POSTURA E COSTUMES NA CASA-DE-SANTO
Quando propus o debate e comentários desse tema, foi com a intenção de
refletirmos um pouco mais sobre as práticas e o abandono de alguns costumes que
venho observando de uns tempos para cá, não somente nas casas de origem
angola-conguense, como em outras denominações do candomblé. Costumes estes que,
no meu entendimento, enriquecem os nosso cultos e se tornam um diferencial
motivador para que possamos galgar degraus de elevação dentro de nossas Casas, à
medida que ficamos mais velhos, tanto em nossa idade cronológica de nascimento,
quanto em nossa idade de renascimento para a “Vida de Santo”. Fugir destas
práticas e hábitos, me deixa uma sensação de colocar a carroça na frente dos
burros, sem um fundamento que justifique isto.
O candomblé, independentemente de qual seja a Nação, é uma religião iniciática,
que pauta e valoriza em seus costumes o princípio da hierarquização dos diversos
postos existentes em cada família religiosa, além de se caracterizar como uma
religião que, milenarmente, transmite, através dos detentores dos conhecimentos,
os fundamentos através da oralidade, quer sejam eles os mais basilares, até os
mais complexos. Uma outra característica é quanto aos mistérios e magias que
estão nos seios de nossos rituais, praticados em nossas casas, sem contar o
encanto, beleza e esplendor que são gerados pelos nossos Minkisi e, como tal,
não empolgam somente os membros de cada Roça, mas também incentivam, a cada dia,
milhares de pessoas que circulam no mundo profano que, maravilhadas por este
clima grandioso, buscam seus engajamentos nestas casas, tornando-se membros
efetivos das Roças-de-Santo junto com outros milhares de companheiros de nossa
religião, com o objetivo final de serem iniciados nestes mistérios e mundo dos
deuses do panteão afro-brasileiro.
O aumento do número de pessoas que a cada ano passam a integrar os quadros das
diversas Roças, se faz independentemente dos novos adeptos serem ou não
descendentes de nossos irmãos do continente africano. São admitidas no seio de
nossas Casas-de-Santo pessoas de qualquer raça, de várias camadas
sócio-econômicas, de credo religioso anterior que possuem dogmas diferentes dos
nossos, de estados civis variados, sem limite de idade cronológica e de ambos os
sexos. Devido a isto, temos que ter consciência e sermos flexíveis para o
entendimento de que muitos destes, trazem consigo, vícios comportamentais, que
no mundo profano ou no seio de outras religiões possam ser considerados normais,
mas que se comparados aos nossos costumes e rituais, constituem-se em
verdadeiros antagonismos aos conceitos básicos que fundamentam nossa religião.
Apesar de nossas cerimônias, quer sejam públicas ou reservadas, serem
normalmente revestidas de um clima alegre, principalmente pela beleza dos
cânticos que contam parte da história e estória de nossos antepassados e deuses,
merecem por parte de todos um elevado grau de seriedade e comprometimento, sem
contar a dedicação necessária para a eterna busca responsável do saber acerca
dos mistérios que envolvem nossos ritos.
Desde a condição de neófito que o integrante de uma Casa-de-Santo adquiri no
momento de sua admissão na sua nova família espiritual, passando pela sua
iniciação e aprendizado a cada ano que completa aniversário como iniciado, até a
possibilidade de assumir postos mais elevados dentro desta hierarquia, é
necessário que o adepto do candomblé tenha a consciência de que é necessário ser
um bom filho-de-santo e que esta condição será eterna, pois por mais velhos que
sejamos comparativamente a data de nossa iniciação, sempre seremos um munzenza
para o nosso Nkisi. E durante todo esse eterno tempo de aprendizado é necessário
o verdadeiro entendimento sobre os costumes, hábitos, responsabilidades e
deveres que a nós são impetrados por força de nossos fundamentos religiosos.
