APRESENTAÇÃO

Esse século que terminou foi, para o homem, o de maior evolução científica em todos os sentidos. De prisioneiro à terra o homem ganhou o espaço e navega como um descobridor por entre as estrelas.

Dos meios de locomoção a tração animal o homem evoluiu para bólidos que percorrem as estradas a quilômetros por hora, levando-o para qualquer parte ou direção, já que toda a superfície terrestre se encontra recortada por uma malha viária completa.

Na medicina, doenças tidas como incuráveis estão extintas. Outras surgiram, mas a rapidez com que os cientistas desenvolvem medicamentos para controlá-las é espantoso. Anuncia-se a cada dia uma nova descoberta na área.

Remédios novos prometem ao homem a longevidade de Matusalém, com vigor físico, saúde mental, virilidade e fertilidade, como se o tempo não tivesse passado.

Nos meios de comunicação o computador e as fibras óticas revolucionaram os contatos entre as pessoas, pondo som e imagem ao alcance de todos. A televisão, com a agilidade de comunicação garantida por satélites cada vez mais modernos coloca o mundo dentro dos lares, unificando essa chamada aldeia global.

Conforto e facilidades foram postos à disposição do homem com uma incrível facilidade. Jogos eletrônicos, livros inteligentes, programas de computador, tudo tornou a vida mais fácil e mais divertida para todos.

Mas...

Há um alerta geral no ar. Um alerta que, neste fim de século, atinge de forma marcante seu tom mais alto. Um alerta do planeta que grita através de seus porta-vozes, pedindo socorro. Um alerta que nos faz voltar os olhos para o céu e tentar imaginar o que significa

o alargamento do buraco na camada de ozônio. Ou olhar para as nascentes de água e tentar descobrir qual o efeito de tanto lixo e de tanto tóxico nelas.

O planeta nunca esteve tão devastado. Florestas estão sendo derrubadas indiscriminadamente no mundo inteiro. Os seres elementais estão sendo cada vez mais expulsos e nada está restando que justifique suas existências.

De protetores da natureza, estão se tornando vítimas da devastação. Uma devastação que, certamente, cobrará seu preço ao homem, no século que vem. Uma devastação que, apesar de tudo, ainda pode ser impedida com a ajuda de amigos e protetores que também se encontram em extinção.

As fadas e os gnomos representam a última esperança para reverter o processo de destruição.

Precisamos começar a ouvi-los, entendê-los e conhecê-los, antes que seja tarde demais.

Antes, porém, algumas confusões precisam ser desfeitas sobre FADAS & GNOMOS.

ONDE ESTÃO ELES?

Após um período de doze anos de trabalho ininterrupto num importante jornal de Berlim, meu chefe, o afável Sr. Schumacher, decidiu que eu deveria tirar duas semanas de férias.

— Estou desagradando? — perguntei.

— Pelo contrário! A cada dia você se firma como nosso mais importante repórter, por isso nós queremos que descanse um pouco, antes de assumir novas obrigações.

Mas o que vou fazer? — insisti, pego de surpresa.
Por que não retorna para sua cidade natal? — sugeriu ele.
Para quê?
Sei lá! Faça-nos uma boa reportagem sobre as fadas e os gnomos.
Fadas? Gnomos? — estranhei.
Sim, isso mesmo! Você pode me dizer onde estão eles?

As palavras do meu editor calaram fundo em mim. Eu me lembrava das fadas e gnomos do meu tempo de criança, mas depois de tanto tempo, era-me difícil dizer que fora apenas imaginação de criança ou se tudo aquilo fora verdade.

Nasci em me criei em Dort, um pequeno vilarejo entre Reisa e Dresden, no sul da Alemanha. Tinha lá apenas uma tia idosa. Meus demais parentes haviam acompanhado meu avô quando, logo após a guerra, havia se mudado de Berlim destroçada para lá.

Com o tempo, todos acabaram retornando à capital. Os últimos foram, quando o Muro, finalmente, foi derrubado.

Intrigou-me voltar a Dort, principalmente porque ainda tinha na memória a beleza e a tranqüilidade daquele local, cercado de verde por todos os lados, com casas no velho estilo colonial.

O que encontrei, no entanto, foi uma paisagem cinzenta e triste, com a natureza devastada, campos e florestas destruídos, nascentes e rios poluídas, fumaça de algumas fábricas e uma população urbanizada, apresada, sem aquela serenidade com que os lembrava, de minha infância e adolescência.

Minha tia estava enferma, mas muito se alegrou ao me ver. Conversamos horas a fio sobre os parentes que haviam se mudado para Berlim.

Ela me mostrou um álbum de fotos antigas e em muitas delas em me reconheci criança ainda. Chamou-me a atenção uma das fotos, que retratava o bosque ao redor da cidade, num ponto onde nós, crianças, costumávamos visitar no inverno, pela manhã, para procurar pegadas de gnomos.

— Tia Helga — perguntei-lhe. — Ainda existem fadas e gnomos por aqui?

Ela riu, olhando significativamente para a fotografia. Sabia porque eu fizera aquela pergunta. Ela muitas vezes nos acompanhara até lá, à procura de pegadas de gnomos e de fadas.

Eu me lembro que, naquela época, Tia Helga era tão loura e tão bonita, com aqueles olhos azuis enormes e o rosto sorridente. Eu desconfiei por muito tempo que ela fosse a Rainha das Fadas daquela região, pois muitas vezes, enquanto ela se reclinava contra um tronco, numa bela manhã de primavera, eu podia ver os pequenos focos de luz cintilando ao seu redor, por entre seus cabelos.

Naqueles momentos, ela murmurava e ria silenciosamente. Eu sabia que ela conversava com as fadas, que lhes dava ordens, que ouvia seus relatos.

— Há muitos anos que não vejo o sinal de um Caminho sem Fim nem de um Anel de Fadas. Pegadas de gnomos há muito sumiram, pois o bosque foi todo arrancado, como você deve ter visto.

Olhei seus olhos. Brilhavam, mas de tristeza.

— Por que me perguntou isso, Erich? — indagou ela.

Não sei... Após tanto tempo, já nem me lembro mais se tudo aquilo era mesmo verdade ou se não passava de imaginação infantil...
Ela riu e me olhou com compreensão, embora eu sentisse um certo ar de reprovação nos seus olhos.
Gostaria de se certificar disso? — indagou ela e havia um tom de desafio em sua voz.
E por que não? Sou um repórter e talvez fosse interessante fazer com que as pessoas se lembrem dessas coisas que povoaram suas infâncias.
Lembra-se do velho caminho que passava diante da casa da Velha Ingritt?
Refere-se à Velha Bruxa?
Sim, isso mesmo...
Ficava na direção do bosque, mas não sei ao certo se conseguiria encontrá-lo de novo.
Vou lhe dar as indicações. Siga em frente por ele. Talvez encontre um Caminho Sem Fim. Quer se arriscar?

Pensei por instantes.

— E por que não?

O que eu tinha a temer, afinal? Considerava-me um homem letrado, acostumado à crueza da notícia e da realidade em si. O que poderia me assustar percorrendo um caminho antigo, a não ser os fantasmas de minha infância?

Não me incomodei. Havia exorcizado meus demônios e fantasmas havia muito tempo. Dessa forma, pedi a Tia Helga que me desse as indicações todas e, no dia seguinte, levando uma mochila com água e comida, pus-me a caminho.

Eu estivera fora muito tempo. Não sabia se encontraria hospitalidade por lá, por isso resolvera me prevenir.

Muita coisa havia mudado em Dort.

Outras, não!

ÁRVORE DOS GNOMOS!

Naquela manhã agradável de primavera, eu já havia transposto o portão, após ter firmado a mochila em minhas costas, quando parei e pensei por instantes.

Pareceu-me absurdo estar ali, em Dort, preparado para ir ao encontro de uma tola e fútil fantasia da infância. Eu era um repórter. Havia acabado de cobrir a guerra na Bósnia. Vira atrocidades incríveis naqueles campos e, em parte alguma, um gnomo ou uma fada para impedir aquilo.

Vi cadáveres insepultos, com seus rostos surpresos olhando o céu pela última vez e nada no mundo poderia me convencer de que aqueles olhos, um dia, ainda que de relance, pudessem ter visto uma fada, simplesmente porque tudo aquilo era uma tolice.

Virei-me e olhei para a casa. Apesar da manhã agradável, lembrei-me que estava ali para descansar. Poderia voltar para a cama, dormir um pouco mais. Quando acordasse, percorreria a cidade, falaria com os velhos e com as crianças e montaria uma história qualquer sobre tudo aquilo que, no momento, eu considerava uma balela.

Foi quando vi, na vidraça, o rosto de minha tia, iluminado pelos primeiros raios do sol nascente, olhando-me.

Naquele instante, naquele brevíssimo instante, eu vi pontos de luz ao redor de seus cabelos embranquecidos e me lembrei de outras manhãs de primavera acontecidas havia muito tempo.

Ela me sorriu, como se entendesse a minha hesitação. Com um aceno de cabeça ela me incentivou. Sorri em resposta. Seria apenas uma caminhada, nada mais. Talvez por aqueles lados o ar fosse melhor e, no fim das contas, aquilo não me faria mal.

Comecei a caminhar, pensando na casa da Velha Bruxa. Todos a chamavam assim porque acreditavam que era mesmo uma bruxa, já que morava sozinha, com seus gatos. Muitos falavam do caldeirão que ela mantinha constantemente no fogo e nos gritos e gargalhadas que se ouviam na casa, tarde da noite, quando os demônios e bruxas a visitavam.

A lembrança tornou-se nítida enquanto eu me aproximava. Eu via sempre aquela casa cercada de sombras, como se a natureza perdesse ali todo o seu colorido e apenas medo e terror habitassem o local.

Confesso que senti calafrios, lembrando o medo antigo, ainda de minha infância. Fui avançando pelo caminho, tentando ignorá-lo, mas era forte demais, quase me fazendo desistir.

