NOTAS DO TRADUTOR

Recentemente, numa cidadezinha do interior do Brasil, não se menciona qual porque

  1. o sigilo é exigido nesses assuntos, tanto pelas pessoas envolvidas quanto por aquelas que são o assunto do livro, um médico faleceu. O Dr. Fristz Berger, em avançada idade, deixou

  2. o convívio dos seus e da comunidade que o adorava, tanto pela sua bondade como pela sua competência.

O falecimento do bom velhinho entristeceu a todos, mas sua expressão serena na morte, aquele sorriso tranqüilo na face e a lembrança de seus atos de caridade e humanidade

consolaram todos aqueles que, ainda que furtivamente, deixaram rolar uma lágrima de adeus.

A família, consternada, por um longo tempo se ressentiu do falecimento dele que era o patriarca daquela família de imigrantes alemães, que vieram para o Brasil havia muitos anos, no período negro que antecedeu a deflagração da Segunda Grande Guerra. Pelo seu espírito humanitário, o Dr. Fritz era avesso a guerra ou qualquer tipo de discórdia ou desavença.

Quando a tristeza arrefeceu, tentaram pôr em ordem o velho gabinete do médico para mantê-lo quase que como um museu em homenagem àquele homem tão querido. Entre os diversos livros, anotações e manuscritos, encontraram um, com uma capa feita em madeira entalhada e um sistema de dobradiças feito de couro, uma maravilha de artesanato. Nesta capa de madeira havia sido entalhada a seguinte palavra e um sistema de dobradiças feito de couro, uma maravilha de artesanato. Nesta capa de madeira havia sido entalhada a seguinte palavra em alemão: Heinzelmãnnchen.

Os filhos e netos do Dr. Fritz Berger havia muito não liam ou falavam o alemão mais, uma vez que o médico, quando chegaram, impusera como norma que todos aprendessem as línguas e costumes da terra que os adotava a partir de então.

Um dos netos dele mencionou-me o livro, numa de minhas aulas. Era meu aluno. Curioso, pedi-lhe que trouxesse o livro para que eu tentasse traduzi-lo. Ele pediu para consultar a família, mas, no dia seguinte, quando lhe indaguei a respeito, ele desconversou e não quis tocar no assunto.

Fiquei intrigado com aquilo, pois percebi que a garota, de alguma forma, estava intimidada. Eu jamais teria tomado conhecimento ou manuseado o famoso livro se, um dia,

o pequeno Hans não se sentisse mal na sala de aula. Imediatamente leve-o ao hospital, onde foi medicado, e em seguida leve-o para casa.

A família ficou muito agradecida pelo meu gesto, convidando-me para um lanche. Indagaram o que poderiam fazer em retribuição ao meu gesto. Lembrei-me do livro. Pedilhes que deixassem vê-lo.

Imediatamente houve quase uma reunião da família, onde discutiram acaloradamente o meu pleito, que acompanhava à distancia. Por fim, com uma solenidade que beirava o ritual, trouxeram-me uma caixa de madeira e colocaram-na em minhas mãos.

Abri-a. Ali dentro o famoso livro e, sobre ele, um pequeno pedaço de madeira que me intrigou de imediato, pois não devia ter mais do que cinco ou seis centímetros e era feito de madeira dura, possivelmente de raiz de alguma árvore antiga.

Examinei-o com dificuldade, pois seu tamanho minúsculo tornava isso difícil. Sobre uma base quadrada, com detalhes incrivelmente perfeitos, havia uma escultura, uma estátua, por assim dizer, de um ser que me lembrou um dos anões da história da Branca de Neve. Todos os detalhes presentes na pequena estátua eram proporcionais e fiquei admirando a habilidade do artista que havia esculpido tão delicada peça.

Deixei-a de lado e retirei o intrigante livro. Examinei-lhe a preciosa encadernação, feita de madeira e couro, com entalhes tão delicados e precisos que somente a mão de um artista hábil ao extremo poderia realizar.

Dentro, em páginas manuscritas, mas com uma letra bem traçada e legível, estavam apontamentos do próprio Dr. Fritz Berger. A palavra "Heinzelmãnnchen" se repetia constantemente naquele que se assemelhava a um diário do médico, escrito em forma de narrativa, com capítulo e títulos específicos.

Aquele rápido contato com o livro foi suficiente para aguçar ainda mais a minha curiosidade. Eu precisava traduzir o livro.

Começou, então, toda uma batalha entre mim e a família do querido doutor. Eles usavam como argumento o fato de o bondoso médico nada ter deixado recomendado a respeito do livro. Teria sido impossível essa tarefa se, numa das inúmeras vezes em que estive em casa deles e examinando o livro, não tivesse percebido aquela última anotação, no final do seu manuscrito.

Foi com indizível satisfação que a traduzi para a família:

"Quando perceberem que aqueles pássaros maravilhosos, que antes pousavam em nosso quintal, agora não são vistos; quando aquelas árvores ancestrais estiverem sendo consumidas pela ganância e cortadas; quando os animaizinhos e a própria natureza estiverem sendo exterminados, dêem conhecimento às minhas palavras e impeçam o fim daqueles que são responsáveis pelo equilíbrio e pela harmonia: os gnomos."

Aquele foi o argumento final que os convenceu. Atirei-me fascinado à tarefa de descobrir

o mundo maravilhoso desses seres fantásticos e bondosos, seus hábitos, seus amigos, seus inimigos, tudo através da narrativa agradável e apaixonada do Dr. Fritz Berger.

HEINZELMÃNNCHEN

GNOMOS

Em 1910, após formar-me em medicina, aceitei montar minha clínica ao sul Leipzig, num vilarejo próximo de Plauen, quase aos pés dos Alpes. O local era muito pobre, com pessoas humildes, mas sinceras e afáveis. Não tinha pretensões de me enriquecer ali, mas apenas amealhar experiência para habilitar-me, posteriormente, a trabalhar num hospital de um grande centro, talvez na própria Leipzig, cidade que eu, particularmente adorava.

Atendia, indistintamente, a todos os que me procuravam e, muito embora raramente recebesse em dinheiro, devo confessar que minha dispensa estava sempre cheia e jamais passei necessidade alguma naqueles invernos rigorosos que enfrentava.

Foi justamente, num desses invernos que tudo aconteceu. Ou melhor, que tudo começou. Um guarda-florestal me procurou uma noite, informando-me que a velha Sra. Asfeld, que morava retirada da cidade, havia sofrido uma queda e fraturado um dos ossos da perna. O guarda-florestal fizera todo o possível para atendê-la, improvisando uma tala, recolhera o máximo possível de lenha e deixado alguma comida pronta.

Preparei-me para ir atendê-la, pois sabia que, em sua avançada idade e imobilizada, ela poderia simplesmente morrer de frio ou de fome, caso eu não me apressasse. Infelizmente, logo em seguida começou uma nevasca que se estendeu por três longos dias. Minha angústia e minha preocupação foram enormes, mas nada havia que pudesse ser feito. Não se enxergava um palmo adiante do nariz e, com aquele tempo, tentar chegar a qualquer ponto era suicídio.

Quando a nevasca amainou, saí imediatamente para vê-la, pois temia que algo pior tivesse acontecido. Na verdade, apenas um milagre poderia ter mantido aquela pobre velhinha com vida durante aqueles três dias.

Ao chegar a casa dela, percebi, com alívio, que a lareira estava acesa, pois havia fumaça na chaminé. Imaginei o sacrifício e o tremendo esforço que ela tivera que fazer para se manter viva.

Como ela não atendesse às minhas batidas na porta, abri-a e entrei. Lá estava ela, deitada em sua cama, coberta. O ambiente estava aquecido. Ao lado da cama havia uma pequena mesa, sobre a qual repousava um prato de sopa ainda fumegante. No fogo, um caldeirão fumegava igualmente, indicando que ela acabara de preparar a comida. Estranhei que dormisse, mas me dei por feliz por perceber que ela respirava normalmente e parecia bem. ao lado do prato de sopa, chamou-me a atenção um pequeno pedaço de madeira, uma escultura tão minúscula e tão perfeita que provocou a minha admiração. A Sra. Asfeld continuava dormindo tranqüilamente. Passei em olhos pela cabana. Estava impecavelmente limpa como se ela tivesse acabado de arrumá-la.

Certamente pensei, no momento, que o guarda-florestal cometera um engano ou, então, pregara-me uma peça. Tudo parecia perfeito.

Isto não se confirmou, porém, no momento em que a velhinha moveu-se na cama e gemeu, encolhendo uma das pernas. Desperta, ela olhou-me e sorriu:

Dr. Fritz, que bom que tenha vindo!
O que houve, Sra. Asfeld? — indaguei-lhe.

Ela descobriu a perna quebrada e contou-me seu acidente, enquanto eu examinava o local. Uma tala havia sido colocada e cuidadosamente envolvida com pele de coelho e amarrada. Apenas um especialista improvisaria aquilo, num local como aquele.