Desta forma, a tônica encontrada nos seios das casas de candomblé de que os mais
velhos sempre têm razoa, poderia eu dizer que está certo em quase sua
totalidade. Fato que podemos compreender bastante bem quando reunimos alguns
anos de iniciado. Identicamente a frase de que “um bom filho ou filha será um
bom pai ou mãe”, tem toda a minha apreciação e aprovação. Quem não deu valor e
nem passou pelos “sacrifícios do período de munzenza”, com certeza não saberá
dar valor ao período como Kota.
Antes de se poder falar em hierarquia, costumes, posturas e hábitos no centro
das comunidades candomblecistas, temos que mais do que entender, sentir o real
significado do que é “SER FEITO PARA O SANTO”. É saber entender a religiosidade
do ato em si, onde a parte divina existente dentro de todos nós floresce
libertando o nosso ancestre num perfeita harmonia conosco, estabelecendo uma
comunhão espiritual perfeita, capaz de nos revelar as belezas da natureza, capaz
de nos fazer entender a importância de nos conduzirmos com retilinidade na vida
espiritual e civil, capaz de nos mostrar o valor que possui os nossos
semelhantes, capaz de nos dar dimensão do grau de importância da Raiz onde fomos
iniciados e nossa obrigação em defendê-la sempre e continuamente, capaz de nos
mostrar que somos uma criatura com semelhança do Criador e, finalmente, capaz de
nos revelar o quanto somos importantes no mundo que habitamos e quanto poderemos
ser importantes no mundo que habitaremos após a nossa morte, quando assumiremos
outras responsabilidades, inclusive com os nossos descendentes.
Se conseguirmos atingir tais entendimentos e sentimentos, aí sim, poderemos
dizer que FOMOS FEITOS COMPLETAMENTE e que nossa parte foi feita a contendo. Aí
poderemos ter a certeza que atingimos os objetivos de se FAZER O SANTO, ou seja,
conseguiremos manter perpetuados honrosamente a memória ancestral e estaremos
renascidos como pessoas mais energizadas, melhores como seres humanos, fortes
para enfrentar as adversidades do dia-a-dia de forma segura e com tenacidade e
sempre em busca do sucesso e das realizações pessoais e espirituais, não se
excetuando, obviamente, o foco na necessidade de manter o espírito de
solidariedade e ajuda ao próximo, quer seja ele de nossa irmandade, quer seja
ele fora do nosso ciclo religioso.
Entender o propósito dos costumes e posturas adequadas de uma casa-de-santo e
conhecer a si mesmo e a importância de ser um iniciado. É ter bem definido o seu
propósito de saber que você é e o que representa para sua família espiritual. É
saber de onde você se originou no mundo profano e onde você está e onde você irá
chegar no seu mundo religioso, pois estas questões não nasceram dentro das Casas
de Candomblé aqui no Brasil, mas sempre foram os pilares de sustentação das
sociedades religiosas de nossa Mãe África, onde nossos ancestres sempre
denotaram e manifestaram suas vontades de estarem o mais próximos da natureza e
de seus ancestrais e como estes servem de intermediários entre nós e o Deus
Supremo. Sem contar a incessante vontade de melhor entender o que seja o Criador
e seus poderes; de entender como nosso mundo foi criado e quais os princípios
que o regem em relação ao mundo espiritual. Com certeza esses entendimentos nos
ajudam, sobremaneira, a entender, mas claramente a importância da hierarquia,
posturas e costumes na vida cotidiana de uma Casa de Candomblé.
Por todas estas questões é que, nós seres humanos, no propósito de perpetuar e
divulgar o quanto é belo fui o momento da divinização de nossos Minkisi, é que
criamos os rituais que transformaram a RELIGIÃO CANDOMBLÉ numa religião de
características iniciáticas e secretas, com o objetivo de que nossos Deuses, que
habitam o nosso ser interior, surja manifestado como um ancestre divino que o é.
Daí, como toda instituição que é regida por sistemas piramidais, surge as
matrizes hierárquicas, onde as diversas camadas desta entidade se distinguem e
diferem através de postos assumidos e as respectivas responsabilidades, deveres
e competências de cada indivíduo, surgindo, daí, os títulos, cargos, formas de
compensação (não financeira), diferenças no modo de se vestir, limites de
autoridades, prerrogativas de direito, etc.