Quando dobrei uma curva do caminho, no entanto, vi a velha casa ao longe, recortada contra o bosque e a montanha distante. Todo o meu medo desapareceu. Eu me sentei à beira do caminho, sempre olhando a

casa e comecei a rir.

Fiquei meditando em como, na infância, criamos monstros a partir de uma sombra e castelo de horrores a partir de bucólicas casinhas perdidas na entrada do bosque.

A pobre Sra. Ingritt deve ter sofrido muito ao longo de todo aquele tempo, sendo tratada daquela forma.

Alonguei, então, meu olhar para além da casa, avançando pelo bosque. A partir dali, segundo me lembrava, começava o medo para nós, quando crianças.

Jamais havíamos avançado além da casa da Velha Bruxa. Segundo eu me lembrava, era o caminho mais tenebroso, que levava direto para o meio da escuridão, para o Nada,para um Caminho Sem Fim que terminaria ao pé da Árvore dos Gnomos.

Ali, naquela árvore, havia uma entrada secreta, que levava ao mundo subterrâneo, onde viviam algumas famílias dessas criaturinhas abominadas por uns e adoradas por outros.

Até então havia muita confusão em meus conceitos e conhecimentos sobre essas criaturinhas que haviam sido uma parte importante dos meus primeiros anos.

Fadas, gnomos, duendes, elfos, anões, trols e tantos outros nomes eram apenas nomes para designar seres que habitavam a noite e os pesadelos das crianças, assustando-as e enchendo-as de curiosidade. Uma curiosidade que, às vezes, superava o medo e as fazia arriscarem-se a sair pelo bosque à procura de sinais deles.

Avancei pela estrada e passei, finalmente, pela primeira vez em toda a minha vida diante da casa da Velha Bruxa. Nada senti. Era apenas uma velha casa, como tantas outras naquela região. Havia árvores margeando a estrada, que seguia em frente, até perder-se no emaranhado verde do bosque.

Eu já havia caminhado metade da manhã. Só então percebi que, naquela região, a natureza parecia haver sido menos agredida. Com exceção do bosque, que começava agora bem adiante do ponto onde eu me lembrava, de minha infância, o resto parecia preservado, inclusive o ar.

O vento soprava na direção da Rodovia, levando a fumaça das fábricas para aquela direção. Respirei fundo, sentindo-me bem, depois retomei a caminhada, alcançando o bosque.

Eu sabia que não estava num Caminho Sem Fim, porque a trilha estava muito bem marcada, embora não houvesse sinais da passagem recente de um veículo ou mesmo um animal. Isso não me incomodou no momento.

No fim da manhã parei para comer alguma coisa e tomar água. Encostei-me numa árvore, à sombra, e fiquei olhando o bosque a minha frente.

Devo ter adormecido. Ou sonhado. Não sei. Até agora ainda não sei se tudo aquilo foi um sonho ou se foi realidade. Aqui dentro algo me diz que sim. Pode parecer fantástico, mas foi real. Foi a coisa mais real que já presenciei em toda a minha vida.

Devo ter fechado os olhos por alguns segundos, o suficiente para prestar atenção aos pássaros que cantavam, saltitando nas árvores ao meu redor.

Aqueles sons tão harmônicos foram cessando e, de repente, tudo ao meu redor ficou em silêncio. Eu abri os olhos assustado, olhando ao meu redor.

Demorei algum tempo para me conscientizar do que estava acontecendo. Eu mantinha as costas apoiadas contra a árvore, mas a paisagem ao meu redor havia se transformado radicalmente.

Não havia pássaros nem folhas secas pelo chão, muito menos galhos, caídos nas tempestades, mas caminhos feitos de flores e relva que partiam na direção de todos os pontos cardeais e todos eles eram absolutamente iguais.

Para qualquer lado que me voltasse, eu via a mesma trilha de flores vermelhas e amarelas, margeando um caminho de relva rente ao chão, que seguia em frente na direção do nada.

Os caminhos se confundiam na claridade do sol do meio-dia e mesmo cobrindo os olhos com as mãos eu não conseguia definir o que tinha pela frente.

Fechei e abri os olhos diversas vezes. Belisquei-me. Apanhei o cantil, derramei água em minha cabeça e lavei os meus olhos. Depois voltei a olhar ao meu redor.

— O que será isso? — eu me perguntei, levantando-me com calma, sempre olhando em todas as direções.

Tinha a sensação de que os meus sentidos estavam me pregando uma peça e que a qualquer momento tudo aquilo terminaria com uma boa explicação e eu riria muito daquela experiência.

Tudo continuava o mesmo, no entanto. Eu simplesmente não tinha para onde ir nem como voltar. Meu único ponto de referência era a árvore onde eu estivera encostado, mas, sem que eu percebesse o que havia acontecido, assim que me levantei, ela sumiu.

Eu fiquei sendo a minha única referência. Havia apenas eu, onde havia a árvore, olhando para caminhos absolutamente iguais, que não levavam a parte alguma.

O sol estava a pino no céu e não me dava sentido nenhum de direção. Os pontos cardeais haviam se misturado, confundido-se como se houvesse apenas um ponto agora:

o ponto para onde eu deveria me dirigir.

Respirei fundo e ri. Lembro-me de ter rido daquela situação, porque pensei estar num sonho e ter, no sonho, aquele incrível sentido de consciência.

Comecei a caminhar. Se eu estava com algum cansaço após ter caminhado toda a manhã, ele desapareceu. Senti-me bem, cheio de vigor e de curiosidade agora. O perfume das flores que margeavam a estrada era intenso e agradável. Por algum tempo fiquei tentando me lembrar daquela exótica e deliciosa mistura de flores silvestres com relva.

Era um perfume que parecia vir de dentro de mim, não das plantas. Um perfume que estava em mim e que o caminho resgatava. Aquele era o perfume de minha infância e eu tive consciência disso.

Era o mesmo perfume daquelas manhãs de primavera, quando íamos em bando para o bosque, à procura de fadas desgarradas ou perdidas, deliciosamente misturado ao perfume das manhãs frias de

inverno, quando procurávamos pelas pegadas dos gnomos no chão gelado e coberto de neve.

Eu imaginei que deveria sentir medo por me encontrar naquela situação inusitada, mas não encontrei motivos para isso.

Pelo contrário! Vibrava dentro de mim aquela mesma excitação que experimentava naquelas manhãs maravilhosas de minha infância.

A qualquer momento eu esperava ouvir o grito excitado de uma de minhas primas, apontando as pegadas de um gnomo. Ou então as fadas cintilando ao redor dos cabelos de Tia Helga, numa demonstração de paz e harmonia que jamais esqueci.

O que vi, no entanto, brilhando ao sol do meio-dia, após caminhar por um tempo indefinido, maravilhou-me e encheu-me de uma nova curiosidade, desta vez misturando o profissionalismo e a curiosidade do repórter com o deslumbramento da criança, diante daquilo que fora, em toda a sua infância, o supremo temor e o máximo da curiosidade.

Jamais estivera ali. Jamais pusera meus olhos naquela estranha forma da natureza, brotando da terra com solidez, à margem de um pequeno lago, erguendo-se como um monstro que aterroriza pesadelos ou como a resposta à pergunta mais ingênua e infantil.

Sorri, encantado com aquilo. Sorri achando que só me restava sorrir. Imaginei porque aquilo tudo estava acontecendo. Por que o meu editor me mandara tirar férias? Por que me fizera lembrar de fadas e gnomos? Por que eu vi aquela fotografia do bosque coberto de neve? Por que indaguei das fadas & gnomos para Tia Helga? E por que ela me havia sugerido trilhar o caminho que passava diante da casa da Velha Bruxa?

Eram perguntas para as quais eu não tinha resposta.

Não haverá jamais como explicar o que vi a minha frente.

Ali, misteriosa e desafiadora, estava a ÁRVORE DOS GNOMOS!!!

CONFUSÕES

Por algum tempo fiquei ali, diante daquela árvore de formato estranho, parecendo tão antiga. Girei ao seu redor, procurando alguma entrada ou qualquer outra coisa. Todo o tempo em tinha em minha mente as lembranças da infância.

Muitas vezes, olhando aquelas pequenas marcas na neve, ficava imaginando como era

o gnomo que havia passado por ali. Da velha árvore eu me lembrava de muitas histórias, mas nenhuma delas podia retratar com fidelidade aquilo que via a minha frente.

Pensei, então, que naquele sonho, deveria haver uma explicação para eu estar ali,diante da famosa Árvore dos Gnomos.

Continuei procurando por uma entrada, mas meu esforço foi inútil. Nada indicava que por ali transitava alguém. Muito menos gnomos ou fadas. Era apenas um velho tronco, muito antigo e retorcido.

De qualquer forma, eu estava ali e não havia um modo de retornar. Da árvore partiam os mesmos caminhos, semelhantes ao que me trouxera ali. O sol estava diretamente acima de minha cabeça. Eu não tinha nenhum meio de orientação, muito menos um modo de me proteger da insolação.

Imaginei, até, que tudo aquilo que estava acontecendo fosse efeito de excesso de sol, por ter caminhado toda a manhã. Mas o silêncio ao meu redor perturbava-me.

Sem outra alternativa, acomodei-me da melhor maneira possível, encostado na árvore, tentando ficar sob a sombra de um de seus galhos retorcidos. Tomei um pouco de água e comi uma barra de chocolate meio derretida. Inadvertidamente, amassei o papel-alumínio ainda lambuzado de chocolate, atirando-o longe.

Respirei fundo e fechei os olhos por um instante. Quando o abri, vi uma sombra que disparou na direção de um canteiro de flores um pouco mais altas. O papel-alumínio havia sumido.

Eu sabia que não estava ficando maluco. Meus dedos ainda estavam sujos de chocolate e eu sabia exatamente onde havia atirado a embalagem.

Ouvi ruídos vindo do canteiro, depois um ligeiro movimento. Um objeto vermelho e pontudo foi se levantando lentamente, destacando-se do verde das plantas.