Teve sorte do Sr. Hauen conhecer tanto sobre primeiros socorros, Sra. Asfeld. Não tenho muito que fazer aqui. Ele fez um trabalho excelente. — disse-lhe.
Ela se limitou a sorrir matreiramente e nada disse. Acomodou-se. Tomou a sopa. Verifiquei se ela precisava de alguma coisa, mas havia bastante lenha e comida suficiente. Prometi voltar todos os dias para vê-la. Ela agradeceu.
Trabalho interessante! — disse-lhe, apanhando aquela pequena escultura sobre a mesa ao lado da cama.

Ela silenciou. Estendeu gentilmente sua mão e eu lhe entreguei a escultura, que ela guardou num dos bolsos de sua roupa. Nada comentou.

Quando retornei ao vilarejo, procurei o Sr. Hauen para agradecê-lo e elogiá-lo pelo trabalho que, praticamente, salvara a perna da Sra. Asfeld.

Ele ficou sem entender do que eu estava falando. Afirmou que apenas improvisara uma tala com duas cascas de árvores, envolvidas com um pano, nada mais.

Fiquei imaginando, então, que a própria Sra. Asfeld havia feito aquilo. Intrigava-me, porém, o fato de que ela nada dissera a respeito, deixando-me crer que o guarda-florestal havia feito o curativo. De qualquer forma, estava aliviado por ela estar bem, mas curioso a respeito de toda aquela história.

No dia seguinte retornei à casa dela. A perna estava bem, mas percebi, nela, sinais de que a velhice roubava suas forças e os rigores do inverno poderiam ser demais para ela.

— Sra. Asfeld, deixe-me levá-la para o hospital do vilarejo. Lá poderá se recuperar melhor. Percebo que o inverno está sendo rigoroso demais com a senhora.

Ela apenas sorriu e respondeu:

Filho, não se preocupe comigo. Sei que os meus anéis estão contados.
Anéis, Sra. Asfeld?

— Anéis. Os anéis da minha árvore. Meu tempo está chegando ao fim. Só sinto deixar os meus amiguinhos, mas eles entenderão. Eles entendem melhor que nós essas coisas.

— Quem são esses amiguinhos de que me fala?

Ela sorriu novamente e seu olhar foi pousar na pequena estátua de madeira ao lado da cama.

PEZINHOS

Habituei-me a ir até a casa da Sra. Asfeld todos os dias, sempre no mesmo horário. Apesar de sua perna melhorar, sua saúde geral parecia comprometida. Não havia nada de grave com ela, mas apenas o peso da velhice cobrando seu pesado tributo.

Eu já nem reparava mais na casa impecavelmente limpa, na comida sempre fumegando no fogão nem no asseio geral da velha senhora. Um dia, porém, algo me chamou a atenção.

Como nova nevasca se anunciava, fui visitá-la mais cedo do que de costume. Como de hábito, apenas bati na porta e abri-a em seguida. Julguei ter visto um ser cinzento, pequeno e veloz, disparar pela cabana e sumir por um dos cômodos.

Há ratos na cabana? — indaguei-lhe.
Não, não há ratos por aqui. — assegurou-me ela.
Pensei ter visto um saindo dali, da pilha de lenha...

Foi então que aquele detalhe se revelou ante meus olhos. Todos os dias eu comparecia ali e, todos eles, o fogo se mantinha acesso e a pinha de lenha abastecida, arrumada cuidadosamente, com troncos uniformes da melhor madeira para o fogo.

Se a Sra. Asfeld se mantinha de cama, impossibilitada de maiores esforços, quem estava recolhendo toda aquela lenha?

Alguém mais tem vindo visitá-la, Sra. Asfeld?
Ela sorriu novamente para mim.
Meus amiguinhos estão sempre aqui, quando preciso deles.
Quem são seus amiguinhos? — insisti.
Estão por aí, na natureza. Apenas quem enxerga com o coração pode vê-los.
E como se faz para enxergar com o coração, Sra. Asfeld?
Talvez você já tenha enxergado, apenas não está prestando atenção.

Enquanto ela falava, brincava com a pequena estátua de madeira. Intrigado, caminhei pela cabana. Fui disfarçadamente até perto da lareira, a pretexto de me aquecer um pouco. Olhei o local de onde vira aquele pequeno vulto cinzento disparar pela cabana. Havia marcas molhadas ali. Pequenas marcas de passos, de botas, mas tão pequenas que, se feitas por um ser humano, ele deveria ser um recém-nascido, de tão pequenas que era.

Observei de onde vinham. Junto à porta, havia um recorte no tronco da parede, como uma pequena porta. A Sra. Asfeld me observava.

— Doutor, deixe que seu coração veja. Não seja curioso apenas.

Olhei-a sem entender. Ela havia depositado a pequena estátua ao lado da mesa. Aproximei-me.

— Posso? — indaguei-lhe.

Ela hesitou por instantes, depois aquiesceu, olhou-me com seus olhos bondosos.

Apanhei a pequena estátua. Era realmente um prodígio de perfeição. Levei-a à mesa, próxima da janela. Com uma lente de aumento que levava sempre em minha valise, examinei-a. Era a imagem de um pequeno ser, com uma longa barba e um chapéu pontudo. Parecia muito idoso, embora tivesse um rosto saudável e bonachão. A cintura, num entalhe incrivelmente perfeito, via-se pequenas bolsas presas num cinto largo. Os pés eram voltados para dentro, com as pontas se tocando e os calcanhares afastados. Usava um gorro pontudo. Por entre a barba fechada e os cabelos, despontavam duas orelhas um pouco maiores do que seria o normal.

Gnomo? — perguntei à Sra. Asfeld.
O que diz seu coração?

Sim, era um gnomo. Deveria ser um gnomo. Mas que artista havia sido tão perfeito e tão meticuloso para entalhar uma figura como aquela na raiz dura de um carvalho?

Continuei examinando a pequena peça. Os lábios estavam entreabertos e, observando melhor, vi que o interior da boca era oco. Intrigado, percebi que, na base da escultura, havia outra abertura. Compreendi logo o principio daquela peça. Aquelas duas aberturas só poderiam ser uma espécie de apito. Para quê, no entanto?

Levei-a aos lábios.

Não! — exclamou a Sra. Asfeld.
Não? — retruquei intrigado.
Não! — confirmou ela. fazendo um gesto de mão para que eu me aproximasse da cama.
Fui me sentar ao lado dela, que me fitou com seus olhos mansos e serenos, embotados pela idade, mas ainda vivos e espertos.
Muita coisa mudou e ainda mudará. Eles cometam isso comigo. Chegará um tempo em que eles estarão dispersos pela face da terra. Muitos já se esqueceram dos costumes originais e dos ensinamentos do Grande Livro. Outros ainda resistem cada vez mais confinados ao interior das grandes florestas, tentando manter vivas as tradições. Os meus amiguinhos em breve partirão. Apenas esperam a minha partida para isso.
Sra. Asfeld, não fale assim. Ainda viverá muito tempo.
Bondade sua, filho. Conheci minha árvore e contei seus anéis. Só me resta este.

Ela falava com tanta convicção que era impossível não acreditar nela. Eu era um homem de ciências. Conhecia lendas a respeito, mas sempre creditara isso à natureza tendência humana de mistificar tudo aquilo que desconhece. A ciência, no entanto, explicava muitos mistérios, desmistificando as lendas. Assim eu pensava, mas não quis argumentar com ela.

Afinal, estava vivendo seus últimos dias e por que não deixar que ela cultivasse suas próprias crenças? Não iria lhe fazer mal algum. Pelo contrário, dava-lhe a seriedade para enfrentar o Grande Momento.

A POÇÃO MÁGICA

Enquanto isso, eu tentava localizar algum parente da Sra. Asfeld para comunicar-lhe o estado de saúde da velha senhora. Infelizmente, se havia algum, ninguém na vila o conhecia. Aqueles que se lembravam mencionavam que ela e o marido viviam ali havia muito tempo. Após a morte dele, ela continuara sozinha, naquela casa. Desconhecia a existência de filhos ou alguém próximo. Isso me fez assumir um parentesco com ela, principalmente porque, naquela época, eu ainda era solteiro e não tinha nenhum parente que vivesse perto dali.

Apesar de seu estado de saúde, impressionava-me, porém, como seu humor e sua alegria não se esgotavam. Ela se mantinha incrivelmente serena e tranqüila. Além disso, qualquer outra pessoa, na sua idade, naquele momento, estaria em pior estado, com o corpo refletindo visivelmente os horrores da agonia lenta. A Sra. Asfeld se mantinha absolutamente intacta fisicamente. Apenas seu tom de voz e o brilho que esmorecia em seus olhos denunciavam a gravidade de seu estado.

Eu percebia, constantemente, junto de sua cama, pequenos vidros com substâncias que eu sequer imaginava o que fosse. Certa vez lhe perguntei. Ela respondeu apenas assim:

— É a poção mágica me preparando para o Grande Momento.

Por mais que eu indagasse, ela não me deu maiores explicações. Se era alguma espécie de remédio, quem o estava preparando? O que continha? Ela não me deu respostas.