Retorno um pouco ao início de meus comentários, por que não será possível
entendermos e aceitarmos a importância da hierarquia, dos costumes a serem
seguidos e as posturas a serem assumidas, se no momento de nossas iniciações
nada disso for ensinado de forma espontânea e sem obrigatoriedades (de forma
natural) e, por sua feita, sem que possamos compreender e apreender todo esse
significado. Infelizmente, tenha observado em algumas de nossas casas co-irmãs
do culto Angola-Congo, a iniciação de pessoas que ficam recolhidas por períodos
extremamente pequenos, fugindo aos preceitos básicos que nos ensinou os mais
velhos e Kimbandas e Sobas do continente africano, quando nestas ocasiões, já se
começa a perder a oportunidade de demonstrar essa importância, dando um exemplo
inadequado do que seja uma verdadeira iniciação e seus significados.
Um outro ponto que ao meu ver dificulta o entendimento sobre a importância da
hierarquia, costumes e posturas é que na Mãe África, o culto religioso se
mistura rotineiramente com a vida civil e este primeiro é realizado no seio das
famílias consangüíneas, onde o respeito ao mais velho é uma tônica evidente e um
estímulo para que os mais novos perseguiam os caminhos do respeito para que, um
dia, também se tornem um “Velho Respeitado”. Já no Brasil, a prática é bem
diferente, onde a iniciação dos adeptos do candomblé não obedecem à linhagem de
família consangüínea, salvo algumas raízes, que mesmo aceitando pessoas
estranhas aos laços de família civil, ainda, assim, respeitam a forma de
perpetuar a hierarquia dando posse aos cargos mais elevados e de direção,
somente aos parentes desta família civil.
Retomo o momento da iniciação como sendo o primeiro período onde começa a ficar
definido a importância dos costumes, hábitos, posturas a serem assumidas, pois
no período de recolhimento, o qual não deixa de ser uma alusão ao período de
gestação, nos é mostrado o quão sublime é esta hierarquia. Nos é mostrado o
quanto somos dependentes e carentes de ensinamentos, carinho e orientações. É
neste período que começamos a entender de onde viemos, onde estamos, para onde
estamos caminhando e o porque estamos indo e para que direção. Parece-me que
neste momento a tão necessária hierarquia se torna bem clara, assim como os
costumes e posturas que devemos assumir, lembrando, sempre, só teremos um bom
ensinamento nas mãos daqueles que nos criam e que foram muito bem criados, pois
não se pode dar aquilo que não se tem.
O período de iniciação é tão importante para que entendamos o significado da
hierarquia, costumes e posturas, que é nele onde o neófito começa a dar os seus
primeiros passos para o entendimento do que é a Mãe Natureza no seu sentido
religioso. É nele que o postulante ao cargo de Munzenza começa a aprender os
princípios basilares de nossos Minkisi e de Nzambiapongo. É neste período que
começamos a entender e aprender os “Ingorossis” de nossa Raiz, os seus costumes,
os princípios que regem nossa família espiritual, quem são as dignidades dessa
família/raiz, as formas adequadas quanto às condutas de comportamento perante
aos irmãos e visitantes, quer sejam no dia-a-dia ou em dias de festividades
públicas e internas. É neste período é que começamos a ter os primeiros contatos
e conhecimentos sobre quais as características e particularidades de cada um de
nossos Deuses e as respectivas “kijilas”. É neste período que começamos a
aprender quais os costumes e procedimentos que devem ser evitados sob qualquer
pretexto, com vistas a evitar a desarmonia e a quebra dos costumes religiosos
que distinguem nossa Raiz e que a fazem majestosa.
