chegar até sua cabana. Conheci Wadja e passei a acreditar, não por ter sido convencido pela Sra. Asfeld, mas por ter testemunhado o acontecimento mais insólito de minha vida, até então.
Depois disso, jamais voltei a me surpreender com qualquer coisa da parte deles, embora sempre me impressionassem
com tudo que faziam, diziam ou demonstravam.
Nevava fortemente e eu estava a meio caminho da casa da velha senhora. Não hesitei em continuar. Quando lá cheguei, aquele ambiente acolhedor e aquela atmosfera agradável e encantadora me envolveram.
A Sra. Asfeld pediu-me que preparasse um chá para nós, usando algumas ervas que guardava em sua cozinha. Quando me dispunha a fazer isso, tive a maior surpresa do mundo. Ao lado do fogão, sob alguns troncos que haviam deslizado da pilha, estava aquela pequena criatura, imóvel, aparentemente morta.
Fiquei sem reação, não sabendo se me debruçava para examiná-lo eu corria avisar a Sra. Asfeld. Minha curiosidade acabou superando a dúvida. Inclinei-me e afastei os troncos de lenha. Uma das pernas da pequena criatura estava retorcida, possivelmente fraturada. Seu rosto estava coberto de sangue coagulado. Os lábios estavam incrivelmente inchados e feridos. Ergui-o em minhas mãos. Media uns quinze centímetros. Usava um gorro pontudo, vermelho, de feltro gasto. Botas de pele calçavam seus pés. Suas roupas eram tecidas rusticamente, mas grossas e protetoras. Tinha, presas ao cinto largo, algumas bolsas, cujo conteúdo não pude examinar, de tão pequenas que eram.
Antes de qualquer coisa, ela apanhou aquela pequena escultura e levou-a aos lábios. O assobio longo e agudo foi o mesmo que ouvi naquele dia, quando passei mal na cabana.
Após aquele assobio, com uma modulação realmente impressionante e angustiada, ela se pôs a examinar o pequeno ferido junto dela.
Quase em seguida, ouvi um ruído estranho. Voltei-me a tempo de ver, junto à porta, um bloco de madeira deslizar, revelando uma abertura no tronco. Por ali entraram três figuras incrivelmente parecidas com o ferido que repousava na cama, ao lado da Sra. Asfeld.
— Nada entendo do que falam. — observei.
— É assim mesmo, não se preocupe. Apenas deixe-os fazer o que tem que ser feito. —
recomendou-me ela. A Sra. Asfeld depositou o pequeno ferido junto da casa, ao alcance dos outros três, que
o levaram nos braços rapidamente até a abertura junto à porta.
Segui-os, cheio de curiosidade. Lá fora, assobiaram repetidas vezes. Ouvi um bater de asas e uma faisoa veio pousar junto à cabana. Imediatamente uma pequena cesta foi presa ao pescoço dela e, lá dentro, nosso pequeno ferido foi acomodado e preso com algumas correias finíssimas. A faisoa partiu. Quando voltei a olhar para baixo, os três haviam sumido. Pensei que tivessem voltado para a cabana. Fui ter com a Sra. Asfeld.
— Mas Sra. Asfeld, eu vi. Veja, em minhas mãos, é sangue daquela criaturinha. Não pode negar isso. Precisa me explicar...
— Vá preparar o chá. Eu lhe contarei o que puder. — prometeu ela.
Fiz o que ela ordenará. Pouco depois, sentei-me junto da cama, dando mostras de que não sairia dali tão cedo. pelos menos enquanto não ouvisse o que ela tinha para me contar.
socorro.
Não voltei a ver os amiguinhos da Sra. Asfeld pelo resto daquele inverno, embora ela me assegurasse que Wadja, este era o nome do gnomo, estava bem e se recuperando dos ferimentos que sofrera.
Dia a dia a Sra. Asfeld definhava e nada havia que se pudesse fazer. Quando a primavera chegou e os bosques se cobriram de verde e de flores novamente, com os animais retornando de seu longo período de hibernação, chegou o Grande Momento daquela anciã.
Quando fui visitá-la, numa tarde esplendorosa, com pássaros cantando por toda parte e pequenos animais percorrendo o bosque, mal podia imaginar que tudo já estava consumado.
Encontrei a casa toda arrumada, como sempre, e ela estendida em sua cama, coberta com um lençol imaculado, as mãos cruzadas sobre o peito e um ramalhete de flores silvestres preso entre seus dedos.