Um dia indaguei-lhe por que não tinha um animalzinho de estimação, um gato que fosse, para lhe fazer companhia? Ela riu e me respondeu:

—Tenho toda a companhia de que preciso. Além disso, eles e os gatos jamais se entenderam.

E eu fiquei sem saber, pelo menos pôr algum tempo, mais este mistério.

Naquela época do ano, aumentavam os casos de doenças, principalmente porque o inverno estava sendo particularmente rigoroso. Isso exigia de mim longas caminhadas para visitar meus pacientes, que aumentavam a cada dia. Nenhuma vez, no entanto, deixei de ir ver a Sra. Asfeld, principalmente porque, lá naquela cabana, eu me sentia bem, como se uma atmosfera mágica existisse lá e me fizesse recuperar as energias e o ânimo para cuidar de todos os meus doentes.

Mesmo assim, o trabalho avolumou-se. Passei a dormir pouco e a alimentar-me mal. Tudo isso, aliado à exaustão que as penosas caminhadas na neve provocavam, foram me debilitando.

Certo dia, ao visitar a Sra. Asfeld, eu ardia em febre. Estava tão mal que, após trocar poucas palavras com ela, eu desmaiei. O que houve depois apenas me vem à mente em rápidas imagens.

Ouvi um longo e agudo assobio, prolongado e penetrando. Algum tempo depois, senti-me deslizar pelo piso da cabana. Vozes baixinhas, numa língua estranha gritavam ordens que eu não entendia. Senti-me arrastado para cima de uma cama, que havia num outro cômodo da casa. Ali me cobriram. Houve uma intensa agitação ao meu redor. Em determinado momento, julguei ver uma minúscula figura, talvez do tamanho de um palmo dos meus, diante de meus olhos. Tinha em suas mãos uma pequena caneca, que introduziu entre meus lábios, derramando em minha boca o seu conteúdo.

O sabor lembrou-me o gosto do chá de sabugueiro, mas havia outros sabores. Adormeci. Devo ter dormido por algumas horas. Quando despertei, sentia-me bem, revigorado, como se todo o cansaço e a fraqueza houvessem passado miraculosamente.

Levantei-me e fui até a Sra. Asfeld. Ela sorria fracamente, pobrezinha, mas se mostrou feliz ao me ver em pé.

Preparando para enfrentar o trabalho, meu filho? — indagou-me ela.
Sim, o que houve comigo?
Acho que provou um pouco de poção mágica. — respondeu ela, sorrindo para mim.

WADJA

Depois daquele acontecimento, deixei de questionar a Sra. Asfeld. Primeiro porque não obteria dela nenhuma resposta; segundo porque meus princípios de homem de ciência já haviam sido por demais abalados, desde que começara a visitar aquela cabana.

A perna da Sra. Asfeld curou-se, mas ela já não podia me levantar. Estava cada dia mais próxima do Grande Momento e nada havia que eu pudesse fazer, a não ser estar ali, diariamente, ouvindo-a contar-me, de modo enigmático, histórias de seus amiguinhos.

Aquilo se tornou um hábito e, mesmo nas piores nevascas eu conseguia chegar até sua cabana. Conheci Wadja e passei a acreditar, não por ter sido convencido pela Sra. Asfeld, mas por ter testemunhado o acontecimento mais insólito de minha vida, até então.

Depois disso, jamais voltei a me surpreender com qualquer coisa da parte deles, embora sempre me impressionassem

com tudo que faziam, diziam ou demonstravam.

Nevava fortemente e eu estava a meio caminho da casa da velha senhora. Não hesitei em continuar. Quando lá cheguei, aquele ambiente acolhedor e aquela atmosfera agradável e encantadora me envolveram.

A Sra. Asfeld pediu-me que preparasse um chá para nós, usando algumas ervas que guardava em sua cozinha. Quando me dispunha a fazer isso, tive a maior surpresa do mundo. Ao lado do fogão, sob alguns troncos que haviam deslizado da pilha, estava aquela pequena criatura, imóvel, aparentemente morta.

Fiquei sem reação, não sabendo se me debruçava para examiná-lo eu corria avisar a Sra. Asfeld. Minha curiosidade acabou superando a dúvida. Inclinei-me e afastei os troncos de lenha. Uma das pernas da pequena criatura estava retorcida, possivelmente fraturada. Seu rosto estava coberto de sangue coagulado. Os lábios estavam incrivelmente inchados e feridos. Ergui-o em minhas mãos. Media uns quinze centímetros. Usava um gorro pontudo, vermelho, de feltro gasto. Botas de pele calçavam seus pés. Suas roupas eram tecidas rusticamente, mas grossas e protetoras. Tinha, presas ao cinto largo, algumas bolsas, cujo conteúdo não pude examinar, de tão pequenas que eram.

Sra. Asfeld, veja o que achei perto do fogão — disse-lhe, levando o pequeno ser até ela.
Wadja! murmurou ela, num sopro angustiado, abrindo espaço na cama para que eu ali o depositasse.

Antes de qualquer coisa, ela apanhou aquela pequena escultura e levou-a aos lábios. O assobio longo e agudo foi o mesmo que ouvi naquele dia, quando passei mal na cabana.

Após aquele assobio, com uma modulação realmente impressionante e angustiada, ela se pôs a examinar o pequeno ferido junto dela.

Deve haver algo que eu possa fazer. Afinal, sou médico — disse eu, pateticamente.
Nada há aqui que você possa fazer, meu filho. Deixe estar que tudo se resolve.

Quase em seguida, ouvi um ruído estranho. Voltei-me a tempo de ver, junto à porta, um bloco de madeira deslizar, revelando uma abertura no tronco. Por ali entraram três figuras incrivelmente parecidas com o ferido que repousava na cama, ao lado da Sra. Asfeld.

— Nada entendo do que falam. — observei.
— É assim mesmo, não se preocupe. Apenas deixe-os fazer o que tem que ser feito. —

recomendou-me ela. A Sra. Asfeld depositou o pequeno ferido junto da casa, ao alcance dos outros três, que

o levaram nos braços rapidamente até a abertura junto à porta.

Segui-os, cheio de curiosidade. Lá fora, assobiaram repetidas vezes. Ouvi um bater de asas e uma faisoa veio pousar junto à cabana. Imediatamente uma pequena cesta foi presa ao pescoço dela e, lá dentro, nosso pequeno ferido foi acomodado e preso com algumas correias finíssimas. A faisoa partiu. Quando voltei a olhar para baixo, os três haviam sumido. Pensei que tivessem voltado para a cabana. Fui ter com a Sra. Asfeld.

Onde estão? — indaguei.
Para o palácio.
Palácio? Que palácio?
Você faz muitas perguntas, meu filho. Por que não vai preparar aquele chá para nós?

— Mas Sra. Asfeld, eu vi. Veja, em minhas mãos, é sangue daquela criaturinha. Não pode negar isso. Precisa me explicar...

— Vá preparar o chá. Eu lhe contarei o que puder. — prometeu ela.

Fiz o que ela ordenará. Pouco depois, sentei-me junto da cama, dando mostras de que não sairia dali tão cedo. pelos menos enquanto não ouvisse o que ela tinha para me contar.

Você acaba de conhecer meus amiguinhos. Aqueles de que tanto lhe falei.
Gnomos?
Sim, gnomos ou duendes, como preferir. São eles que têm cuidado de mim todo esse tempo. Desde que meu marido morreu. São meus amigos do mundo. Aliás, você e eles são meus únicos e melhores amigos.
— Aquele que estava machucado possivelmente está morto. Imóvel daquele jeito...
Engana-se. Eles fazem assim sempre. Fingem-se de morto propositalmente. Não apenas para enganar seus perseguidores, mas para, em caso de acidente ou ferimento, se manterem mais tempo vivos. São umas criaturinhas imprevisíveis, cheias de conhecimento e sabedoria.
Foram eles que me cuidaram naquele dia?
Sim, eles mesmos.
Foram atraídos por um assobio...
Sim, por esse assobio. — disse-me ela, mostrando-me a pequena escultura. Finalmente entendi para que ela servia. Era mesmo um apito, uma forma de chamar por

socorro.

Normalmente, quando um deles é ferido, comunica-se com os outros através do próprio assobio. Mas Wadja havia machucado os lábios, por isso não pôde pedir socorro. Certamente teria morrido, se você não o descobrisse ali, machucado.
Foi mesmo uma sorte, mas poderia me falar mais a respeito deles? — indaguei-lhe, cheio de curiosidade.
Infelizmente, não. Eles lhe contarão o que você deve ficar sabendo.
Eles farão mesmo isso?
Espere e verá. — prometeu-me ela, com um sorriso.

O GRANDE MOMENTO

Não voltei a ver os amiguinhos da Sra. Asfeld pelo resto daquele inverno, embora ela me assegurasse que Wadja, este era o nome do gnomo, estava bem e se recuperando dos ferimentos que sofrera.

Dia a dia a Sra. Asfeld definhava e nada havia que se pudesse fazer. Quando a primavera chegou e os bosques se cobriram de verde e de flores novamente, com os animais retornando de seu longo período de hibernação, chegou o Grande Momento daquela anciã.