Por momentos fiquei sem entender o que via. Após o chapéu pontudo, surgiu um par de olhos muito claros e brilhantes, depois um rosto rechonchudo e rosado, seguido de bigodes brancos e uma barba que descia rumo ao peito da pequena criatura.

Esfreguei os olhos e comecei a rir. A insolação estava realmente me afetando. Aquela criaturinha que me olhava com curiosidade, igual ou maior do que a minha, era, sem sombra de dúvidas, um gnomo.

— Hei, você! — gritei-lhe, levantando—me e caminhando na sua direção. Ele se abaixou e sumiu na vegetação. Fiquei ali, parado, olhando ao meu redor, tentando entender tudo aquilo.

Naquele silêncio, onde só ouvia a minha respiração, fiquei apreensivo e ligeiramente apavorado. Temi perder o controle, por isso voltei para junto da árvore e me sentei de novo, tentando encontrar uma sombra para me proteger. Fechei os olhos. Fiquei assim, atento. Gradativamente, então, foi percebendo ruídos. Pareciam vir de algum ponto atrás de mim e também dos canteiros ao meu redor.

Abri só um pouquinho os olhos. Vi movimentos por entre as flores. Vi pontos de luz cintilando ao sol do meio dia, sob as folhas mais largas das plantas.

O próximo ruído que ouvi eram vozes. Vozes sussurradas que se aproximavam, que me cercavam. Os passos sorrateiros haviam me cercado. Abri os olhos. Todas aquelas criaturinhas ficaram olhando para mim, entre curiosas e espantadas. Um deles avançou, apontando-me seu minúsculo indicador.

— Eu o conheço — afirmou. — É sobrinho de Helga.

Aquilo me surpreendeu. Olhei-o. Havia simpatia nos seus olhos. Os pontos de luz

avançaram, deixando a sombra das plantas, esvoaçando diante de mim. Um deles girou diversas vezes ao redor de minha cabeça.

— São fadas? — indaguei.
ã minha pergunta, o ponto de luz recuou para junto das plantas, seguidos por todos os

outros. Ficaram ali, numa espécie de conferência. Voltei minha atenção para o gnomo que me apontara.

— Como você me conhece?

Eu o conheço desde criança, Erich — riu ele e os outros riram com ele. — Você gostava de procurar nossas pegadas, juntamente com seus primos, lembra-se disso?
— Sim, claro...
Lembra-se um dia, quando desceu a encosta e seu treno resvalou na árvore, derrubando-o? Foi quando ganhou essa cicatriz na testa — apontou ele.

Levei instintivamente a mão à testa. Aquela era a minha cicatriz mais antiga. Ao cair do trenó, bati a cabeça num galho. Teria ficado ali, morrendo congelado, se Tia Helga não tivesse surgido em meu socorro.

— Como sabe disso? — perguntei.

— E como Helga chegou lá tão depressa? — devolveu-me ele, com um ar maroto e divertido no rosto bonachão.

Você a avisou?
E quem mais poderia?

Eu já me sentia mais à vontade, examinando-os detidamente. Todos se vestiam da mesma forma, com roupas escuras, feitas de pele, e aquele gorro vermelho. As barbas eram iguais, mas as fisionomias eram diferentes.

São gnomos mesmo?
Sim, somos gnomos - responderam em coro.
E aquelas são as fadas? — continuei, apontando para as luzes que esvoaçavam sob as folhas das plantas.
Sim, são fadas.
E como vim parar aqui?
Você tomou um Caminho Sem Fim, mas só uma pessoa conhece esse caminho.
Minha tia?
Sim. Se ela o mandou aqui, deve ter tido algum propósito, por isso nos revelamos a você. Helga tem sido uma boa amiga por esses anos todos. Recusou-se a nos deixar,quando todos os parentes se foram. É a única em quem ainda confiamos — confidencioume o gnomo.
Mas o que teria ela em mente, ao me mandar à procura de vocês? — perguntei, intrigado.

— Talvez possa fazer alguma coisa por nós e pela natureza que defendemos...

Lembrei-me de como tudo aquilo conversara, na sala do meu editor, em Berlim. Tudo aquilo não podia estar acontecendo por puro acaso.

— Talvez haja uma forma de ajudar... Sou um jornalista. Posso escrever a respeito de vocês, de suas preocupações, de tudo que puder ser interessante para vocês divulgar...

Por momentos reinou um grande alvoroço entre eles, que se reuniram num círculo, trocando idéias. As fadas deixaram seus abrigos e foram se juntar a eles. Percebi que acontecia uma discussão acalorada ali.

Pelo que entendia, os gnomos confiavam em mim e no meu desejo de ajudar. As fadas, no entanto, se mostravam arredias e desconfiadas, não se satisfazendo com a garantia que os gnomos davam de minha sinceridade.

Eles conheciam e confiavam em minha tia, mas as fadas não. A situação pareceu caminhar para um impasse.

De repente, dos pontos de luz que esvoaçavam, um deles, o maior, destacou-se dos outros e veio em minha direção, parando diante de meus olhos.

Os gnomos silenciaram-se, observando-me. Fixei os olhos naquele ponto de luz multicor e percebi, aos poucos, que ele tinha uma forma quase humana, brilhante e vibrante.

Só há um modo de nos assegurarmos da sinceridade dele — falou ela e sua voz era aguda, mas melodiosa, embora revelasse certa animosidade.
A Maçã da Verdade! — disse um dos gnomos.
A Maçã da Verdade! — acrescentaram os outros.
Você aceita a prova? — indagou a fada.
Prova? Que prova? — eu quis saber.
Submetendo-se à prova, teremos certeza de que estará sendo sincero em seus propósitos e que não nos enganara.

Aquilo me pareceu algo simplista demais. Não vi porque deveria deixar de atendê-la.

Sim, claro. Eu concordo. E como é esta prova?
Só terá que comer uma maçã.
Sorri, tranqüilo.
Que seja — concordei, afinal.
O gnomo que me reconhecera avançou, olhando-me com apreensão.
Tem certeza de que não quer pensar melhor no assunto? — indagou ele.
Claro que não. Onde está a tal maçã?

Um grupo de luzes se aproximou, trazendo-me uma maçã vermelha, madura e suculenta. Com todo aquele calor, confesso que jamais, em toda a minha vida, comi uma maçã tão deliciosa. E o fiz tão inocentemente, que surpreendi todas as criaturinhas, que pareciam esperar alguma hesitação de minha parte.

— Pronto, terminei. Estava uma delícia! — comentei.

Aquela fada que estivera todo o tempo diante de mim pareceu abrandar seu semblante, até então sombrio. Até esboçou um sorriso. Vi, então, os gnomos festejando e as outras fadinhas tornarem-se também visíveis. Eram tão delicadas e tão lindas, todas coloridas de maneira diferente, brilhantes e meigas!

— Agora podemos confiar em você, porque sabemos que, de agora em diante, apenas falará a verdade — falou a fada.

E como sabe que só falarei a verdade?
A maçã faz isso.

Eu sorria beatamente, até que ela me explicasse isso. Então me voltei para olhar o gnomo que me alertara. Agora era ele quem sorria.

— Vou falar a verdade sempre? — indaguei, temeroso de ver aquilo confirmado.

— Sim, sempre. Jamais dirá uma mentira. Com isso estaremos seguros de que não vai escrever besteiras a nosso respeito.

Aquela situação se tornou clara em minha mente. Eu estava condenado a falar a verdade pelo resto de minha vida. Jamais poderia me esconder atrás de uma pequena mentira. Não poderia me escusar de ferir os sentimentos de alguém, abrandando as coisas com uma inocente mentirinha.

— Se está aqui e pretende nos ajudar, comece dizendo o que sabe sobre nós — ordenou a fada.

— Essa história da maçã e da verdade vale só aqui ou no mundo lá fora também? — arrisquei perguntar.

— Vale em toda parte — afirmou ela, com naturalidade.

Foi me sentando lentamente, apoiando as costas na árvore. Os gnomos e as fadas não entenderam o que me incomodava, agora que eu tinha comido a maçã.

Formaram um semicírculo diante de mim, olhando-me com curiosidade. As fadinhas esvoaçavam diante dos meus olhos. Eram tão leves e tão lindas que me aliviaram a mente dos possíveis problemas que eu poderia ter, pela vida afora, por apenas dizer a verdade.

E então, o que sabe sobre nós? — insistiu aquela que era a fada-rainha de todas as outras.
Bem, sei uma porção de coisas. Sei que há fadas da terra, do fogo, do ar e das águas. Que as da terra são também chamadas de gnomos... — interrompi-me, porque meus novos amiguinhos manifestavam sua contrariedade cobrindo os olhos e virando-me as costas. — Eu disse alguma coisa errada? — acrescentei.
Tudo! — falou a fada-rainha.
Como assim?
Acho que, antes de mais nada, você precisa aprender a verdade sobre nós e nós vamos lhe contar. Você, assim como muita gente, anda cheio de confusões e isso não nos ajuda em nada.
Confusões? — surpreendi-me.
Sim, muitas confusões! — afirmou ela, com firmeza e severidade.

AS FADAS

Havíamos entrado por uma abertura no tronco da grande árvore. Confesso que não o tinha notado, quando examinei a árvore. Acomodamo-nos à sombra, com os gnomos a minha frente e as fadas espalhadas pelas reentrâncias do tronco.

Muito bem, o que são as fadas? Elas existem mesmo? — indaguei à fada-rainha.
Que pergunta mais inútil — repreendeu-me ela. — Não está nos vendo aqui?
Sim, estou, mas duvido da minha sanidade, fada-rainha. — Isto tudo pode não passar de um sonho de minha parte e...
Então vamos poupar tempo. Como você, nós também não podemos mentir. Fadas existem e o que você está vendo é real.
— Por que as pessoas não as vêem com mais freqüência, então?
Porque não vemos necessidade nisso. Vocês vêem os anjos? No entanto, eles estão por aí. Assim somos nós. Existimos, só que vibrando numa dimensão um pouco além da sua percepção...