Alguns dias antes ela pedira a presença do pastor local, que a abençoou e rezaram juntos. Olhando-a, ali estendida na cama, com uma expressão serena no rosto, lembrei-me de seu pedido:
"— Meu filho, quando chegar meu Grande Momento, peço-lhe que me enterre ao lado daquele carvalho lá fora, de forma quê, toda manhã, eu possa olhar o sol nascer."
Não me restava outra coisa a fazer, senão atender ao seu pedido. Passei o resto da tarde cavando sua sepultura e, quando entardecia, eu a sepultei, exatamente como tinha recomendado.
Resolvi pernoitar na cabana, porque escurecia e não era recomendável caminhar naquele bosque, após o escurecer. Acomodei-me no quarto onde havia ficado naquele dia que adoeci. Fiz uma ligeira refeição e me deitei. Estava exausto e emocionado. Apaguei o lampião. Apenas o fogo ardendo na lareira jogava sombras e luzes na sala, iluminando parcialmente o quarto, cuja porta eu deixei aberta.
Ouvi, então, aquele ruído de madeira deslizando. De minha cama pude vislumbrar o bloco de madeira de abrir junto à porta e uma minúscula criatura entrar na casa. Por instantes parou, como que farejando o ar. Depois, veio na minha direção.
Sentei-me na cama. O gnomo ficou parado na porta, olhando por um longo tempo, sem nada dizer. percebi, então, que ele chorava, apertando os olhos, mãos cruzadas nas costas. Choramos juntos pela Sra. Asfeld.
UM JOVEM COM DUZENTOS ANOS DE IDADE
Ajudei-o a subir até a cama. Ele se sentou no travesseiro e ficou quieto por um longo tempo. Pensei em acender novamente o lampião para vê-lo melhor, mas julguei que isso fosse assustá-lo.
Todo o meu cansaço e o meu sono foram embora. Ali estava aquela intrigante figura, disposta a responder, finalmente, a todas as minhas indagações.
Tentei ver melhor o meu interlocutor. Sua longa e embranquecida barba dava-me a impressão de que se tratava de um gnomo-ancião. Perguntei-lhe:
Mal pude conter o riso. Ele realmente falava sério, mas isso ia além de minhas expectativas.
— Você é um gnomo velho?
Ele riu, então, balançando a cabeça pacientemente.
Saltei da cama e providenciei o que ele me pedira. Pus meu bloco de receitas sobre a cama e lhe passei um pequeno pedaço de carvão, onde ele desenhou sua casa.
A minúscula e intrigante figurinha. Vestia um gorro pontudo, de feltro vermelho, uma bata azul, sem colarinho, de tecido rústico e grosso. As calças eram marrons, parecendo pele. As botas eram de couro. Usava um cinto, de onde pendiam diversas bolsas pequeninas. Apesar da barba, a pele do seu rosto era saudável, bem rosada. O nariz era ligeiramente arrebitado. Seus olhos eram cinza e, enquanto desenhava, movia curiosamente as orelhas.
Debrucei-me sobre o desenho de Wadja, cheio de detalhes, mostrando a entrada da casa, junto a uma árvore, um túnel na direção norte-sul, ligeiramente ascendente, até onde era, propriamente, o corpo de sua casa, sob um enorme carvalho, entre as raízes.
Era mesmo engenhosa, apesar de simples, aquela armadilha para evitar intrusos.
— Quer que eu lhe conte mais sobre a construção de uma casa de gnomo?
— Depois — respondi-lhe. — Agora gostaria de saber alguma coisa em relação a Sra. Asfeld.
A POÇÃO MÁGICA
Lembrei-me do que a Sra. Asfeld me dissera, um dia, sobre enxergar com o coração.
Comentei a respeito:
— A Sra. Asfeld me disse alguma coisa a respeito de enxergar com o coração...
Ele me olhou seriamente. Era incrível como a expressão de seu rosto podia passar do sorriso mais condescendente à expressão mais séria.
— Isso não posso lhe dizer, meu amigo.
Ele saltou agilmente da cama e caminhou na direção da porta. Antes que eu perguntasse qualquer coisa, ele se voltou e disse:
— Agora durma, meu amigo. Voltarei amanhã para contar-lhe mais. Tenho coisas a fazer. Muitas ainda, antes que o sol nasça.
No momento seguinte, ele sumiu pela abertura da porta. Corri até a janela, mas, apesar do luar generoso, não vi nem sombra do meu amiguinho.