Um alerta quanto a tudo comentado até agora deve ser feito, principalmente que
se opta por abraçar o culto dos Minkisi como nossa religião. Obviamente quando
começamos a participar de uma comunidade, a exemplo do que são as Casas de
Candomblé, onde, indiscutivelmente existem regras claras e bem definidas quanto
modelo hierárquico, seus costumes, valores e posturas que têm de ser assumidas,
tudo isso nos remete a mudança de algumas posições pessoais que adquirimos ao
longo de nossa vida civil, o que não podemos desprezar como sendo difícil, além
do que todas mudanças, salvam raros exemplos, sempre trazem sentimentos de
receio do desconhecido e ansiedades, angústias, impotências e vontade de
desistir a percorrer o nosso caminho dentro da religião. Daí, também a
importância de trazermos os ensinamentos que adquirimos em nossas vidas civis,
aprendidos no seio de nossas famílias consangüíneas, onde os códigos de ética,
educação e respeito, são extremamente importantes e que ajudarão no entendimento
do que seja hierarquia sadia, posturas sadias e costumes sadios, eliminando
obstáculos, mudando paradigmas e sabendo aceitar que nem sempre o simples é
menos grandioso. Ou seja, a boa condição de convivência e ensinamentos de nossos
pais, ajudam ou pioram muito a forma de se conduzir no novo meio religioso do
neófito.
Costumo dizer que “CANDOMBLÉ É MEIO DE VIDA E NÃO MEIO DE MORTE” e creio que
cada um dos Minkisi que carregamos conosco passa a ter um papel muito importante
neste momento de aprendizado na nova vida religiosa que escolhemos no momento de
nossas iniciações. Eles são os verdadeiros exemplos a serem seguidos, pois a
todo o momento, mesmo na condição de “DEUSES”, nos ensinam maravilhosamente bem
o que é a hierarquia sem a submissão nociva, o que é a humildade com
grandiosidade, o que é o respeito com a civilidade, o que é o castigo sem dor e,
principalmente, o que é o verdadeiro amor sem o interesse. Vai, aí, mais uma
prova de como é importante e necessário que pratiquemos e respeitemos os
costumes, posturas e modelos hierárquicos que nos são transmitidos e vivenciados
através dos comportamentos e histórias de nossos deuses ancestrais. Se eles como
perfeitos deuses e nossos guardiões os exercitaram e vêm exercitam todos esses
hábitos, inclusive quando manifestados em nossas cabeças, por que, como simples
seres humanos, deveremos não praticá-los?. Não seria antagônico e contraditório?
Se verificarmos os contos, lendas, histórias, estórias sobre a criação do mundo,
nas diversas versões dos povos de origem banto, vemos claramente toda essa
hierarquia, formas de agir, responsabilidades, costumes, particularidades e tudo
mais que, guardada as devidas proporções, ainda encontramos em nossas
Casas-de-Santo e que ajudam significativamente na administração de nossos
templos e das pessoas que neles convivem. Cabe lembrar, também, que através
dessas lendas e contos, observamos que, muita das vezes, quando essa hierarquia,
posturas e costumes eram quebrados, nossos Deuses, através de suas
representatividades como caçadores, reis, ajudantes, curandeiros, etc.,
utilizavam-se de recursos corretivos, que podemos traduzir como castigos,
guerras, sacrifícios e penalidades, tudo em nome da manutenção dos princípios
que norteiam a hierarquia, posturas e costumes, que tanto questionamos em prol
de algumas arrogâncias que mantemos e por medos que inventamos como escudos para
as nossas incompetências e falta de humildade. Assim, por analogia, podemos
concluir que se plagiarmos nossos Minkisi nos modelos que eles praticam acerca
da hierarquia, posturas e costumes no seio de nossas Casas de Candomblé,
estaremos demonstrando nossa fé, crença e religiosidade sobre tudo que está
relacionado a eles. Obviamente que toda a fé em nossos Minkisi pode ser
demonstrada de forma isolada, mas candomblé sem culto coletivo não existe e,
mesmo que existisse, assim mesmo teríamos que ter postura hierárquica com o
nosso Nkisi e este com o Deus Criador.