— Um minuto, não entendi esse negócio de vibração — interrompi-a. Ela não demonstrou surpresa diante da minha ignorância. Pensou por instantes, depois

voou até lá fora. Quando retornou, trazia nas mãos um galhinho delgado e flexível.

É a sua varinha mágica? — indaguei, em tom de brincadeira.
Vai servir como tal — respondeu ela, sem se incomodar com a minha piada.

Começou a agitar o galho em sua mão, fazendo-o vibrar com tanta intensidade, que ele se tornou invisível diante dos meus olhos.

Você vê o galho agora? — indagou ela.
Não...
Mas ele está aqui — afirmou, interrompendo o movimento e estendendo o galho na minha direção.
Está aí todo o tempo, só que vibrando com uma intensidade que meu sentido da visão não podia captar — compreendi.
Exatamente. Assim somos nós, seres da natureza, encarregadas de protegê-la contra tudo e contra todos — esclareceu ela.
— Esse é o papel das fadas? E o dos gnomos?
Também desempenham o mesmo papel, por isso nossas tarefas são distintas. Eles protegem os animais e nós, as plantas em geral.
— Mas ouvi dizer de fadas que auxiliam seres humanos...
Sim, quando precisam de alguma ajuda mágica, o que não é o caso dos gnomos. Se um ser humano precisar de ajuda para uma tarefa ou para curar-se de uma doença, os gnomos poderão ajudá-la. Entendeu?
Naquele momento eu precisava ir com muita calma naqueles assuntos. Não queria me perder nas explicações importantes e interessantes que a fada-rainha me dava, pois me pareciam a chave para entender tudo que viria em seguida.
Gnomos cuidam dos animais da natureza, vocês cuidam das plantas. Se um ser humano precisa de ajuda física, é com eles; se precisam de ajuda mágica, é com vocês...
resumi.
— Exatamente. Acho que entendeu corretamente.
Está bem, então vamos em frente. E essa história de fadas do ar, do fogo, da terra e da água?
Essa é uma das maiores confusões. Nós fadas, estamos em toda parte da terra, locomovendo-nos pelo ar. Mas temos medo do fogo e da água, que nos destroem. Quando ficamos velhas, adotamos uma casa e ali ficamos, protegendo e ajudando seus moradores, principalmente as crianças e adolescentes. Somos chamadas, então, de fadas-madrinhas.
Essa parte eu conheço, afirmei. Mas e as salamandras, que são conhecidas como as fadas do fogo? As ondinas, fadas do mar? As sílfides e as náiades?
São entidades diferentes, meu caro Erich — explicou ela, com paciência. — Tudo confusão de seus escritores.
— Como assim?
Vamos por etapas. Salamandras são criaturas que vivem no fogo e que têm alguma semelhança com as fadas, pois se movimentam como nós. Só que possuem o corpo semelhante ao de uma lagartixa com asas longas, oscilando entre o amarelo e o vermelho. Elas se movimentam nas chamas, e, por instantes, se você olhar fixamente para o fogo, pode vê-las se libertando e subindo para o alto, tornando-se invisíveis. Já foram mais temidas. Hoje estão sob controle.
— Sob controle? Que controle? — indaguei, curioso.
Sob nosso controle — respondeu-me ela, com naturalidade. As ondinas são aparentadas com as sereias. Imitam corpo de mulher, para atrair os incautos para seus braços. Flutuam na crista das ondas, com seus cabelos longos e prateados flutuando, como se fossem espumas. Já não são temidas, mas ainda fazem o seu papel. Se um tolo se aventura no oceano, elas por certo tentarão apanhá-lo. O mesmo se dá com as náiades, invenção da mitologia, tentando interpretar o nosso papel na natureza. As sílfides também foram uma invenção, tentando dar aos anjos uma aparência feminina.
Acho que começa a ficar claro. Fadas são fadas, seres com um papel específico na natureza, diferentes de salamandras, ondinas, sílfides, etc.
Sim — concordou ela. — Como vê, é simples. Se preservamos a natureza, como poderíamos viver no fogo, cuja missão destruidora devasta tudo aquilo que tentamos proteger.
— E só vamos encontrar fadas nas flores-tas... — arrisquei eu.
Bosques, jardins e casas antigas. Muitas de nós poderão ser encontradas até em floriculturas e em vasos de planta que, hoje, vocês vendem em supermercados. Nossa missão é cuidar das plantas, não importa onde elas estejam. Muitas vezes, porém, nós precisamos relevar isso, em defesa de algo mais importante.
— Como o quê, por exemplo?
Como os bosques de Dort, por exemplo. Estão se acabando. Antigamente lutávamos contra a cobiça de lenhadores, com seus machados e era fácil evitá-los, derrubando galhos nas tempestades e dando-lhes meios de subsistência. Hoje lutamos contra tratores que, em minutos, destroem o que a natureza demorou séculos paraconstruir. É demais para nós, Erich.

Ela se interrompeu, com um soluço quase imperceptível na voz embargada. Todos os outros abaixaram as cabeças. Eu fiz o mesmo. Tentei imaginar o que significava aquela devastação para aquelas criaturinhas que, desde o princípio dos tempos, vinham se dedicando à proteção da natureza.

— E isso não é o pior ainda, Erich — acrescentou ela, olhando-me demoradamente. — Quando destroem os bosques e nos expulsam para longe, afastam-nos das crianças e dos jovens, a quem adoramos proteger e ajudar.

Lembrei-me, de repente, de algo de minha infância. A existência dos Caminhos Sem Fim sempre haviam representado um perigo para nós. Eu mesmo, para chegar até ali, havia caído num deles e, confesso, não fora uma experiência agradável. Sentira-me totalmente desnorteado.

Tentei me segurar para não fazer aquela pergunta, até certo ponto temeroso. Mas eu havia comido a maçã e não poderia esconder aquilo.

— Se vocês ajudam crianças e jovens, por que existem os Caminhos Sem Fim? Ela sorriu, condescendente.

Para que eles venham a nós e possamos ajudá-los — respondeu-se, com naturalidade e um sorriso adorável nos lábios finos e quase inexistentes. — Temos uma fada que cuida deles, sabia?
Realmente? — retruquei.
Sim, a Fada dos Garotos Perdidos.
Já ouvi falar dela...
Aquela é uma Fada dos Garotos Perdidos cujo trabalho e percorrer os Caminhos Sem Fim e ajudá-los a voltar para suas casas — disse ela, apontando para uma fadinha delicada que, ao perceber que fora mencionada, fez uma mesura de corpo, agradecendo à fada-rainha.
— E ela será sempre uma Fada de Garotos Perdidos?
Não, claro que não. Poderá se transformar depois numa Fada Azul, aquela que realiza desejos e, quando ficar velhinha, poderá escolher uma casa antiga para morar, transformando-se numa fada madrinha, a quem as crianças farão pedidos.
— Pedidos? Como assim?
Quando uma criança faz um pedido ao Coelhinho da Páscoa ou ao Papai Noel, na verdade, está sendo ouvido pela fada-madrinha da casa, que envidará esforços para realizá-los.
Desculpe-me a franqueza, fada-rainha, mas a idéia da maçã foi sua. Se as fadas-madrinhas estão aí para realizar os desejos das crianças, porque temos tantas delas abandonadas, carentes, sem ajuda ou apoio?

O rosto da fada-rainha se tornou triste.

— Quantas casas antigas restam em Dort? Quando vinha para cá, você deve ter visto

o terreno onde havia o bosque, não?

Sim, foi queimado.
Milhares de fadas morreram ali. As casas destruídas levaram as fadas-madrinhas.

As drogas, que circulam pelas ruas, lançam as crianças não mais nos Caminhos Sem Fim, mas nos Caminhos Sem Volta... — interrompeu-se ela, fazendo-me um gesto para que lhe desse algum tempo para se recuperar.

Tentei pensar numa forma de desfazer todo o constrangimento que se formara.

— E como é uma fada-madrinha? Temos alguma aqui? — perguntei.

Por sorte, sim — falou a fada-rainha, apontando para uma fadinha vestida como uma dama antiga, com uma varinha brilhante na mão direita.
Tinha no rosto a expressão das velhas vovós das lembranças de qualquer criança.
Por sorte eu o vi passar, da janela da casa da Velha Senhora Ingritt — comentouela. — É uma das raras casas que ainda possuem uma fada-madrinha. Isto porque as outras casas são construções novas, de gente que chegou aqui há pouco tempo, que nada sabe sobre nós...
— Mas devem ter filhos — lembrei-a.
Sim, mas não podemos entrar onde não acreditam em nós, sabia? São pessoas muito materialistas, pensam só no lucro e no dinheiro. Nenhum compromisso têm com a terra e com a natureza. Querem fazer fortuna e ir embora, apenas isso.

Fiquei olhando aquela fada-madrinha, com lágrimas nos olhos. O que eu estava presenciando eram lamentos de dor de uma intensidade que comoviam e machucavam, de tão sinceros e honestos. Era um alerta geral que me tocava profundamente.

— As fadas estão em extinção? — indaguei, cheio de sincera preocupação.

Muitas de nós estão morrendo nas florestas do mundo inteiro, mas continuamos a nos reproduzir...
Como?
Cada botão de flor, quando se abre, liberta uma fada...
Tantas assim? — surpreendi-me.
Quantas flores abriam há cem anos atrás? E hoje? — indagou-me ela, severa.
Eu não saberia calcular — gaguejei.
Apenas dez por cento do que éramos há cem anos atrás. E o que nos tortura, Erich, é perceber que estamos perdendo essa guerra. A ganância do homem não deixa de nos surpreender...
Deve haver alguma coisa que se possa fazer... — eu disse, depois, meditando e tendo consciência de que não mentiria jamais, percebi que nada havia que pudesse ser feito.

Não eram as fadas que estavam em extinção. Era a própria terra. Só que, ao tomar consciência disso, eu não podia conter a revolta que me tomava de assalto.