Fui até a passagem no tronco da parede. Puxei o bloco de madeira que era um tanto pesado. No entanto, meu amiguinho o havia afastado e, depois, fechado com incrível facilidade. Considerando seu tamanho, deveria ter uma força desproporcional. Em relação a isso, eu lhe faria algumas perguntas no dia seguinte e ele me daria a mais impressionante demonstração de força que jamais vi.
Levou-me até o lado de fora da cabana, onde havia uma velha tora, de uma árvore cortada por um raio.
De modo algum eu duvidei.
No dia seguinte, de volta ao vilarejo e tendo comunicado o falecimento da boa velhinha, tive uma das maiores surpresas de minha vida. Fui procurado, pelo notário local que me informou que, com a morte da Sra. Asfeld, eu passava a ser o proprietário de sua casa, no bosque. Não sei de que forma ela conseguiu fazer isso, mas suspeito que Wadja e os outros gnomos tiveram alguma coisa a ver com isso.
Deixei a pensão onde morava e me transferi para a cabana no bosque, sem me importar com as dificuldades que isso traria para atender meus pacientes. Wadja havia me deixado intrigado com suas primeiras revelações e eu ansiava por saber mais a respeito dele e dos gnomos.
Naquela noite, tendo providenciado tudo e visitado meus pacientes, retornei à cabana. Quando lá cheguei, Wadja estava sentado diante da lareira, fumando um curioso cachimbo, apoiado no piso da cabana.
Preparei uma refeição para mim, enquanto ele se mantinha lá, diante do fogo, imóvel. Finalmente, puxei uma cadeira para diante da lareira, acendi meu cachimbo e iniciamos a conversa.
Ele me pediu um pouco de licor de amoras da Sra. Asfeld. Estendeu-se, para isso, uma pequena caneca, retirada de uma das bolsas que trazia presas ao cinto.
Examinei-a. Era feita de ponta de um chifre de alce, num trabalho delicado de torneamento e entalhe. Enchi-a cuidadosamente e entreguei-lhe. Ele provou com um ar de satisfação.
— Gostaria que me falasse um pouco sobre as origens dos gnomos, Wadja.
Ele se sentou no piso e cruzou as mãos sobre os joelhos, pensativo.
Colocada daquela forma, a questão era realmente muito simples.
— E os poderes que vocês possuem?
— Que tipo de habilidades?
Ele tomou mais um trago do licor. Estalou os lábios de satisfação. depois voltou a olhar para mim com seus olhinhos cinza e profundos.
— Somos fortes, muito fortes que vocês e posso lhe dar uma mostra disso. — disse ele e foi quando me surpreendeu, erguendo aquele pesado tronco.
Jamais vi outra demonstração de força tão convincente e tão displicente. Para ele, aquilo era perfeitamente normal. Talvez não pudesse era entender como nós éramos tão fracos.
— Que outras habilidades vocês têm, além da força?
Ele cofiou a longa barba, antes de responder:
O aparador ficava a pelo menos um metro e meio do piso da lareira. Wadja media quinze centímetros, o que significava que havia saltado dez vezes a sua altura. Proporcionalmente, um homem mediano, de um metro e setenta de altura, saltaria dezessete metros.
Ele saltou de volta para o piso da cabana. Tomou o resto do licor, antes de me encarar de novo.
usemos isso mais para curar nossos amigos do que para nós mesmo.
— Por que isso?
— Tudo isso? — surpreendi-me.
Ele apenas sorriu daquele seu jeito bonachão, balançando a cabeça de um lado para outro.
Corri à janela, na esperança de vê-lo desaparecer no bosque. Foi impossível. Ele já desaparecera como um passe de mágica.
Na noite seguinte, mal eu havia terminado a minha refeição, lá estava meu solícito amigo, disposto a responder minhas perguntas. Apesar de o inverno já haver passado, nas primeiras noites de primavera ainda eram frias, por isso nos instalamos novamente diante da lareira, Wadja esperou pela minha pergunta.
— Tenho conversado com as pessoas por aí e percebido que existem muitas controvérsias a respeito dos gnomos. — observei eu. — Alguns, até, os consideram criaturas malévolas e...
— Oh, por favor, meu amigo. Não há controvérsias a nosso respeito, apenas ignorância.
Há uma confusão enorme, sabemos disso, mas não nos preocupamos em esclarecê-las, pois não é do nosso interesse.
Ele cofiou longamente a barba, antes de responder:
— Bem, há alguns sobre os quais não gostamos de falar, mas, já que é para esclarecêlo, vamos lá: Inicialmente confundem-nos com os gênios, criaturas aladas que habitam os lagos, os rios, o alto das árvores. São maiores do que nós e são identificados imediatamente pelas asas. Não provocam danos à natureza. Dê-me aquele seu bloco de receitas e um pedaço de carvão. Vou lhe desenhar um gênio para perceber a diferença.