Uma outra reflexão que podemos fazer a respeito da hierarquia religiosa, seus
costumes e posturas que devem ser seguidos pelos adeptos do Candomblé, é quando
nos remetemos aos tempos da escravatura em nosso país. Nas senzalas podiam ser
encontradas pessoas com etnias diferentes, que por uma questão de sobrevivência,
deixaram de lados suas diferenças, inclusive aquelas que faziam parte de suas
rivalidades tribais, como meio de sobrevivência frente ao tratamento que
recebiam de seus “donos” europeus. Ali, naquele espaço físico, onde as práticas
de desagregação e degeneração da espécie humana era praticada abusivamente, não
se deixou de preservar a hierarquia, os costumes e posturas originárias das
terras que foram o berço das civilizações.
Foi no calar da noite que as senzalas construídas no Brasil se transformavam num
exemplo típico de uma nova sociedade que nascia com o respeito à hierarquia
sacerdotal, mesmo quando a Igreja Católica tentava impor o evangelho cristão aos
nossos irmãos negros. Foi nas senzalas que, com toda essa organização
hierárquica, nasceram, ainda sem uma consciência ordenada, as primeiras Raízes
do nosso Candomblé, através das irmandades de escravos existente até os dias
atuais.
Foi nas senzalas que ocorreram as maiores trocas culturais da religião africana,
que independentemente de serem de origem banto ou nagô, sempre pautaram em suas
organizações pelos princípios hierárquicos e posturais, que foram trazidos com
cada africano que aqui aportou e desses com transmissão para seus descendentes.
Saindo do campo filosófico e/ou estórico sobre a hierarquia sacerdotal, os
costumes e posturas a serem assumidas pelos membros das Casas de Santo, gostaria
de fazer alguns comentários relacionados à praticidade desses comportamentos a
serem assumidos no dia-a-dia das Casas de Santo. Para tanto, constatamos que
existe, na prática, toda uma estrutura de valores e comportamentos desempenhados
nas comunidades do candomblé, que permitem a evolução e acesso de todos os seus
membros a posições que variam desde a base da pirâmide até o seu topo. Assim,
podemos, de uma forma simplificada, dividir esta estrutura piramidal, observada
normalmente, em três grupos, que confirmam a hierarquia que muita das vezes é
questionada:
1) GRUPO DOS NEÓFITOS (NDUMBE)
Aqui encontramos as pessoas que estão aguardando o momento de se iniciarem e
receberem os chamados “fundamentos” de nossa religião.
2) GRUPO DOS INICIADOS (MUNZENZAS E MUNANZENZAS)
Este é o grupo das pessoas iniciadas e que estão habilitadas a começar a
percorrer a longa estrada de sua vida religiosa. É neste grupo que é iniciado os
primeiros passos atingindo as graduações através do cumprimento das “Obrigações
de Tempo de Iniciação”.
3) GRUPO DOS MAIS GRADUADOS (KOTAS)
Este é o grupo das pessoas que possuem 7 ou mais anos de iniciados e que estão
com suas “Obrigações” em dia. Nele podemos encontrar pessoas que têm ou não
cargos assumidos dentro da comunidade candomblecista, ou seja, os Tatas Kimbanda,
os Tatas Kambondo, as Nenguas, as Makotas e todas as suas derivações.
Como podemos constatar no dia-a-dia de nossas casas, todo essa malha hierárquica
sacerdotal demanda responsabilidades individuais e coletivas, períodos de
adaptação e ensinamentos, deveres, obrigações e regalias estratificadas que, por
conseqüências, trazem em seus bojos, os costumes e posturas peculiares a cada
posição assumida. Assim, com o objetivo de podermos fazer um comentário prática,
podemos adotar, de forma didática e apenas para exemplificação, algumas posturas
e costumes:
- Nossa religião não possui um “Livro Sagrado”, a exemplo de outras religiões e
seitas. Tem por característica a transmissão dos ensinamentos através da prática
e oralidade. Esta particularidade demonstra não haver um modelo de avaliação
para aqueles que receberam os ensinamentos. Dependerá única e exclusivamente de
cada um de nós o tempo para retermos as informações que nos forem dadas. Sem
contar que somos conhecedores que o fator dedicação, interesse e confiabilidade
são extremamente importantes para que possamos receber mais ou menos
informações, haja vista que nossos rituais e fundamentos são considerados
iniciáticos e secretos. Assim, podemos constatar, mais uma vez, que a condição
postural é muito necessária para aqueles que desejam galgar posições
hierarquicamente superiores em nossas comunidades.