Imaginava que deveria haver alguma coisa que se pudesse fazer, mas nada vi. Fiquei olhando para a fadinha que havia acabado de surgir, quando uma flor se abriu ao lado daabertura da Árvore dos Gnomos.

Ela ficou ali, como uma criança, brincando com os galhos flexíveis da planta, como se nada mais no mundo pudesse perturbar sua tranqüilidade nem a sua alegria.

GNOMOS

Nós, os gnomos, também enfrentamos problemas semelhantes — disse-me o gnomo que me reconhecera e cujo nome era Januz, segundo ouvi os outros, quando falavam com ele.
— Fale-me, primeiro, sobre quem são os gnomos — pedi.
Somos seres como as fadas, só que não vibramos como elas, por isso podemos ser vistos com mais facilidade. Além disso, deixamos pegadas, lembra-se? — riu ele.
Sim, eu me lembro disso, mas sempre foi muito difícil ver um gnomo. Poucos o fizeram e, desses, acho que a maioria mentia.
Pode ser, porque nós, fadas e gnomos, podemos ficar invisíveis, graças à semente do feto, colhida no dia de São João — falou a fada-rainha.
— Já ouvi falar nisso, mas pensei que fosse lenda...
A lenda e a realidade muitas vezes se misturam tão sutilmente que é difícil separálas. Com a semente de feto fazemos nossa mágica e nos tornamos invisíveis. Isto é particularmente útil para os gnomos. Só que, até isso, ultimamente tem sido difícil para nós. Primeiro, porque as árvores são destruídas. Segundo porque aumenta a quantidade de demônios que também querem a semente para continuarem invisíveis e fazendo suas maldades.
— Demônios? — surpreendi-me.
Sim, eles mesmos. As maldades aumentam. As pessoas se tornam mais egoístas, mais materialistas e gananciosas, obra das criaturas más que combatemos, mas que, a persistir esse estado de coisas, acabarão por nos destruir, com a ajuda dos homens — explicou a fada-rainha.

Voltei-me para Januz, que me olhava com olhinhos brilhantes.

— E vocês, também fazem mágicas? — indaguei.

— Não como as fadas. Nossas mágicas são o que se pode chamar de simpatias. Curamos, usando as plantas, os cristais, os perfumes, as cores, os sons, tudo, enfim, que existe na natureza. Na verdade, o que vocês chamam de cura, nos chamamos de harmonização. Quando você não está em harmonia, está doente. Harmonizando-se de novo com a natureza e com todos os seres vivos, numa corrente única de energia, você volta a ser saudável.

— Interessante isso — opinei. — E vocês ajudam crianças também?

Normalmente não. Esse é um trabalho das fadas. Nós cuidados mais dos adultos e dos velhos e enfermos.
— Como assim?
No inverno, por exemplo, mantemos vigilância nas casas onde sabemos que moram velhos que não contam com o auxílio de mais ninguém. Observamos as chaminés. Se não vemos fumaça, pode significar que estão doentes, que sofreram um acidente ou até que acabou a lenha. Nesses casos, rapidamente tratamos de providenciar isso para que eles não sofram.
É uma tarefa muito humanitária... — comentei.
É o nosso trabalho e o fazemos com imenso prazer.
Mas, assim como as fadas, não há gnomos que moram em casas e a protegem também? — indaguei.
Sim, há, mas hoje já não somos tantos assim, por isso agimos dessa forma, em pequenos grupos, vigiando as casas, principalmente no inverno.
Então quantos tipos de gnomos existem? Ouvi dizer que há gnomos da floresta, dos jardins, das fazendas, do deserto, das montanhas, da Sibéria...
Os gnomos e as fadas riram ao mesmo tempo.
Confusões, meu rapaz! Confusões! Existem os gnomos. Gnomos que podem morar numa floresta, num jardim, numa montanha, num deserto, na Sibéria, numa casa ou numa fazenda. São todos uma coisa só, como vocês, homens. Eu, por exemplo, sou hoje um gnomo que mora num jardim, onde você me encontrou hoje. Mas já morei em outros lugares, como uma floresta e até uma casa.
E o que fazem em um lugar ou no outro é o mesmo?
Sim, cuidar de animais e dos homens que precisam de nossa ajuda.
E trabalham junto com as fadas?
Na maior parte das vezes.
Quais são exatamente essas tarefas que vocês, gnomos, realizam?
Cuidamos de animais feridos, aves caídas do ninho, bichos presos em armadilhas. Costumamos ajudar os esquilos a encontrar seus esconderijos de alimentos, quando eles se esquecem de onde deixaram suas reservas para o inverno. No inverno muito rigoroso, cavamos e damos alimentos aos pequenos roedores, que não conseguem escavar o solo gelado. Também tratamos de animais doentes...
— E como fazem isso?
Tratar os animais? Usamos os remédios que a natureza põe a nossa disposição. Há ervas e raízes capazes de curar todo tipo de doença que possa imaginar.
E por que não transmitem essas receitas aos homens?
E quem disse que não fazemos isso?
Como assim?
Pergunte a sua tia. E a qualquer pessoa idosa. Verá como todas elas têm uma receita caseira para tratar qualquer tipo de doença. São as simpatias populares, que incorporam preciosos segredos, reunidos durante séculos de nossa existência. Só que nem todos acreditam nisso. Os laboratórios médicos precisam vender suas drogas, todas elas feitas a partir de plantas, cuja utilização já conhecemos há anos.
— E onde vocês vivem? — indaguei.
Em casas, sob árvores como esta. Moramos escondidos para fugir de nossos perseguidores. Aqui costumamos nos esconder durante o dia, só saindo se for absolutamente necessário. Quando anoitece, porém, podemos percorrer os bosques e os jardins, fazendo nosso trabalho.
— E quando têm que sair durante o dia, como fazem para não serem vistos?
Usamos a mágica das fadas, feita com a semente de feto. Ela nos torna invisíveis aos olhos dos homens e dos demônios também.
Bem, devo confessar que estou aprendendo uma porção de coisas novas a respeito de vocês, meus amigos. Principalmente dessa missão maravilhosa que têm, de proteger a natureza e até o próprio homem.
Por isso, quando voltar, conte o que aprendeu sobre nós. Fale de nossa preocupação com a devastação da natureza. Está provocando a nossa morte e, consequentemente, a de vocês também.
— Farei isso, meus amigos, eu prometo.
Agora você precisa voltar. Sua tia o espera. Acho que podemos contar com você e com sua ajuda.

Sorri, concordando. Uma curiosidade enorme me tomou de assalto e eu olhei ao meu redor. As fadas e os gnomos começaram a sair dali. Eu os segui. Lá fora tudo estava igual. O sol continuava a pino, como se fosse eternamente meio-dia por ali.

Minha curiosidade era enorme.

Como vou sair daqui? — indaguei.
Sente-se ali e descanse um pouco — apontou-me Januz.

Fiz o que ele me mandava. Apoiei as costas no tronco da Árvore dos Gnomos. As fadinhas esvoaçaram ao meu redor. Suas luzes coloridas e vibrantes puseram-me sonolento. Eu adormeci em seguida.

Tive um pesadelo horrível. Sonhei com Dort totalmente devastada pela poluição e pela destruição dos bosques e da vegetação. Para cada lado que olhasse, eu via sombras e ouvia o lamento de crianças e velhos, sofrendo os efeitos daquele mal terrível.

Isso me fez sentir algo terrível. Crianças e velhos sofrendo significava que não havia fadas e gnomos para ajudá-los. Era como se todos eles tivessem sido aniquilados naquele pesadelo.

Imaginei o sofrimento que tudo aquilo representava e, quando acordei, estava suando tremendo.

Por algum tempo fiquei parado ali, tentando me situar. Eu estava de volta na árvore onde me sentara para repousar e acabara adormecendo por instantes.

Levantei-me, aturdido. Teria sido um sonho tudo aquilo? O sol, em sua caminhada pelo céu, indicava que a tarde ia pelo meio. Eu me sentara ali ao meio-dia. Teria dormido tanto? Ou teria dormido, após o encontro com as fadas e gnomos?

Fiquei confuso. Muito confuso mesmo, porque queria acreditar que tudo o que eu presenciara era verdade. Não queria que fosse de outra forma. Aquele encontro com as fadas e gnomos me ensinara muitas coisas. Coisas que eu não sabia, que não tinha lido em parte alguma e que não poderia ter inventado do nada.

Iniciei meu caminho de volta, voltando a passar diante da casa da Velha Bruxa. Por momentos julguei ver, entrando numa fresta da parede, uma pequena sombra.

GUNTHER, O GNOMO

Quando voltei à casa de Tia Helga, entardecia. Ela estava no alpendre da casa e não demonstrava preocupação pela minha demora. Ficou na cadeira de balanço, oscilando de um lado para outro, enquanto eu me sentava nos degraus.

Fiquei tentando encontrar uma forma de iniciar nossa conversa. Depois do que passara naquele dia, eu me sentia confuso, sem saber se tivera um sonho ou se participara realmente de uma reunião com fadas e gnomos.

Tia... Por que me mandou procurar justo naquele caminho? — indaguei, afinal.
Encontrou o que procurava? — devolveu-me ela.

— Bem... Na verdade ainda estou confuso... Mas encontrei muitas respostas... — acrescentei, depois de uma certa hesitação, quando tentei me segurar para não misturar sonho com realidade.

Lembrei-me da Maçã da Verdade.

Foi real o que vi? — perguntei, julgando que ela soubesse a resposta.
O sonho e a realidade estão tão entrelaçados que é difícil separar um do outro —

comentou ela. Alguém já me dissera aquilo naquele dia.