Providenciei o que ele me pedira. Habilmente ele desenhou a figura de um gênio para que eu compreendesse.
Em seguida ele desenhou outra figura, sinistra, toda de preta e com ar malévolo.
— E quais são as criaturas sobre quem vocês não gostam de falar?
O rosto dele ficou sério por instantes, como se a simples lembrança daquelas criaturas já
o incomodasse.
— Os Trolls. Esses são nossos piores inimigos. São piores que os Goblins. São primitivos, incultos, brutos e muito feios. Têm enormes narizes, possuem cauda e cheiram mal. Gostam de roubar coisas também, mas de nos perseguir e torturar. Quando um gnomo cai em poder dos Trolls, dificilmente escapa com vida.
— E você pode desenhar um Troll?
Meio a contragosto, Wadja desenhou a figura horrível de um Troll.
— Que Grande Migração foi essa? — interrompi-o.
Ele pensou por instantes, depois respondeu:
Vi que ele se preparava para ir embora. Antes que ele saísse, indaguei-lhe.
Pensei no que ele dissera, enquanto ia até a janela. Desta vez eu o vi, encontrando-se com outros gnomos, cumprimentaram-se alegremente e depois saindo para suas tarefas noturnas.
Na noite seguinte, lá estava eu novamente, a postos para ouvir os fascinantes relatos do meu pequeno amigo. Fiquei à janela, olhando o bosque, para vê-lo chegar. De longe ele me acenou e eu respondi. Ele sorriu ao perceber que eu podia vê-lo também do lado de fora da cabana.
Assim que entrou, disse-me:
— Tem um bom coração, meu amigo. Viu como é fácil fazer isso?
Vista daquela forma, havia certo sentido em tudo aquilo.
— Você já me disse que cuidam dos animais. O que, por exemplo, vocês fazem?
Abriu uma de suas bolsas e estendeu-me a caneca de chifre de alce. Apressei-me em servi-lhe um pouco de licor de amora. Tomou-o, com grande satisfação.
— Onde os gnomos podem ser encontrados... — ia perguntando-lhe.
Resolvi não questionar. Abri outro mapa, desta vez da Europa. Wadja examinou-o atentamente.
Aqui estamos presentes principalmente nesta região dos lagos, que se inicia nos Estados Unidos e se estende até o Território de Noroeste, no Canadá. Também habitamos a região da Baia de Hudson.
— No México e nos países da América Latina...
Na noite seguinte, pontualmente, meu pequeno amigo se instalava comigo, diante da lareira. Servi-lhe um pouco de licor.
— Uma toupeira fez isso por nós. Muitas coisas que fazemos só são possíveis graças à ajuda de nossos amigos, os animais.
— Muito engenhoso mesmo.
O bloco de receitas ficava ali, à disposição dele, com alguns pedaçinhos de carvão. Rápido e habilmente ele fez dois desenhos.
— Se conseguir salvá-la, eu lhe darei a mão dela em casamento. — prometeu o rei.
Thorn ficou muito feliz, principalmente porque conhecia a princesa e era apaixonado por ela. Tão logo obteve a aprovação do rei, saiu para salvar a princesa. No caminho, encontrou um lobo ferido na cabeça por um tiro de um caçador. Embora preocupado com a princesa, Thorn parou para cuidar do ferimento. Quando terminou, o lobo agradeceu e perguntou:
Atravessaram velozmente a floresta, até onde começava as terras dos trolls, no local mais desagradável do reino. Ali o lobo deixou Thorn que ficou sentado na margem pensando como atravessá-lo. Pensou em fazer um barco com folhas de bétula, mas o rio era muito caudaloso para isso. Lembrou-se, então, das suas amigas, as lontras. Chamou-as e imediatamente uma delas apareceu.
Thorn subiu na cabeça da lontra que, velozmente, atravessou o rio, deixando-o em segurança. Thorn agradeceu-a, depois começou a caminhar cautelosamente pela terra dos Trolls. Andar por lá é muito difícil, há pedras, espinhos, mau cheiro e armadilhas perigosas.
— Que tipo de armadilha? — indaguei, interrompendo o meu amigo.
