Nanan Buruku é conhecida no Brasil como
a mãe de Obaluayé-Xapanan. É sincretizada com Santana. Os colares de contas de
vidro usados por aqueles que lhe são consagrados são das cores branca, vermelha
e azul. Segundo uns, o seu dia é a segunda-feira, juntamente com seu filho
Obaluayé; segundo outros, é o sábado, ao lado das divindades das águas. Seus
adeptos dançam com a dignidade que convém a uma senhora idosa e respeitável.
Seus movimentos lembram um andar lento e penoso, apoiado num bastão imaginário
que os dançarinos, curvados para a frente, parecem puxar para si. Em certos
momentos, viram-se para o centro da roda e colocam seus punhos fechados, um
sobre o outro, num gesto que vimos em Tchetti, na África, e do qual falaremos a
seguir. Quando Nanan Buruku se manifesta numa de suas iniciadas é saudada pelos
gritos de Salúba! Fazem-lhe sacrifícios de cabras e galinhas de angola, sem
utilizar facas, e oferecem-lhe pratos preparados com camarões, sem azeite, mas
bem temperados.
É considerada a mais antiga das divindades das águas - não das ondas turbulentas
do mar, como Yemanjá, ou das águas calmas dos rios, domínio de Oxun - mas das
águas paradas dos lagos lamacentas dos pântanos. Estas lembram as águas
primordiais que Odudúa ou Oranmiyan ( segundo a tradição de Ifé ou de Oyó)
encontrou no mundo quando criou a terra.
Este muito simbolizaria a existência de uma primeira civilizaçã, representada
por Nanan Buruku, civilização que existia antes da chegada de Odudúa e de Ogun
que trouxeram com ele o conhecimento do ferro e de suas utilizações. Nanan
Buruku teria, aqui, o mesmo papel que Yeyemowo, a mulher de Oxalá - rei dos
Igbos estabelecido perto de Ifé, antes da chegada de Odudúa - aproximando-se,
assim, da lenda conhecida no Brasil, da existência de um casal Oxalá - Nanan
Buruku.
Nanan Buruku é uma divindade muito antiga na África. A área de influência de seu
culto é bastante vasta e aparece se estender à leste, para além do Niger, palos
menos até o país Tapa-Nupé; a oeste, ultrapassando o Volta, tinge a região dos
Guangs e da nação Gomba.
Se o culto de Nanan Brukung tem tendência a se confundir com o de
Xapanan-Obaluayê-Omulu, na direção do leste, ele se apresenta bem diferenciado,
no oeste, onde seu nome se pronuncia Nanan Burukung.
O local da demarcação entre as duas espécies de Nanan parece Zumé, Tchetti e
Atakpamé, dão, de maneira unânime Siadi ou Schiari ( na região de Adelé, no Gana
atual, próximo à fronteira de Togo) como meta de peregrinação ao lugar de origem
de Nanan Buruku ou Brukung, Em Savé, há também indicações de ligação entre Nanan
Brukung e o país Bariba.
Tive a ocasião de assistir em Tchetti, no Daomé, próximo de Atakpamé, no Togo, (
ponto de partida para a peregrinação ao Adelé ), a uma série de danças dedicadas
a Nanan Brukung. As dançarinas, de de idade avançada, evoluíam aos sons de
tambores, Apinti, e de sinos de percussão. Todas elas traziam na mão um cajado
salpicado de vermelho, como os usado pelos peregrinos. A dança consistia num
lento desfile das iniciadas de Brukung e parecia rememorar a peregrinação por
elas realizadas. Iam apoiadas em seus bastões, andando um pouco de lado, com
passo lentos e circunspectos. Sua atitude imitava a fadiga de uma longa viagem.
Paravam de vez em quando, inclinavam-se para frente e estreitavam o seu bastão,
entre suas mão fechadas, uma sobre a outra, num gesto que lembrava o dos
iniciados de Nanan Buruku, no Brasil.
As saudações feitas a essa divindade resumem bem as suas diversas
características:
"Proprietária de um cajado.
Salpicada de vermelho, sua roupa parece coberta de sangue.
Orixá que obriga os Fon a falar Nagô.
Minha mãe foi inicialmente ao país Baribe.
Água para que mata de repente.
Ela mata uma cabra sem utilizar a faca"
Nanan Buruhu é o arquétipo das pessoas que agem com calma, benevolência e
gentileza. Das pessoas lentas no cumprimento de seus trabalhos, e que julgam ter
a eternidade à sua frente para acabar seus afazeres. Elas gostam de crianças e
educam-nas, talvez, com excesso de mansidão pois têm tendências a se comportar
com a indulgência de avós. Agem com tal segurança, e tão majestosamente, que
desviam os enganadores, inspirando-lhes um saudável terror, o que os impede de
envolvê-las em seus projetos maldosos. Suas reações bem equilibradas e a
pertinência de suas decisões as mantêm sempre no caminho da sabedoria e da
justiça
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