E o que se pode fazer?
Tentar de todas as formas evitar a devastação.
É uma luta inglória...
Mas uma luta pela vida. Isso é necessário, Erich. Temos de nos empenhar nessa luta.
Eu estava cansado demais para continuar conversando com ela. Tinha muitas coisas em que pensar. Ela pareceu ler meus pensamentos.
Vejo que está cansado. Por que não toma um banho quente, come alguma coisa, depois descansa um pouco? Temos muito tempo ainda para conversarmos a respeito disso — falou ela. — Há comida no fogo. Sirva-se. Se quiser vinho, está no armário, ao lado da geladeira.

Agradeci e fui tomar um banho quente. Vesti meu pijama, depois apanhei um pouco de vinho. Tia Helga continuava sentada lá fora, no alpendre da casa. O sol poente punha cores intensas no céu. Ela olhava na direção do jardim.

Fui até a porta.

Observa as flores se abrindo, tia? — indaguei.
Sim — respondeu ela, com um sorriso significativo.
Hesitei um pouco, antes de perguntar.
Elas estão aí, no jardim?
Ela também hesitou um pouco, antes de responder.
Sim.
Por que não posso vê-las?

— Porque não quer. Elas estão por toda parte agora. Fixei meu olhar no jardim, mas o máximo que vi foram pontos de luz. Não sei se eram as fadas ou se reflexo do esforço feito para vê-las. Isso reforçou minha confusão a respeito do que acontecera.

Fui me sentar de novo nos degraus da escada. O vinho estava delicioso e produzia uma agradável sensação de vigor em meu corpo cansado.

— Há um gnomo nesta casa, tia? — perguntei.

Sim, mas ele é muito arredio. Como sabe que não estou sozinha, talvez se afaste e vá se juntar aos seus amiguinhos. Quando você for embora, com certeza ele voltará.
Não pode chamá-lo?
E por que o faria
E por que não? Adoraria conversar com ele, saber mais ainda sobre os gnomos e as fadas...
Não sei...
Por favor! — insisti.

Ela hesitou por instantes, depois pôs o dedo indicador e o médio entre os lábios, assoprando como se estivesse assobiando. Nada ouvi. Ela repetiu. Depois apontou na direção do jardim. Um gnomo se aproximara, mas ao me ver fez menção de fugir.

— Gunther, não se vá! — pediu ela.

O gnomo hesitou. Estava prestes a fugir a qualquer momento. Ficou ali, no entanto, olhando fixamente para Tia Helga e, naquele momento, tive a nítida sensação de que os dois conversavam sem ouso de palavras. O gnomo cedeu. Aproximou-se lentamente da escada. Com uma agilidade incomum, subiu pelos degraus com incrível facilidade.

Esteve mesmo na Árvore dos Gnomos? — indagou-me ele.
Sim, estive — afirmei, sem hesitar.

Talvez aquela história de maçã tivesse algum sentido. Talvez não tivesse sido um sonho.

O que quer de mim? — indagou ele.
Que me fale mais sobre os gnomos e as fadas.
Posso lhe falar sobre os gnomos... Sobre as fadas, acho melhor perguntar a sua tia

— falou o pequeno ser.

Eu me voltei para minha tia. Ela olhava com olhar severo na direção do gnomo, que sorriu e deu de ombros.

Que idade você tem? — perguntei-lhe.
Sou jovem ainda, tenho só duzentos e cinqüenta anos...
Eu me segurei para não rir. O gnomo, no entanto, falara sério.
Só aqui, nesta casa, ele já está há mais de cinqüenta anos — contou Tia Helga. Minha incredulidade balançou.
E de onde vocês vêm? — continuei.

— É difícil dizer-lhe isso agora, porque envolveria conceitos que você não entenderia, nem fatos que estão fora do seu alcance. Basta saber que estamos em toda parte atualmente. Você vai nos encontrar em toda a Europa, na África, nas Américas, em todo o mundo, enfim. Só que não somos tão numerosos como já fomos. Antigamente os casais tinham um número ilimitado de filhos. Agora, por razões que desconhecemos, só têm um casal de gêmeos. E desses, nem todos sobrevivem, pois está difícil sobreviver nesta terra atualmente. Além disso, queimadas no mundo todo tem destruído gnomos aos milhares. Hoje morremos muito mais rápido do que nos reproduzimos e isso é trágico, porque nos ameaça com o maior de todos os perigos: a extinção.

Enquanto ele falava, um pequeno pássaro veio se sentar no corrimão da escada. O gnomo e o pássaro se olharam, como se travassem um mudo diálogo. Depois o pássaro voou para uma árvore próxima, onde deveria estar seu ninho.

— Você deve se lembrar desses pássaros. Quando era criança, com certeza havia muitos deles, não? — comentou Gunther.

Sim, havia aos milhares.
Quantos deles você viu hoje?

Pensei no assunto. Não me lembrava de ter visto um deles o dia todo. Pelo que me lembravam, eram pássaros cantores, graciosos e dóceis.

— Este veio me contar que está muito triste. Hoje um garoto matou sua companheira. Estavam os dois apanhando capim para construir um ninho. Um garoto veio com uma atiradeira e acertou-a. Pura e simplesmente. Sem motivo algum. Matou-a, quando se preparava para reproduzir. Não é trágico? — falou o gnomo.

A noite caíra rapidamente. Olhando o jardim, eu via os pontos de luz que se moviam com rapidez ao redor das flores. Minha tinha também olhava naquela direção e sorria, como se o que visse a enchesse de encantamento e ternura.

— Preciso ir — disse o gnomo, saltando os degraus.

Antes que pudéssemos detê-lo, ele havia sumido no jardim. Virei-me para olhar Tia Helga.

Por que ele disse que eu deveria perguntar sobre fadas a você, tia?
Gunther acha que sei algumas coisas sobre as fadas...
E sabe?

Ela hesitou, desviando os olhos para os canteiros de flores, pontilhados de luz agora. Lembrei-me da Maçã da Verdade e deduzi que minha tia também havia comido dela. Isso muito me alegrou.

Sim, sei algumas coisas.
Comeu a Maçã da Verdade? — perguntei.

A idéia de que ela havia comido a maçã era tentadora demais. Eu não podia resistir.

Ela sorriu, balançando a cabeça de um lado para outro.

— Não, não comi a Maçã da Verdade — respondeu-me ela, com absoluta tranqüilidade.

Uma tranqüilidade que me desconcertou, pois esperava obter respostas interessantes da parte dela.

— E você, comeu? — perguntou-me ela de volta.

Em pensei em responder que sonhara que havia comido, mas pude até sentir de novo, em minha boca, o sabor delicioso daquela maçã. E quando abri os lábios, meus lábios falaram por si mesmos.

Comi!
Ela sorriu.
Isso é muito bom. Eles confiam em você agora.

Fiquei tentando imaginar por que não fizeram Tia Helga, um dia, comer também a maçã.

— Disseram-me que você não se mudou para Berlim, junto com os demais parentes, por causa das fadas e dos gnomos, é verdade? — quis eu saber.

Sim, é verdade.
Mas por que fez isso?
Eu tinha bons motivos, meu querido.
Quais motivos? — insisti.
Eu não podia abandoná-los, principalmente as fadas.
E por que não?
Ela parecia incomodada com minhas perguntas.
Você me força a lhe dar respostas que eu não deveria — relutou ela.
E como eu a posso forçar? Só vai me responder se quiser, Tia Helga.
Pelo contrário, Erich, serei obrigada a lhe contar a verdade.
Por quê? Não disse que não comeu a maçã? O que a abriga?

Em resposta ela me olhou fixamente, depois olhou na direção do jardim. Vi-a soprar apenas, mas não ouvi som algum. No momento seguinte, um ponto de luz se destacou dos outros e veio rapidamente pairar diante do rosto de minha tia.

Eu sabia que ali havia uma fada. Um ser que vibrava intensamente, por isso não podia vê-lo. Vibrava como as asas de um beija-flor. Não são vistas, mas estão ali, sustentando o pássaro.

Tentei entender como eu conseguira ver as fadinhas, lá na Árvore dos Gnomos. Se aquilo havia sido real, então, eu poderia ver também aquela que estava diante de minha tia.

Ela soprou de novo, suavemente e, por instantes, eu vi a fada, com seu corpo feminino de pura luz, brilhando intensamente e as longas asas como as de um anjo.

Eu a vejo — disse a minha tia.
Isso é muito bom. Sinal que está evoluindo, Erich.
Ela pode falar comigo?
O que quer saber dela?
Fazer algumas perguntas apenas...

Minha tia confabulou com a fadinha por alguns instantes e esta concordou em conversar comigo. Esvoaçou ao redor de minha cabeça, depois sentou-se no corrimão.

Sua luz intensa feria meus olhos. Suas asas translúcidas estavam agora em repouso. Seu rostinho transparecia harmonia, bondade e serenidade. Nunca me senti tão à vontade nem tão feliz como naquele momento, diante da fada.

A GRANDE SURPRESA

Antes, porém, que eu pudesse fazer a primeira pergunta à fada, Tia Helga se levantou.

— Por que não vamos conversar lá dentro? — convidou ela. — Enquanto isso, eu esquento sua comida — acrescentou.

— Ótima idéia, tia — concordou, pois estava faminto.

Entramos e a fadinha nos acompanhou alegremente, esvoaçando ao nosso redor. Enquanto eu me acomodava no sofá, Tia Helga me trouxe mais um pouco de vinho. A fadinha ainda voou ao meu redor, antes de pousar no braço do sofá.

Muito bem, o que quer saber? — indagou ela.
Você, como fada, não pode dizer mentiras, não é?
Sim, jamais dizemos mentira — afirmou ela.

Tia Helga estava parada diante de nós, olhando-me de um modo sério e um tanto preocupado. Talvez imaginasse a natureza de minhas perguntas e isso eu não podia esconder dela. Desde que Gunther dissera aquilo, provocando a reação dela, fiquei curioso.

A lembrança de minha tia, quando eu era criança, com as fadinhas ao redor dela, nas manhãs de primavera, estava por demais viva em minha mente.

Além disso, havia muita coisa a ser considerada.

Por que ela não deixara Dort, como todos os outros?

Por que era tão amiga das fadas e gnomos?