Quando fui visitá-la, numa tarde esplendorosa, com pássaros cantando por toda parte e pequenos animais percorrendo o bosque, mal podia imaginar que tudo já estava consumado.

Encontrei a casa toda arrumada, como sempre, e ela estendida em sua cama, coberta com um lençol imaculado, as mãos cruzadas sobre o peito e um ramalhete de flores silvestres preso entre seus dedos.

Alguns dias antes ela pedira a presença do pastor local, que a abençoou e rezaram juntos. Olhando-a, ali estendida na cama, com uma expressão serena no rosto, lembrei-me de seu pedido:

"— Meu filho, quando chegar meu Grande Momento, peço-lhe que me enterre ao lado daquele carvalho lá fora, de forma quê, toda manhã, eu possa olhar o sol nascer."

Não me restava outra coisa a fazer, senão atender ao seu pedido. Passei o resto da tarde cavando sua sepultura e, quando entardecia, eu a sepultei, exatamente como tinha recomendado.

Resolvi pernoitar na cabana, porque escurecia e não era recomendável caminhar naquele bosque, após o escurecer. Acomodei-me no quarto onde havia ficado naquele dia que adoeci. Fiz uma ligeira refeição e me deitei. Estava exausto e emocionado. Apaguei o lampião. Apenas o fogo ardendo na lareira jogava sombras e luzes na sala, iluminando parcialmente o quarto, cuja porta eu deixei aberta.

Ouvi, então, aquele ruído de madeira deslizando. De minha cama pude vislumbrar o bloco de madeira de abrir junto à porta e uma minúscula criatura entrar na casa. Por instantes parou, como que farejando o ar. Depois, veio na minha direção.

Sentei-me na cama. O gnomo ficou parado na porta, olhando por um longo tempo, sem nada dizer. percebi, então, que ele chorava, apertando os olhos, mãos cruzadas nas costas. Choramos juntos pela Sra. Asfeld.

UM JOVEM COM DUZENTOS ANOS DE IDADE

Ajudei-o a subir até a cama. Ele se sentou no travesseiro e ficou quieto por um longo tempo. Pensei em acender novamente o lampião para vê-lo melhor, mas julguei que isso fosse assustá-lo.

Meu nome é Wadja e já nos conhecemos. Você salvou a minha vida e eu lhe agradeço. — disse-me ele, finalmente.
Foi pura sorte eu ter chegado e...
Não há sorte, não esse tipo de sorte. Tudo estava escrito no Grande Livro.
Grande Livro?
Sim, o livro onde estão registrados todos os fatos importantes da vida de todos os gnomos.
Todos? — surpreendi-me.
Todos. — confirmou ele.
Por isso estou aqui para manifestar sua curiosidade. Fui autorizado a isso.
Autorizado? Por quem?
Há coisas que não podem ser ditas. Fazem parte da Grande Leia. Cabe apenas respeitá-la e é isso que faremos. Pergunte-me o que puder ser respondido, será.

Todo o meu cansaço e o meu sono foram embora. Ali estava aquela intrigante figura, disposta a responder, finalmente, a todas as minhas indagações.

Tentei ver melhor o meu interlocutor. Sua longa e embranquecida barba dava-me a impressão de que se tratava de um gnomo-ancião. Perguntei-lhe:

Quantos anos você tem, Wadja?
Completei duzentos anos neste inverno. — respondeu ele, para minha surpresa.

Mal pude conter o riso. Ele realmente falava sério, mas isso ia além de minhas expectativas.

— Você é um gnomo velho?
Ele riu, então, balançando a cabeça pacientemente.

Sou um jovem, na flor da minha idade. Acabei de chegar a metade de minha vida. Casei-me há uns cem anos. Há mais de cento e vinte terminei a minha casa. Meus filhos já têm oitenta anos e são duas crianças maravilhosas. Meu filho, inclusive, já começou a procurar um local adequado para construir sua casa.
— Por que tão cedo assim?
Porque demora para se fazer uma casa. Temos que procurar o local adequado, escavar, fazer as paredes, os móveis, tudo, praticamente.
E como são essas casas? Não me lembro de ter visto nenhuma delas em minhas andanças por este bosque?
E jamais verá. Fazemos nossas casas sob as árvores.
Sob as árvores? — surpreendi-me.
Isso, isso mesmo. Vai ser difícil explicar. Por que não acende o lampião e me arruma um pedaço de papel e outro de carvão.

Saltei da cama e providenciei o que ele me pedira. Pus meu bloco de receitas sobre a cama e lhe passei um pequeno pedaço de carvão, onde ele desenhou sua casa.

A minúscula e intrigante figurinha. Vestia um gorro pontudo, de feltro vermelho, uma bata azul, sem colarinho, de tecido rústico e grosso. As calças eram marrons, parecendo pele. As botas eram de couro. Usava um cinto, de onde pendiam diversas bolsas pequeninas. Apesar da barba, a pele do seu rosto era saudável, bem rosada. O nariz era ligeiramente arrebitado. Seus olhos eram cinza e, enquanto desenhava, movia curiosamente as orelhas.

Entendeu como é agora? — indagou-me ele, após terminar o desenho.
Observei que tem muita habilidade para desenhar. — disse-lhe.
Somos hábeis em muitas coisas e, como o tempo, você saberá. — prometeu-me ele.

Debrucei-me sobre o desenho de Wadja, cheio de detalhes, mostrando a entrada da casa, junto a uma árvore, um túnel na direção norte-sul, ligeiramente ascendente, até onde era, propriamente, o corpo de sua casa, sob um enorme carvalho, entre as raízes.

Para que serve este buraco? — indaguei-lhe, apontando, no desenho, logo abaixo da entrada falsa.
Este é o alçapão para deter os gambás, que são nossos inimigos, juntamente com as doninhas e os ratos. Quando um deles localiza a entrada de nossas casas e tenta entrar, cai no alçapão. Vou lhe fazer um desenho de como a armadilha funciona.

Era mesmo engenhosa, apesar de simples, aquela armadilha para evitar intrusos.

— Quer que eu lhe conte mais sobre a construção de uma casa de gnomo?

— Depois — respondi-lhe. — Agora gostaria de saber alguma coisa em relação a Sra. Asfeld.

A POÇÃO MÁGICA

Uma boa senhora, ela e o marido sempre nos ajudaram. Deixavam todos os dias, do lado de fora da cabana, comida, pedacinhos de pão fresco e um licor delicioso que ela preparava com amoras. Nós, gnomos, adoramos um bom licor. Quando o marido dela morreu, nós passamos a cuidar dela. Quando ela se acidentou, inclusive, mantivemos a casa limpa, comida feita, lenha suficiente...
— E aquilo que ela chamava poção mágica?
Ele pensou por instantes, como se estivesse avaliando a minha pergunta.
Acho que não fará mal algum você saber. Dávamos a ela, diariamente, um pouco de nossa Poção do Grande Momento. Faz com que a pessoa enfrente serenamente sua passagem para o outro mundo, sem sofrimentos físicos.
— Por que, então, essa poção não é distribuída a todos que sofrem e...
Ele interrompeu-me com um gesto de mão.
Há muito tempo, nós, gnomos, éramos aceitos normalmente pelas pessoas. Isso foi há muito, muito tempo atrás, quando as águas dos rios eram totalmente puras, o céu era limpo e os animais não tinham inimigos, a não ser rusgas entre si...
De que inimigos você fala, Wadja?
Daquele que mata apenas pelo prazer de matar, sem utilidade ou necessidade.
Naquele tempo, todos acreditavam em nós e nos aceitavam. Ajudávamos indiscriminadamente todos aqueles que precisavam ou recorriam a nós. Com o passar do tempo, as pessoas passam a ter outras prioridades, a ambição nasceu e floresceu entre eles, a inveja, a cobiça e todo tipo de sentimento que os impede de nos enxergar...

Lembrei-me do que a Sra. Asfeld me dissera, um dia, sobre enxergar com o coração.

Comentei a respeito:

— A Sra. Asfeld me disse alguma coisa a respeito de enxergar com o coração...

Essa é a questão toda. Nós, gnomos, nos tornamos muito arredios e, de certa forma, descrentes com vocês. Apenas às pessoas como a Sra. Asfeld e como você nós concordamos em aparecer. Porque vocês nos vêem do coração.
Outra coisa, Wadja. O que tomei, naquele dia que fiquei doente? Foram vocês que me levaram para a cama, não foi?
Ele riu, concordando com a cabeça.
O que você tomou foi tirado da própria natureza, graciosamente. A natureza é, ainda, a melhor e maior farmácia que existe, doutor. No seu caso, tivemos apenas que selecionar as plantas adequadas para voltar a harmonizá-lo com a natureza. Por isso se sentiu tão bem depois.
Tive que reconhecer que, desde aquele dia em que tomei a poção, jamais voltei a me sentir cansado ou estafado. Tenho trabalhado normalmente, com mais intensidade que antes e muita alegria.
Mais uma coisa, Wadja. Para onde o levaram aquele dia, naquele cesto pendurado no pescoço de uma faisoa?
Aquele é nosso método de socorro urgente. Meus ferimentos eram graves, por isso fui levado ao Palácio.
Palácio? — indaguei, interessado.
Sim, ao nosso palácio, onde mora nosso rei.
Onde fica isso?