— Todo tipo, as mais cruéis. Thorn, apesar de toda a sua habilidade, sentia-se fragilizado naquela terra, onde o cheiro de coisa podre confundia seu olfato, as pedras confundiam sua visão e não podia contar com seus amigos animais para ajudá-lo. Finalmente, após muito caminhar, Thorn descobriu o esconderijo daquelas horríveis criaturas, bem como o local onde se ocultava a princesa, presa numa caverna e vigiada por dois trolls mal-encarados. Thorn ficou ali, observando, tentando encontrar uma forma de libertar a princesa, mas isso era praticamente impossível, a menos que conseguisse afastar aqueles dois. Não percebeu, porém, que os trolls haviam deixado uma pequena aranha para ajudar a manter a princesa prisioneira. Antes que desse por si, a aranha-vigia o envolveu com sua teia pegajosa. Thorn foi preso e acorrentado, enquanto os trolls decidiam
o que fazer com ele.
Acorrentado, Thorn assistia tudo aquilo, sem poder fazer nada. Sabia que seria maltratado pelos trolls. Isso não o incomodava tanto como imaginar que nada poderia fazer para salvar a princesa.
Foi então que apareceu o rei dos trolls, o mais feio, o mais fedido, o mais cruel de todos.
— Tenho uma idéia melhor, — falou ele. — Vamos passá-lo na máquina de moer carne e fazer comida para ratos.
Os outros trolls não concordaram e iniciou-se uma discussão entre eles. Os trolls são criaturas tão desprezíveis que não respeitam o próprio rei. enquanto eles discutiam, Thorn abriu sua bolsa de ferramentas e retirou uma lima, rompendo a corrente que o prendia. Correu até a caverna e libertou a princesa. Fugiram rapidamente, evitando as armadilhas, mas foram descobertos. O rei dos trolls chamou um troll-corredor e mandou-o ir atrás dos fugitivos.
Mesmo com a lontra ajudando-o a atravessar o rio e com o lobo lhes dando uma carona, Thorn percebeu que o troll-corredor acabaria por alcançá-los. Precisava fazer alguma coisa para livrar-se daquele troll ou, fatalmente seriam recapturados. Ao passar por um pântano, ele pediu ao lobo que parasse. Escondeu a princesa numa toca de coelho, depois teve uma idéia. Para um gnomo, seu gorro o acompanha por toda a vida e jamais um gnomo se livra dele, a não ser em casos extremos. Aquele era um caso extremo. Pegou o gorro da princesa e o seu e colocou-os num poço de areia movediça, pensando em enganar o troll com isso. Ocultou-se e, quase em seguida, o troll corredor chegou todo esbaforido.
Thorn casou-se com a princesa e ficou conhecido, a partir de então, não apenas como o mais corajoso e astuto dos gnomos, mas como o único a usar um gorro todo de ouro. — finalizou Wadja, sorrindo orgulhosamente.
— Foi uma bela história, Wadja. — elogiei.
— Conheço muitas outras e as contarei, mas não hoje. a floresta me espera e você precisa dormir. Boa-noite, meu amigo. — despediu-se ele, deixando-me maravilhado mais uma vez com aquelas fantásticas criaturinhas.
Na noite seguinte, quando Wadja apareceu, eu estava me lembrando de algo que a Sra. Asfeld dissera, antes de falecer, a respeito de seus anéis.
Indaguei sobre isso a Wadja.
— Exatamente.
Meditei um pouco a respeito. Sabia de locais onde o desmatamento vinha se acelerando e fiquei imaginando o que seria daquelas pequenas criaturas, no futuro.
— Wadja, o que ocorre quando o homem derruba uma dessas árvores?
Ele ficou em silêncio por um longo tempo, antes de responder.
de tempo, até que isso aconteça.
Tentei imaginar o que seria as vidas daquelas criaturas, se um dia as florestas fossem extintas. Eu, realmente, não conseguia dimensionar isso. Não acreditava que o homem, um dia, não acordaria e perceberia o mal que estava causando, a si próprio e à natureza.
Percebi que, naquela noite, em particular, meu amiguinho estava muito sério e pensativo.
— O que houve, Wadja?
Ele pensou por instantes, antes de me fitar com seu olhar cinza e brilhante.
— Vou me lembrar disso, meu amigo.
Naquela noite, quando Wadja foi embora, acompanhei-o até o bosque. Vi seus amigos se aproximando. Sorriam e me acenavam amistosamente. Conversando, eles desapareceram por entre as árvores.
Fiquei ali, parado, por um longo tempo, aspirando o perfume da natureza, ouvindo os ruídos da floresta e refletindo sobre tanta vida que circulava ao meu redor.
Foi um dos momentos mais importantes de minha vida.
FIM