Como sabia do Caminho Sem Fim?

Estas e outras eram perguntas que estavam girando em minha mente e eu precisava

me certificar delas. Tia Helga sabia de muito mais coisas do que havia me contado.

— Tome mais um pouco e vinho — insistiu ela e, automaticamente, eu a atendi.

Reclinei-me no sofá, sentindo o corpo flutuar agradavelmente. A fadinha me olhava, cheia de curiosidade, esperando a minha primeira pergunta.

Eu pensei no que indagar a ela, mas me senti tão repousado que achei que deveria fechar os olhos por um instante. Quando o fiz, adormeci.

Mas o estranho de tudo, foi que o sono parecia-se muito com aquele que tivera no final da manhã. Eu sentia que estava de olhos fechados, e, no entanto, conseguia ver e ouvir tudo o que se passava diante de mim.

A fada no braço do sofá olhou para minha tia, que sorriu e lhe fez um gesto. A fadinha esvoaçou, depois saiu pela porta, como um ponto de luz em alta velocidade.

Continuei ali, em repouso, olhando minha tia. Seu rosto espelhava bondade e compreensão, quando se sentou ao meu lado.

— Está bem, Erich, o que realmente quer saber? — perguntou-me ela.
Eu me sentia flutuando, entre o sonho e a realidade.

Quem é você realmente, Tia Helga? — consegui perguntar-lhe e ela não se surpreendeu com a minha pergunta.
Sou Helga, uma fada-madrinha atualmente — falou ela. — Mas já fui a Rainha das Fadas e dos Gnomos.

Enquanto ela falava, uma transformação operou-se nela. Seu rosto ganhou um brilho intenso. Seus olhos cintilaram e, em suas mãos, surgiu uma varinha mágica, como um feixe de luz que ela segurava, de tão radiante.

Eu pensei que iria me surpreender com tudo aquilo, mas, naquele estado de sonho e realidade misturados, eu sabia que era tudo muito lógico.

Mas você é humana...
Sim, mas isso não me impede de ser uma fada...
E como conseguiu isso?
Há muito, muito tempo mesmo.
Por que não me conta, Tia Helga?

Ela ficou pensativa por instantes. Eu olhei a sala, os móveis, o copo e vinho que ainda segurava na mão. Tudo era real.

— Tia Helga, estou sonhando ou não? — indaguei.

Como já lhe disse hoje, a sonho e realidade andam tão juntos que é difícil separálos, Erich. Muito difícil mesmo. Você tem de acreditar naquilo que seu coração quiser acreditar...
— Você ia me contar como chegou a ser Rainha das Fadas — lembrei-lhe.
Oh, sim! — falou ela. — Foi há muito tempo, quando eu ainda era uma garotinha... Tinha cinco anos, quando tudo aconteceu. Naquele tempo, havia muito mais fadas e gnomos. Também havia elfos, duendes, trols e demônios.
— Verdade? — surpreendi-me.
Sim, muitos deles mesmo. Foi na noite de São João. Todos andávamos à procura de sementes de feto, para nossa magia. Sabíamos que os demônios tentariam tomá-las de nós, por isso nos juntamos em bandos, que percorriam os bosques. Naquela mesma noite, a Rainha das Rosas iria se abrir e libertar uma Fada-Rainha.
— Como é isso? — interrompi-a.
Fadas-Rainhas nascem quando se abre uma Rainha das Rosas que, por sua vez, só se abrem na noite de São João, que é a noite que marca o meio do verão para nós. Preocupadas com as sementes de feto, nós não atentamos para esse detalhe. Sabíamos que os demônios tentariam usar todos os seus truques, mas não esperávamos algo como aquilo. No meio da noite, a Rainha das Rosas se abriu e a pequena fada-rainha foi aprisionada. Arrancaram-lhe as asas e fecharam-na numa redoma de vidro, que foi levada para a montanha mais desolada que existe aqui, em nossa região...
— E qual é essa montanha?
A que viu hoje, ao fundo da casa da velha senhora Ingritt. Demônios caçadores de fadas foram designados para vigiá-la. Trols foram convocados para manterem os gnomos à distância...
— Por que os trols?
Porque trols e gnomos se odeiam, sempre se odiaram. Cada vez que um trol aprisiona um gnomo, submete-o às maiores humilhações e torturas, antes de matá-lo. Assim, de repente nós nos vimos diante de uma tragédia. Há apenas uma rainha das fadas, cujo reinado dura exatamente um ano. No ano seguinte, ela é substituída por outra. Se não resgatassem aquela pequena fada, não haveria uma rainha para reinar por um ano.
E por que os demônios fizeram isso?
Foram espertos. Disseram que só devolveriam a pequena rainha se as fadas e os

gnomos lhes dessem todas as sementes de feto que haviam conseguido apanhar. Só que, ao fazer isso, fadas e gnomos ficariam sem a mágica da invisibilidade e, no ano seguinte, seriam presa fácil para os demônios e trols. Imagine o dilema deles, naquele momento. As fadas sem uma rainha perdem toda a unidade e são, da mesma forma, presa fácil para os demônios-caçadores. Nada haviam portanto, que eles pudessem fazer, sem provocar uma tragédia ou pôr em risco toda a sobrevivência deles, além do delicado equilíbrio das forças do bem contra as do mal.

— E como você ficou sabendo disso? — perguntei, maravilhado e tenso.

Acordei no meio da noite com aquela agitação toda. Vi o gnomo que morava em casa esgueirando-se por sua porta secreta, prestes a deixar a casa.
Guillen! — chamei-o.
Não era o Gunther ainda?
Não, era um outro ainda. Guillen estava muito agitado. Eu lhe perguntei o que estava havendo. Ele me contou em rápidas palavras o que estava acontecendo. Disse que haveria uma reunião de fadas e gnomos para decidirem o que fazer. Pedi para que me deixasse ir junto.

Naquela época eles e eu já éramos muito ligados. Ele hesitou, mas eu, na minha inocência, afirmei que poderia ajudar. Guillen estava apressado demais para pensar direito. Acabou cedendo e eu o acompanhei até a entrada do bosque, onde haveria a reunião.

Estava tudo uma tremenda confusão. Os gnomos e as fadas não se entendiam. Todos falavam ao mesmo tempo. O temor deles era enorme e não sabiam o que fazer. Então eu pedi a palavra, mas, para isso, tive que gritar com todos. Consegui que eles fizessem silêncio, o que foi muito importante.

— E você tinha apenas cinco anos? — admirei-me.

Sim, mas era maior que qualquer um deles, que me respeitavam não por isso, mas pela nossa amizade, pelo que eu já fizera por eles e pelo que eles já haviam feito por mim. Lembrei-lhes, então, que antes de qualquer coisa, tinham de se acalmar e pensar na melhor coisa a fazer. Foi então que eu tive uma idéia meio maluca para a minha idade, mas providencial. Propus que atacássemos os demônios da mesma maneira como eles haviam atacado.
— Como assim?
Eu sabia que os demônios habitavam um velho moinho abandonado. Era um lugar escuro e assustador. Ao dizer isso, todos eles ficaram apavorados, pois tinham muito medo daquele local. Logo voltaram as discussões e ninguém se entendia de novo. Eu fiquei furiosa. Achava que a minha idéia era a única maneira de salvar a futura rainha das fadas, por isso, sem que eles percebessem, deixei o local e me afastei. Estava decidida a ir até o moinho e enfrentar sozinha os demônios para salvar a pequena fada.
— Você era mesmo muito corajosa — comentei.
Eu era uma criança e não tinha medo de nada. Tinha um plano em minha cabeça, mas sabia que não poderia enfrentar os demônios sozinha. Eu precisava da ajuda de

alguém, mas não havia a quem recorrer. Sabia que os demônios estariam ocupados em guardar a pequena rainha. Assim, meu plano era dar-lhes um pouco do próprio remédio, atacando os demoniozinhos que dormiam no moinho. Entre eles, com certeza, estava um príncipe. Se ele fosse destruído, com certeza os demônios iriam enfrentar problemas para manterem a união, deixando as fadas e os gnomos em paz.

— Parece que era um bom plano esse seu, Tia Helga — elogiei-a.

Ela sorriu e continuou.