Ele me olhou seriamente. Era incrível como a expressão de seu rosto podia passar do sorriso mais condescendente à expressão mais séria.

— Isso não posso lhe dizer, meu amigo.

Ele saltou agilmente da cama e caminhou na direção da porta. Antes que eu perguntasse qualquer coisa, ele se voltou e disse:

— Agora durma, meu amigo. Voltarei amanhã para contar-lhe mais. Tenho coisas a fazer. Muitas ainda, antes que o sol nasça.

No momento seguinte, ele sumiu pela abertura da porta. Corri até a janela, mas, apesar do luar generoso, não vi nem sombra do meu amiguinho.

Fui até a passagem no tronco da parede. Puxei o bloco de madeira que era um tanto pesado. No entanto, meu amiguinho o havia afastado e, depois, fechado com incrível facilidade. Considerando seu tamanho, deveria ter uma força desproporcional. Em relação a isso, eu lhe faria algumas perguntas no dia seguinte e ele me daria a mais impressionante demonstração de força que jamais vi.

Levou-me até o lado de fora da cabana, onde havia uma velha tora, de uma árvore cortada por um raio.

Tente levantá-la. — desafiou-me ele.
Desnecessário mencionar que, apesar de todo o meu esforço, mal consegui movê-la.
Observe. — disse ele, apoiando as costas numa das extremidades do tronco.
Para meu espanto, ele ergueu o tronco com uma facilidade espantosa.
Temos o equivalente à força de sete homens. — disse ele, com naturalidade.

De modo algum eu duvidei.

O PRESENTE

No dia seguinte, de volta ao vilarejo e tendo comunicado o falecimento da boa velhinha, tive uma das maiores surpresas de minha vida. Fui procurado, pelo notário local que me informou que, com a morte da Sra. Asfeld, eu passava a ser o proprietário de sua casa, no bosque. Não sei de que forma ela conseguiu fazer isso, mas suspeito que Wadja e os outros gnomos tiveram alguma coisa a ver com isso.

Deixei a pensão onde morava e me transferi para a cabana no bosque, sem me importar com as dificuldades que isso traria para atender meus pacientes. Wadja havia me deixado intrigado com suas primeiras revelações e eu ansiava por saber mais a respeito dele e dos gnomos.

Naquela noite, tendo providenciado tudo e visitado meus pacientes, retornei à cabana. Quando lá cheguei, Wadja estava sentado diante da lareira, fumando um curioso cachimbo, apoiado no piso da cabana.

Preparei uma refeição para mim, enquanto ele se mantinha lá, diante do fogo, imóvel. Finalmente, puxei uma cadeira para diante da lareira, acendi meu cachimbo e iniciamos a conversa.

O que você gostaria de perguntar hoje? — indagou-me ele.
O que você foi fazer ontem, quando saiu daqui?
Muitas coisas: recolher comida, conseguir algumas ervas para fazer remédios, verificar se algum animal precisava de ajuda e outras coisas, que não posso lhe contar.
Todos os gnomos fazem isso?
Todos, indistintamente.
Como conseguiram aquele testamento da Sra. Asfeld, deixando-me a cabana?
É uma das coisas que não posso lhe contar, mas basta saber que fizemos. Podemos fazer muitas coisas, além da sua imaginação.

Ele me pediu um pouco de licor de amoras da Sra. Asfeld. Estendeu-se, para isso, uma pequena caneca, retirada de uma das bolsas que trazia presas ao cinto.

Examinei-a. Era feita de ponta de um chifre de alce, num trabalho delicado de torneamento e entalhe. Enchi-a cuidadosamente e entreguei-lhe. Ele provou com um ar de satisfação.

— Gostaria que me falasse um pouco sobre as origens dos gnomos, Wadja.

Ele se sentou no piso e cruzou as mãos sobre os joelhos, pensativo.

O grande Livro narra isso, mas não posso lhe falar sobre tudo o que ele contém. Posso lhe dizer, no entanto, que estamos aqui há muito tempo, tanto quanto vocês.
De alguma forma vocês já foram como nós, quero dizer, em relação ao tamanho?
Não, sempre fomos assim.
E como você explica isso?
Da mesma forma que existem pássaros enormes e outros pequenos e delicados, baleias e delicados peixinhos dourados, leões e o manso gato caseiro, também assim existimos, em relação a vocês.

Colocada daquela forma, a questão era realmente muito simples.

— E os poderes que vocês possuem?

Não é exclusividade nossa. Todas as criaturas vivas foram criadas assim. Enquanto nós nos dedicamos cada vez mais a entender e praticar, estudando constantemente, vocês foram se embrutecendo, desenvolvendo outras habilidades e esquecendo-se dessas, que hoje lhes causam surpresa.
Fiquei refletindo nas sábias palavras daquela criaturinha. As virtudes humanas a cada dia se tornavam mais escassas e menos cultivadas. A ambição cegava a humanidade. A necessidade do lucro e a ganância jogavam irmãos contra irmãos. Como cultivar, numa sociedade assim, aquelas virtudes simples, de amor à natureza e aos semelhantes, aos animais e à floresta?
Naquele dia em que vieram socorrê-lo, reparei que todos vocês se vestem da mesma forma, com o gorro vermelho, as calças cinza, a camisa azul...
Tudo tem uma razão de ser. O gorro vermelho é para alertar nossas amigas, as aves de rapina, para que não nos confundam com uma de suas presas. Quanto ao resto nem tudo é igual. Normalmente, nossas roupas têm essas cores para passarem despercebidas à noite, quando circulamos.
— Por que não gostam de ser vistos?
Por que deveríamos gostar? O que aconteceria se um de nós fosse capturado? Viraríamos atração de uma feira qualquer, não concorda comigo?
— Bem, sou obrigado a reconhecer que você tem razão.
Por isso nos camuflamos, evitamos a luz do dia e procuramos confundir ao máximo quem tenta se aproximar de nós. Para isso a natureza nos deu habilidades específicas que desenvolvemos constantemente.

— Que tipo de habilidades?

Ele tomou mais um trago do licor. Estalou os lábios de satisfação. depois voltou a olhar para mim com seus olhinhos cinza e profundos.

— Somos fortes, muito fortes que vocês e posso lhe dar uma mostra disso. — disse ele e foi quando me surpreendeu, erguendo aquele pesado tronco.

Jamais vi outra demonstração de força tão convincente e tão displicente. Para ele, aquilo era perfeitamente normal. Talvez não pudesse era entender como nós éramos tão fracos.

— Que outras habilidades vocês têm, além da força?

Ele cofiou a longa barba, antes de responder:

Sabemos disfarçar nossas pegadas, não apenas tornando-as invisíveis aos seus olhos, como imitando o andar a as asas dos pássaros e dos animais.
— O que mais vocês podem fazer? — continuei, querendo saber tudo a respeito deles.
Podemos correr velozmente, mais rápido que qualquer predador que você conheça. Também podemos saltar de um modo que o surpreenderia. — disse ele e, juntando o ato à palavra, saltou até o aparador da lareira com incrível facilidade.

O aparador ficava a pelo menos um metro e meio do piso da lareira. Wadja media quinze centímetros, o que significava que havia saltado dez vezes a sua altura. Proporcionalmente, um homem mediano, de um metro e setenta de altura, saltaria dezessete metros.

Ele saltou de volta para o piso da cabana. Tomou o resto do licor, antes de me encarar de novo.

Nossos olhos são tão potentes como os olhos de um gavião e podem enxergar no escuro, como os de uma coruja. Podemos ouvir de qualquer direção, muito melhor que vocês. Além disso, nosso olfato é tão aguçado como o do cão ou da raposa. Na verdade, mesmo que um de nós fique cego ou surdo, poderá se locomover normalmente pela floresta, apenas guiando-se pelo vento, pelos perfumes, pelos cheiros...
Não pude me conter e comecei a rir, imaginando um gnomo cego e surdo se locomovendo no meio do bosque, evitando buracos, troncos caídos e tudo o mais.
Explique-me melhor isso, Wadja, pois não consigo entender como um gnomo cego e surdo poderá se mover no bosque sem se acidentar.
Ele sorriu da minha incredulidade.
É muito mais simples do que parece. Os gnomos conhecem todos os animais do bosque, inclusive pelo cheiro. Sabe onde moram e por onde andam. bata seguir essas inúmeras trilhas e chegar a qualquer lugar que queira.
E o que mais vocês fazem? — insisti, após ponderar por alguns instantes no que ele dissera.
Nosso senso de direção é extremamente desenvolvido, talvez até melhor que o dos pombos-correio ou das aves migratórias. Podemos prever o tempo e nos comunicarmos à distância. Também localizamos veios de água com a varinha de rabdomancia. Praticamos a medicina natural... Aliás, essas nossa habilidade foi ensinada a vocês. Como médico, deve ter tomado conhecimento das famosas simpatias, não?
— Simpatias para cura, coisa assim?
Exatamente. Vocês conhecem com este nome. Para nós, é simplesmente medicina. A natureza nos fornece tudo que precisamos para combater qualquer doença, embora

usemos isso mais para curar nossos amigos do que para nós mesmo.