Enquanto eu caminhava, ouvi passos atrás de mim. Virei-me. Era Guillen, que vinha atrás de mim, com olhar preocupado. Perguntei-lhe se ele iria me ajudar. Ele disse que sim. Eu já tinha toda a ajuda de que precisava. Dei-lhe algumas instruções e mandei-o de volta à reunião. Esperei por ele. Quando retornou, rumamos para o velho moinho.
Nesse momento ela fez uma pausa para tomar fôlego.
O velho moinho já não existe mais, mas era apenas a fachada para o local mais feio e mais assustador que eu jamais vi. Ali, atrás daquelas velhas portas, escondia-se a entrada para o Reino dos Demônios. Quando eu e Gunther entramos, confesso que meu coração ficou gelado, olhando aquela construção estranha, parecendo um grande monstro de pedra, prestes a nos devorar.
— E o que fez?
Já estávamos lá mesmo e não havia como recuar. Gunther transmitira minhas instruções à assembléia. Naquele momento, eles estavam indo fazer o que eu lhes determinara. Meu amiguinho e eu não podíamos mais retornar. Tínhamos que ir em frente. Vagarosamente entramos e subimos por uns degraus de pedra, até uma porta toda feita de ossos de seres humanos e de gnomos. Entramos. O local estava desprotegido. Como morcegos, os diabinhos dormiam, dependurados no teto daquele local escavado na pedra. Estavam a nossa mercê, por isso recuamos e fechamos aporta. Pedi a Gunther que lacrasse a porta e ele o fez. Depois passamos boa parte do tempo, indo e vindo, trazendo lenha e amontoando-a em toda a entrada aquele local assustador. Nesse particular, a ajuda de meu amiguinho foi inestimável. Os gnomos possuem uma força incrível, sendo capazes de carregar um peso muito superior ao que se poderia esperar deles, considerando seu tamanho. Num trenó improvisado, Gunther trazia toras de madeira que eu ia amontoando cuidadosamente.
— Mas devem ter levado um tempo enorme para fazer isso — calculei.
Sim, passamos metade da noite nessa tarefa. Já era madrugada, quando demos por encerrado o nosso trabalho. A etapa seguinte era atear fogo em tudo aquilo e torcer para que os demônios vissem logo aquele fogaréu. Quando isso acontecesse e eles percebessem o que estavam acontecendo, iriam correr em socorro de seus filhotes, presos nas chamas...
— Que crueldade, Tia Helga. Não acha isso uma judiação?
Contra os demônios? Olhe ao seu redor, Erich. Tudo que está acontecendo é obra deles. Acha que eu poderia ter piedade? Já naquela época pensávamos assim. Se tivéssemos compreendido melhor o perigo que nos ameaçava, todos os moinhos velhos e todos os reinos demoníacos teriam sido queimados. Isso não foi feito e se paga hoje o preço disso.
Acho que você tem razão, tia. Desculpe-me tê-la interrompido. Quer continuar, por favor?
Só espero que não me entenda mal, Erich. Destruir a vida, a luz, a cor, a energia, isto sim é um pecado contra Deus e contra a natureza. Destruir a morte, a ausência de luz e de cor, a letargia inútil é uma necessidade, é legítima defesa, meu sobrinho. Aqueles bichos que estavam lá, dependurados, matariam fadas e gnomos, arrancariam plantas, incendiariam florestas, matariam pessoas. O que eu e Guillen estávamos por fazer, porém, não era matar por matar, mas tentar salvar um ser que desempenharia um importante papel no equilíbrio de forças da natureza.
— Acho que entendi, tia. Desculpe-me novamente.
Acho que me exaltei, mas sempre me acontece, quando me lembro desses acontecimentos. Guillen não me deixou lidar com o fogo. Mandou-me afastar a uma distância prudente e retornou ao moinho, ateando fogo. Jamais vi algo se incendiar tão depressa, nem lançar fumaça tão alto. Em pouco tempo, o fogo e a fumaça foram vistos pelos demônios, que vigiavam a pequena fada-rainha. Foi uma debandada geral entre eles, todos rumando para o moinho e deixando o local desprotegido. Nesse momento, os gnomos e fadas que haviam sido instruídos correram e salvaram a fadinha, levando-a para local seguro.
— Mas e como você chegou a ser Rainha das Fadas?
Porque, apesar de tudo, os trols haviam maltratado demais a pequena fada e ela, com as asas arrancadas e o corpo judiado, acabou morrendo. Foi uma consternação geral. Jamais presenciei, em toda a minha vida, um momento de tanta tristeza. Cortava o coração. Um ano sem rainha poderia ser o fim das fadas, se os demônios, em desespero, resolvessem esquecer que também estavam sem um rei, lançando-se contra as pobrezinhas. Então Guillen fez a proposta. Foi engraçado. Alguém indagou como um ser que não podia voar poderia ser Rainha das Fadas?
— É mesmo, e como foi isso? — quis eu saber, curioso.
A rainha das fadas me deu sua varinha mágica. Guillen me deu um amuleto. Então eu voei... Eu voei, Erich...

Olhei para ela estupefato.

— Como, tia?

— Assim — respondeu ela, alçando vôo e bailando na sala, como uma fada feita de luz pura, de encantamento, de bondade e de magia.

SONHOS DE PRIMAVERA?

Na manhã seguinte, quando acordei, custei a entender o que havia se passado. Eu estava no sofá da sala. Havia adormecido ali. Sobre a mesa, estava o copo de vinho que eu bebera na noite anterior, junto com o jantar, que eu nem tocara.

A casa estava em silêncio. Não havia nenhum sinal de minha tia. Levantei-me vagarosamente, com o corpo dolorido pela caminhada do dia anterior e pela posição desconfortável no sofá.

— Tia Helga! — chamei-a, sem resposta.

Estava aturdido com tudo aquilo. Lembrava-me de tudo que havia acontecido, de Gunther, da fadinha, da história que minha tia contara e, principalmente, de tê-la visto flutuando no meio da sala, com sua varinha mágica e seu rosto sorridente.

A imagem ainda era tão nítida em minha mente que esperei, a qualquer momento, vêla surgir de alguma parte, flutuando magicamente.

Mas o silêncio da casa era perturbador. Eu chamei de novo por ela. Fui até a porta do seu quarto. A porta estava apenas encostada. Empurrei-a. Vi seu vulto estendido na cama. Achei que ela ainda dormia.

— Tia Helga! — chamei, baixinho.

Ela não se moveu. Arrisquei entrar alguns passos. Chamei de novo. Ela permaneceu como estava. Avancei pé ante pé. Um pressentimento passou por minha cabeça. Insisti. Foi inútil. Tia Helga estava morta. Havia morrido placidamente durante o sono.

Segundo o médico que acudiu logo depois, a enfermidade que a consumia estava em estado muito adiantado.

— O que sempre me surpreendeu foi a maneira como ela conseguiu conviver com essa doença terrível. As dores deveriam ser lancinantes, mas ela jamais aceitou um analgésico. Não sei como fazia para suportar a dor. Ela costumava brincar comigo, dizendo que usava alguns remédios que um gnomo, amigo dela, preparava... — confessou

o médico, com incredulidade.

Foi um período difícil para mim, mas, de certa forma, eu agradeci por ter estado ali, no último dia de vida de minha tia.

Eu tinha muitas perguntas ainda sem resposta.

Toda aquela seqüência de acontecimentos imprevistos, que me tiraram de Berlim e me levaram até Dort a tempo de estar presente no seu falecimento, ficava inexplicada. Da mesma forma, eu ficava sem saber o que acontecera realmente naquela tarde.

Teria eu participado de uma reunião com gnomos e fadas? Teria conversado com Gunther e com a fadinha na casa de titia? E, finalmente, eu a teria visto voando, como uma autêntica fada-madrinha ou teria dormido e sonhado, após o cansaço da caminhada que fizera durante o dia?

Com o passar dos dias, as coisas ficavam mais difíceis de serem entendidas. Por mais que eu tentasse, não chegava a parte alguma.

Uma das coisas que tive de decidir foi o que fazer com a casa que pertencera a Tia Helga. Logo surgiram ofertas de compra, mas, por incrível que pareça, o advogado dela surgiu com um testamento feito no dia que antecedeu a morte dela, transferindo para mim a propriedade da casa, para minha surpresa.

— Quando ela soube que você viria, ela me pediu para refazer o testamento. Na verdade, foi uma coisa interessante o que aconteceu, pois conheço sua tia há mais de trinta anos. Ela me disse que você viria. Quando eu lhe perguntei como sabia disso, ela me respondeu que havia pedido a uma Fada Azul para que fizesse os arranjos para trazê-lo até aqui. Ela tinha uma crença muito forte nesses pequenos seres, fadas e gnomos...

Nos dias em que fiquei na casa, sozinho, pensando em tudo aquilo, não vi mais fadas nem Gunther, o que me deixava convencido de que tudo aquilo que eu achava ter presenciado fora apenas sonhos de primavera.

Quando a minha ida ter coincidido com sua morte, não havia explicação realmente. A melhor maneira de entender era julgar mesmo pura coincidência. Quanto a me mandar procurar o Caminho Sem Fim, talvez fosse sua mente, já nas últimas, misturando as coisas. Era assim que eu podia explicar tudo aquilo.

Quanto aos frascos com remédios feitos de plantas que encontrei pela casa, imaginei que fora com eles que minha tia aplacara as dores que sentia nos últimos dias de vida. Eram receitas populares, feitas com ervas e um pouco de fé. Haviam sido úteis para ela, mostrando que havia algum sentido naquilo tudo.

Quando recebi a última oferta para venda da casa, hesitei, depois resolvi que não a venderia. Uma amiga de minha tia me procurou, oferecendo-se para cuidar da casa, enquanto eu estivesse fora. Quando eu quisesse, poderia voltar e passar alguns dias lá. Se no futuro decidisse vender, ela também cuidaria de tudo. Achei que era a melhor coisa a fazer.

Quando achei que nada mais havia a fazer em Dort, decidi voltar para Berlim. Aquele período ali havia me ajudado, realmente, pois conseguira ficar sem pensar em meu trabalho, o que foi excelente para mim.

Na noite anterior a minha partida, fui apanhar o resto daquele vinho que bebera. Com um copo na mão, sentei-me na varanda e fiquei bebericando, enquanto meditava.

Estava tudo muito calmo naquela noite. Um céu incrivelmente limpo exibia estrelas cintilantes, fazendo-me lembrar do céu de minha infância. A lua cheia surgiu, jogando claridade sobre a rua e sobre os telhados.

Nunca me senti tão em paz, como naquela noite. Por um longo tempo fiquei ali, olhando o jardim. Havia uma planta no centro dele que me chamava a atenção.

Olhando-a, percebi um botão prestes a se abrir. Tudo era muito nítido ao luar e, incrivelmente, eu podia acompanhar todo aquele processo lento, como se minha mente estivesse sintonizada na planta.

Então, a flor desabrochou e, naquele breve instante, eu vi aquela forma delicada e brilhante de pura luz colorida escapar da coroa aberta e se lançar no ar.

Girou ao redor da flor velozmente, depois desapareceu como uma estrela cadente.

Belisquei-me. Queria ter certeza de que não estava sonhando. E juro como não estava quando vi, junto àquela planta, o rosto sorridente de Gunther.

Antes que eu pudesse detê-lo, no entanto, ele sumiu por entre a folhagem por instantes, para aparecer ao pé da escada. Olhou-me com seus olhinhos miúdos e brilhantes.

— Você vai voltar, não vai? Sua tia disse que podíamos contar com você para ser nosso novo protetor — falou ele. Belisquei-me de novo.

E respondi que sim.
Afinal, eu estava condenado a falar a verdade para sempre.

FIM