— Por que isso?

Nosso meio de vida, o convívio com a natureza, alimentação natural, muito exercício físico... Tudo isso, aliado a nossa natural resistência e nossa longevidade.
— Quantos anos vive um gnomo?
Em média quatrocentos anos, embora alguns já tenham ultrapassado isso em muito. Meu bisavô, por exemplo, viveu até completar quinhentos e setenta e cinco anos.

— Tudo isso? — surpreendi-me.

Ele apenas sorriu daquele seu jeito bonachão, balançando a cabeça de um lado para outro.

Há uma coisa que eu não entendo ainda, Wadja. Se vocês vivem em função de ajudar os animais e aqueles que enxergam com o coração, por que não são mais reconhecidos? Eu, por exemplo, não me lembro de ter visto um livro sequer a respeito de vocês. Considerando o que têm para ensinar, acho isso uma grande falha, não concorda?
Os olhos dele brilharam por instantes e seu rosto ficou sério.
Nós temos o Grande Livro. Nele está tudo que se refere a nós e nos basta. Quanto a vocês, estaríamos criando um problema, se ajudássemos a publicar um livro a nosso respeito. Da mesma forma que, para nos ver, é preciso olhar com o coração. Acha isso possível? Se encontrar a fórmula, diga-me. — desafiou-me ele.
Pensei seriamente no que ele dissera. Quando estariam os homens preparados para ler com o coração.
Continuamos amanhã, meu bom amigo. — disse-me ele, rumando para a passagem junto à porta.

Corri à janela, na esperança de vê-lo desaparecer no bosque. Foi impossível. Ele já desaparecera como um passe de mágica.

ENXERGANDO COM O CORAÇÃO TODO O TEMPO

Na noite seguinte, mal eu havia terminado a minha refeição, lá estava meu solícito amigo, disposto a responder minhas perguntas. Apesar de o inverno já haver passado, nas primeiras noites de primavera ainda eram frias, por isso nos instalamos novamente diante da lareira, Wadja esperou pela minha pergunta.

— Tenho conversado com as pessoas por aí e percebido que existem muitas controvérsias a respeito dos gnomos. — observei eu. — Alguns, até, os consideram criaturas malévolas e...

— Oh, por favor, meu amigo. Não há controvérsias a nosso respeito, apenas ignorância.

Há uma confusão enorme, sabemos disso, mas não nos preocupamos em esclarecê-las, pois não é do nosso interesse.

Por que, então, alguns dizem que vocês fazem maldades?
Porque se enganam. Outras criaturas fazem isso e, por ignorância, atribuem a nós.
E quem são essas outras criaturas?

Ele cofiou longamente a barba, antes de responder:

— Bem, há alguns sobre os quais não gostamos de falar, mas, já que é para esclarecêlo, vamos lá: Inicialmente confundem-nos com os gênios, criaturas aladas que habitam os lagos, os rios, o alto das árvores. São maiores do que nós e são identificados imediatamente pelas asas. Não provocam danos à natureza. Dê-me aquele seu bloco de receitas e um pedaço de carvão. Vou lhe desenhar um gênio para perceber a diferença.

Providenciei o que ele me pedira. Habilmente ele desenhou a figura de um gênio para que eu compreendesse.

Assim é um gênio! — disse-me ele, mostrando-me o desenho feito.
É, realmente não parece com um gnomo. — observei.

Em seguida ele desenhou outra figura, sinistra, toda de preta e com ar malévolo.

Este é um Goblin. Está sempre de preto, inclusive o gorro e mede até trinta centímetros. São realmente maus e, normalmente, estão presentes em velórios, onde gostam de assustar os parentes das pessoas falecidas. São maldosos com os animais e gostam de metais e pedras preciosas. Perseguem-nos para roubar-nos. andam sempre com uma pá na mão para escavar nossas casas, à procura de coisas para roubar.
— Existem criaturas com as quais vocês são confundidos? — insisti.
Confundem-nos com os fantasmas, as assombrações, os espíritos das águas e as ninfas, mas estes seres são sempre invisíveis, dotados de poderes mágicos. Os fantasmas são maldosos. Podem se instalar numa casa e, enquanto não semearem o pânico e o desespero, não se dão por satisfeito.
— Há mesmo muita ignorância a respeito dos gnomos, não?
Sim, mas não nos importamos. Chegam até a nos confundir com os anões, mas estes são maiores, dóceis e não têm barba. Moram em comunidades próximas das montanhas, onde escavam suas minas, à procura de ouro e prata, principalmente.

— E quais são as criaturas sobre quem vocês não gostam de falar?

O rosto dele ficou sério por instantes, como se a simples lembrança daquelas criaturas já

o incomodasse.

— Os Trolls. Esses são nossos piores inimigos. São piores que os Goblins. São primitivos, incultos, brutos e muito feios. Têm enormes narizes, possuem cauda e cheiram mal. Gostam de roubar coisas também, mas de nos perseguir e torturar. Quando um gnomo cai em poder dos Trolls, dificilmente escapa com vida.

— E você pode desenhar um Troll?

Meio a contragosto, Wadja desenhou a figura horrível de um Troll.

Mesmo entre minha raça, há algumas diferenças. — Observou ele. — Existem, na verdade, seis tipos diferentes de gnomos, todos com características próprias.
— Curioso. — disse eu — Pensei que todos os gnomos fossem iguais.
Mas não são. Vou lhe explicar. Tivemos todos as mesmas origens, mas há uns dois mil anos, um pouco mais, um pouco menos, iniciou-se, entre os gnomos, a Grande Migração, que nos levou a espelhar-nos pelas terras de todo globo terrestre. A mistura com outras raças e criaturas fez nascerem essas diferenças. Além disso, os locais escolhidos também influenciaram essas diferenças.

— Que Grande Migração foi essa? — interrompi-o.

Ele pensou por instantes, depois respondeu:

sobre isso não poderei lhe falar nada. Basta que saiba que houve uma Grande Migração e que está deu origem aos diferentes tipos de gnomos que hoje existem.
Está bem, não perguntarei mais, — prometi-lhe. — Conte-me, então, sobre esses seis tipos de gnomos.
Contarei, mas, veja bem: pode ser que haja outros tipos de gnomos, frutos de cruzamento com criaturas que desconhecemos. Quanto a isso, nada sei. Vou lhe falar daquelas que já estão registradas no Grande Livro.
Há o Gnomo Doméstico, como eu. Diferenciamos dos outros porque temos um enorme conhecimento sobre a natureza humana. Tanto que somos os únicos que falamos a língua dos homens, seja ela qual for.
— E não há gnomos domésticos maus?
Apenas uma vez a cada mil anos isso acontece, mas já é previsto no Grande Livro. Os gnomos domésticos gostam de morar também em casas antigas, nos museus e nos castelos.
Você, como um gnomo doméstico, não precisaria morar nesta casa para ser assim considerado?
Não necessariamente. Como esta cabana é próxima ao bosque, prefiro morar na minha casa e cuidar dessa. Vamos dizer que, nestes casos, o gnomo adota uma casa. Tanto pode mudar-se para ela como apenas protegê-la e aos seus moradores.
— Entendi. — confirmei-lhe, enquanto ele caminhava um pouco sob a minha cadeira.
O Gnomo da Floresta em nada se diferencia de um gnomo doméstico, porque alternam essas atividades. Com o tempo, um gnomo da floresta aprende a conhecer os homens, mas não são todos que se dispõem a fazer o trabalho doméstico, por assim dizer. Preferem cuidar da floresta, dos animais e das aves.
— E os outros, como são?
Há o Gnomo do Jardim, que se diferencia dos demais apenas por usar uma camisa vermelha. É um tipo muito melancólico, que gosta de contar histórias cheias de tristezas. Às vezes se cansam e fogem para os bosques, mas só por algum tempo, retornando, em seguida, ao seu jardim. Prefere, principalmente, os grandes jardins das casas antigas.
— Sei que existem os gnomos das fazendas. — mencionei.
Sim, e são muito parecidos com os gnomos de jardim. Apenas não são tão melancólicos e extremante conservadores em suas opiniões e costumes. Os gnomos do Deserto são um pouquinho maiores que os da floresta e também não gostam muito de se aproximar dos homens. São mais desleixados com suas roupas, na maioria das vezes de cor cinza. Além deles, há o gnomo siberiano, a pior mistura de raças já produzida, uma vez que são maiores que os gnomos em geral, têm péssimo humor e, por qualquer coisinha, ficam ofendidos. Quando isso ocorre, vinga-se matando o gado, destruindo colheitas e outras malvadezas.
Pelo que percebi pelo seu tom de voz, você não gosta muito dos gnomos siberianos, não? — observei.
São a ovelha negra dos gnomos. São tão estranhos que conseguem se relacionar com os trolls, coisa que abominamos.
E todos eles têm os mesmo poderes e habilidades que os demais?
Quanto a isso, não existem diferenças.

Vi que ele se preparava para ir embora. Antes que ele saísse, indaguei-lhe.

Por que, assim que você sai, não posso vê-lo? Corro à janela e nem percebo o menor traço de sua passagem?
Ele sorriu, olhando ao redor.
Você está aprendendo agora a enxergar com o coração. Há uma atmosfera mágica nesta cabana que o faz assim. Uma vez lá fora, você muda. precisa aprender a nos enxergar com o coração todo o tempo. — alertou ele, saindo.

Pensei no que ele dissera, enquanto ia até a janela. Desta vez eu o vi, encontrando-se com outros gnomos, cumprimentaram-se alegremente e depois saindo para suas tarefas noturnas.

LOCALIZAÇÃO

Na noite seguinte, lá estava eu novamente, a postos para ouvir os fascinantes relatos do meu pequeno amigo. Fiquei à janela, olhando o bosque, para vê-lo chegar. De longe ele me acenou e eu respondi. Ele sorriu ao perceber que eu podia vê-lo também do lado de fora da cabana.

Assim que entrou, disse-me:

— Tem um bom coração, meu amigo. Viu como é fácil fazer isso?

Não tão fácil, Wadja. Não tão fácil. Ontem eu o vi saindo e se encontrando com seus amigos. Pareciam muito animados. O que foram fazer?
Tínhamos algumas coisas a fazer, mas, ao amanhecer, fomos mediar uma briga de galos.
— Briga de galos? — estranhei.
Sim, nós, gnomos, adoramos servir de árbitros nas brigas de galos. Isso nos diverte muito.
Estranhei o fato, pois via, nas brigas de galos, uma crueldade enorme. Ponderei a respeito com o meu amiguinho, que sorriu condescendentemente.
São brigas entre parceiros iguais, com regras iguais e armas iguais. Disputam um território ou uma fêmea e isso é natural entre os animais. Servimos de árbitros justamente para evitar maiores ferimentos e determinar o ganhador da luta. Não são brigas instigadas ou preparadas, como essas que vocês fazem. Se um dos galos se machuca, estamos lá para cuidar dele e tratar seus ferimentos.

Vista daquela forma, havia certo sentido em tudo aquilo.

— Você já me disse que cuidam dos animais. O que, por exemplo, vocês fazem?

Ontem libertamos três coelhos de umas armadilhas, onde estavam aprisionados. Julgamos isso cruel, pois o animal fica aprisionado por muito tempo, muitas vezes ferido. Não concordamos com isso. Um lobo perfurou a pata com uma farpa. Nós a removemos e costuramos o local...
Deve ter doído, pobre animal.
A farpa, sim, a operação, não. — disse-me ele, tranqüilamente.
Como assim, Wadja?
Usamos acupuntura, já ouviu falar?
Sim, é uma técnica milenar dos povos do oriente. Mas funciona mesmo?
Devia conhecê-la e praticá-la, doutor. Vai se surpreender. — aconselhou-me ele, com aquele olhar sábio.

Abriu uma de suas bolsas e estendeu-me a caneca de chifre de alce. Apressei-me em servi-lhe um pouco de licor de amora. Tomou-o, com grande satisfação.

— Onde os gnomos podem ser encontrados... — ia perguntando-lhe.

Os gnomos não podem ser encontrados, a menos que queiram — interrompeu-me ele.
Desculpe-me, acho que não me expressei bem. Eu queria saber em que países existem gnomos.
Praticamente em todos os países do hemisfério norte.
Por que isso?
Principalmente porque gostamos dos dias curtos e das noites longas. Os países onde ocorre possuem uma maior concentração de gnomos.
Lembre-me de um atlas que trazia comigo, e fui buscá-lo. Abri um mapa da Europa diante dele. Wadja olhou-o atentamente.
Veja, somais numerosos ali, no alto do mapa, na Escandinávia e nos países vizinhos, mas estamos espalhados por toda parte. — apontou ele no mapa. — Também estamos muito presentes na Inglaterra e na Irlanda. praticamente não há nenhum de nós em Portugal, Espanha, França e Itália.
Por que isso? — indaguei-lhe, curioso.
Nós nunca nos entendemos muito bom com os povo latinos.
Por quê? — insisti.
Questão de preferência, talvez. Não posso lhe dar mais detalhes a respeito.

Resolvi não questionar. Abri outro mapa, desta vez da Europa. Wadja examinou-o atentamente.

Aqui estamos presentes principalmente nesta região dos lagos, que se inicia nos Estados Unidos e se estende até o Território de Noroeste, no Canadá. Também habitamos a região da Baia de Hudson.

— No México e nos países da América Latina...

Já lhe disse alguma coisa a respeito, — interrompeu-me ele. — Posso lhe dizer, porém, que as imigrações para os países da América do Sul não nos passam despercebidas. Famílias inteiras estão se mudando. Não é de se admirar se algum de nós resolvermos viajar com eles, ocultos nas bagagens. Dizem que há locais realmente maravilhosos na América do Sul, com grandes florestas, casarões antigos, o tipo de coisa que nos atrai.
Sabe que tenho alguns parentes morando no Brasil?
Podem ser que eles tenham levado alguns gnomos para lá, na bagagem.
Seria muito interessante, não?
Sim, realmente muito interessante. Esta noite não vou poder ficar mais. preciso ajudar um amigo a abrir o poço da casa que está construindo.
Abrir um poço? E como pretendem fazer isso?
Amanhã eu lhe explico. — disse-me ele, despedindo-se.
Fui vê-lo encontrar-se com os outros gnomos, no bosque.

A LENDA DE THORN

Na noite seguinte, pontualmente, meu pequeno amigo se instalava comigo, diante da lareira. Servi-lhe um pouco de licor.

Conseguiram furar o poço ontem? — indaguei-lhe.
Sim, está terminado. Você ficou curioso para saber como fizemos isso, não?
Sim, exatamente.

— Uma toupeira fez isso por nós. Muitas coisas que fazemos só são possíveis graças à ajuda de nossos amigos, os animais.

— Muito engenhoso mesmo.

O bloco de receitas ficava ali, à disposição dele, com alguns pedaçinhos de carvão. Rápido e habilmente ele fez dois desenhos.

Veja aqui. Primeiro escolhemos um local adequado para o poço...
E como fazem isso?
Usamos a varinha de rabdomancia. É simples. Escolhido o local, pedimos à toupeira para furar um buraco vertical. Em seguida, quando encontramos água, introduzimos tubos de barro para evitar infiltração ou desmoronamentos e finalizamos com uma armação de pedras e madeira para proteção e retirada de água. O poço fica assim, então. — terminou ele, mostrando-me o outro desenho.
E o que fazem, enquanto a toupeira escava o poço?
Conversamos, contamos histórias, relembramos as lendas...
Lendas? Que lendas?
Lendas de Gnomos. Não gostaria de ouvir uma?
Adoraria, Wadja.
Meu pequeno amigo acomodou-se melhor e eu me preparei para ouvir sua narrativa.
Faz muito tempo, muito tempo mesmo, — começou ele. — Nossa princesa foi raptada do palácio por um grupo de trolls e levada para o recanto mais perigo e inóspito da floresta. O reino todo ficou consternado. Para soltá-la exigiam todo o ouro e toda a prata que havia nos cofres do palácio. Todos sabiam, no entanto, que mesmo tendo recebido o resgate, os trolls não perderiam a chance de torturá-la e matá-la. São mesmo umas criaturas abomináveis. A família real estava desesperada. Foi então que, lá do meio da floresta, surgiu Thorn, o gnomo mais forte, mais ágil e mais inteligente de todos. Quando soubera do que ocorrera com a princesa, apressou-se em apresentar-se ao rei.
— Estou a suas ordens, meu rei. — disse ele.
Thorn, meu leal súdito, fico impressionado com sua dedicação, mas desconfio que não haja nada que possamos fazer para salvar a princesa. — disse o rei, desconsolado.
Mesmo assim, precisamos tentar, majestade. Quero apenas a sua aprovação para isso.

— Se conseguir salvá-la, eu lhe darei a mão dela em casamento. — prometeu o rei.

Thorn ficou muito feliz, principalmente porque conhecia a princesa e era apaixonado por ela. Tão logo obteve a aprovação do rei, saiu para salvar a princesa. No caminho, encontrou um lobo ferido na cabeça por um tiro de um caçador. Embora preocupado com a princesa, Thorn parou para cuidar do ferimento. Quando terminou, o lobo agradeceu e perguntou:

Aonde você ia com tanta presa, Thorn, meu amigo?
Salvar a princesa, que foi levada pelos trolls.
Posso levá-lo até o grande rio que separa as terras dos trolls.

Atravessaram velozmente a floresta, até onde começava as terras dos trolls, no local mais desagradável do reino. Ali o lobo deixou Thorn que ficou sentado na margem pensando como atravessá-lo. Pensou em fazer um barco com folhas de bétula, mas o rio era muito caudaloso para isso. Lembrou-se, então, das suas amigas, as lontras. Chamou-as e imediatamente uma delas apareceu.

Preciso que me leve até a outra margem. — pediu ele.
É terra dos trolls, Thorn. Pode ser perigoso demais par o gnomo.
Tenho que ir lá salvar a princesa.
Sendo assim, vamos lá.

Thorn subiu na cabeça da lontra que, velozmente, atravessou o rio, deixando-o em segurança. Thorn agradeceu-a, depois começou a caminhar cautelosamente pela terra dos Trolls. Andar por lá é muito difícil, há pedras, espinhos, mau cheiro e armadilhas perigosas.

— Que tipo de armadilha? — indaguei, interrompendo o meu amigo.

— Todo tipo, as mais cruéis. Thorn, apesar de toda a sua habilidade, sentia-se fragilizado naquela terra, onde o cheiro de coisa podre confundia seu olfato, as pedras confundiam sua visão e não podia contar com seus amigos animais para ajudá-lo. Finalmente, após muito caminhar, Thorn descobriu o esconderijo daquelas horríveis criaturas, bem como o local onde se ocultava a princesa, presa numa caverna e vigiada por dois trolls mal-encarados. Thorn ficou ali, observando, tentando encontrar uma forma de libertar a princesa, mas isso era praticamente impossível, a menos que conseguisse afastar aqueles dois. Não percebeu, porém, que os trolls haviam deixado uma pequena aranha para ajudar a manter a princesa prisioneira. Antes que desse por si, a aranha-vigia o envolveu com sua teia pegajosa. Thorn foi preso e acorrentado, enquanto os trolls decidiam

o que fazer com ele.

Vamos queimá-lo. — sugeriu um deles.
Não, isso é pouco. Vamos passá-lo na pedra de amolar. — propôs outro.

Acorrentado, Thorn assistia tudo aquilo, sem poder fazer nada. Sabia que seria maltratado pelos trolls. Isso não o incomodava tanto como imaginar que nada poderia fazer para salvar a princesa.

Foi então que apareceu o rei dos trolls, o mais feio, o mais fedido, o mais cruel de todos.

— Tenho uma idéia melhor, — falou ele. — Vamos passá-lo na máquina de moer carne e fazer comida para ratos.

Os outros trolls não concordaram e iniciou-se uma discussão entre eles. Os trolls são criaturas tão desprezíveis que não respeitam o próprio rei. enquanto eles discutiam, Thorn abriu sua bolsa de ferramentas e retirou uma lima, rompendo a corrente que o prendia. Correu até a caverna e libertou a princesa. Fugiram rapidamente, evitando as armadilhas, mas foram descobertos. O rei dos trolls chamou um troll-corredor e mandou-o ir atrás dos fugitivos.

Mesmo com a lontra ajudando-o a atravessar o rio e com o lobo lhes dando uma carona, Thorn percebeu que o troll-corredor acabaria por alcançá-los. Precisava fazer alguma coisa para livrar-se daquele troll ou, fatalmente seriam recapturados. Ao passar por um pântano, ele pediu ao lobo que parasse. Escondeu a princesa numa toca de coelho, depois teve uma idéia. Para um gnomo, seu gorro o acompanha por toda a vida e jamais um gnomo se livra dele, a não ser em casos extremos. Aquele era um caso extremo. Pegou o gorro da princesa e o seu e colocou-os num poço de areia movediça, pensando em enganar o troll com isso. Ocultou-se e, quase em seguida, o troll corredor chegou todo esbaforido.

Danação, caíram na areia movediça. preciso levar ao menos seus corpos ou seus gorros, senão o rei não acreditará em mim. Desconfiados de tudo, os trolls não acreditam nem na palavra do rei, por isso o troll-corredor se inclinou sobre o poço de areia movediça para retirar os gorrinhos. Thorn aproveitou a oportunidade, saiu de seu esconderijo e deu uma paulada no troll, que caiu na areia movediça. Thorn apanhou a princesa e retornaram ao reino, onde foram recebidos com festas.
Perdoe-me, rei, por apresentar-me diante de vossa majestade sem meu gorro, mas tive de usá-lo para me livrar do troll-corredor que veio em nosso encalço. — explicou Thorn, pois era considerado uma grande ofensa se um gnomo aparecesse diante do rei sem o seu gorro.
O rei sorriu, no entanto, e disse:
Não seja por isso, meu filho. Vou mandar fazer um gorro nova para você, todo de ouro e pedras preciosas, como prova de minha gratidão.

Thorn casou-se com a princesa e ficou conhecido, a partir de então, não apenas como o mais corajoso e astuto dos gnomos, mas como o único a usar um gorro todo de ouro. — finalizou Wadja, sorrindo orgulhosamente.

— Foi uma bela história, Wadja. — elogiei.

— Conheço muitas outras e as contarei, mas não hoje. a floresta me espera e você precisa dormir. Boa-noite, meu amigo. — despediu-se ele, deixando-me maravilhado mais uma vez com aquelas fantásticas criaturinhas.

A ÁRVORE DA VIDA

Na noite seguinte, quando Wadja apareceu, eu estava me lembrando de algo que a Sra. Asfeld dissera, antes de falecer, a respeito de seus anéis.

Indaguei sobre isso a Wadja.

A bondosa Sra. Asfeld apenas se referiu a isso por analogia ao que fazemos. Quando um gnomo nasce, seu pai planta um carvalho. O gnomo saberá a sua idade pelo crescimento dessa árvores. — explicou ele.
— E nos locais onde não crescem carvalhos?
Então um pé de laranja-lima serve igualmente. Quando a árvore cresce, os pais do gnomo escrevem nela a data de nascimento do filho, que é também registrada numa placa de barro que o gnomo recebe quando completa vinte e cinco anos. A partir de então, deverá conservar essa placa muito bem guardada, num local secreto que somente ele conheça. Muitas vezes, quando o gnomo vai construir sua casa, escolhe justamente essa árvore para isso.
— E o que acontece se essa árvore morrer ou for atingida por um raio? — perguntei.
Da mesma forma como respeitamos a natureza, esta também nos respeita. Uma árvore da Vida jamais sofrerá qualquer coisa, seja doença ou raios, enquanto o gnomo for vivo. Só secará quando o gnomo morrer.
Quer dizer que esses velhos carvalhos secos, que se encontram pelas florestas, representam um gnomo que já morreu?

— Exatamente.

Meditei um pouco a respeito. Sabia de locais onde o desmatamento vinha se acelerando e fiquei imaginando o que seria daquelas pequenas criaturas, no futuro.

— Wadja, o que ocorre quando o homem derruba uma dessas árvores?

Ele ficou em silêncio por um longo tempo, antes de responder.

Para um gnomo, isso é uma verdadeira tragédia, porque ele perde toda a referência de seu nascimento, de sua idade, do ato praticado por seu pai, ao plantar a árvore. Não raras vezes, o gnomo enlouquece, pois a derrubada da árvores fatalmente implica na destruição de sua casa, entre as raízes. Um gnomo leva uns vinte e cinco anos para terminar sua casa. Recomeçá-la pode ser impossível.
— Que tragédia, meu amigo.
Por isso nos isolamos cada vez mais, no fundo dos bosques, onde tragédias não acontecem. Mas, observando a ganância do homem, percebemos que é tudo uma questão

de tempo, até que isso aconteça.

Tentei imaginar o que seria as vidas daquelas criaturas, se um dia as florestas fossem extintas. Eu, realmente, não conseguia dimensionar isso. Não acreditava que o homem, um dia, não acordaria e perceberia o mal que estava causando, a si próprio e à natureza.

Percebi que, naquela noite, em particular, meu amiguinho estava muito sério e pensativo.

— O que houve, Wadja?
Ele pensou por instantes, antes de me fitar com seu olhar cinza e brilhante.

Infelizmente, meu amigo, vou ter que me ausentar por algum tempo e privar-me de sua companhia. — explicou ele.
— O que houve?
Nosso rei está muito velhinho e às portas da morte. Vamos assisti-lo em seus últimos dias, depois escolher o novo rei.
— E isso vai demorar?
Para nós, não. Vivemos quatrocentos anos, por isso, um mês ou seis messes não querem dizer muita coisa.
Mas você retornará, não? Há tanto ainda que gostaria de saber sobre vocês. — disse eu.
Com toda certeza, meu amigo. Espere-me tranqüilamente que logo eu estarei de volta e lhe direi tudo que quiser saber. Enquanto isso, se precisar, mas somente se precisar mesmo, toque aquele apito que era da Sra. Asfeld. Eu virei imediatamente, mas só o faça se for extremamente urgente, porque estar com o meu rei, nos seus últimos dias, é muito importante para nós.

— Vou me lembrar disso, meu amigo.

Naquela noite, quando Wadja foi embora, acompanhei-o até o bosque. Vi seus amigos se aproximando. Sorriam e me acenavam amistosamente. Conversando, eles desapareceram por entre as árvores.

Fiquei ali, parado, por um longo tempo, aspirando o perfume da natureza, ouvindo os ruídos da floresta e refletindo sobre tanta vida que circulava ao meu redor.

Foi um dos momentos mais importantes de minha vida.

FIM