- Se fizermos uma análise do período que compreende desde a condição de neófito,
passando pelas fases que vão desde a iniciação até se completar o período de
sete anos desta, podemos verificar que este serve para o aprendizado sobre quem
são os Minkisi, suas danças e cantigas, suas lendas. Serve, ainda, para o
aprendizado acerca das obrigações, deveres e responsabilidades que fazem parte
do conjunto de tarefas de cada ano de iniciação. Serve para se aprender os
significados sobre os diversos espaços físicos e sacralizados de uma
Casa-de-Santo. Serve para aprimorar os conhecimentos sobre a genealogia da Raiz
a que pertence e suas principais autoridades e dignidades. Serve para se
conhecer melhor as formas e posturas assumidas no trato de nossos Minkisi e
dignidades do candomblé em seus respectivos postos. Serve para o aprofundamento
do conhecimento de nossos dialetos e rezas. Desta forma, vemos, mais uma vez, a
importância da hierarquia e a prática constante dos costumes e posturas a serem
assumidas em cada ocasião e de forma eterna.
- Uma outra demonstração de que os costumes, práticas, posturas e hierarquia se
fazem presentes e necessárias em todas as instituições iniciáticas a exemplo do
que é o candomblé, é a consideração que se faz ao tempo de iniciação e as
“Obrigações Pagas” em seus respectivos tempos. É só observar a maneira de como
nossas “Rodas” são compostas em dias de “Toque”, ou seja, os mais velhos na roda
ou rodas de dentro e os mais novos na roda ou rodas de fora, obedecendo aos
tempos de iniciação. Quer dizer que um munzenza com um ano de iniciado tem suas
obrigações, deveres, prerrogativas, formas de se vestir e usar paramentos, forma
de se dirigir às pessoas mais novas e mais velhas, como um munzenza de um ano de
iniciado e assim por diante, valendo a mesma regra para os que tem 2, 3, 4, 5,
6, 7 ou mais anos de iniciação.
Cabe ressaltar que um iniciado com 30 anos de iniciado, por exemplo, mas que só
tenha “pago” sua “Obrigação de Três Anos”, suas obrigações, deveres,
prerrogativas, formas de se vestir e usar paramentos, forma de se dirigir às
pessoas mais novas e mais velhas, deverá ser de um munzenza com três anos de
iniciado, mesmo tendo trinta de “feitura”. Este costume é muito comum, pelo
menos nas Raízes mais antigas e mais bem organizadas, independentemente da Nação
a que pertença.
- Também na prática diária de nossas Casas-de-Santo, vemos o quanto é importante
à hierarquia sacerdotal, quando observamos a divisão das tarefas na
administração das “Roças”, quer sejam elas domésticas ou rituais, tais como
trabalhos de cozinha, limpezas do espaço físico, arrumação e separação de
animais, cuidados com a indumentária própria e dos Minkisi, etc. Vemos como
tônica que um Kota que não soube ou aprendeu as tarefas e costumes de Munzenza,
nunca será um “Bom Mais Velho”. O que podemos observar que o mais afoitos e que
queimam etapas de sua trajetória religiosa, acabam se frustrando como Kotas ou
alijados de alguns processos dentro de suas próprias casas, ou não sendo
reconhecidos, verdadeiramente, nas comunidades co-irmãs e, convenhamos que é
muito desagradável e desabonador que um munzenza fique isolado ou não seja
respeitado convenientemente em virtude de seu comportamento ou por estar
desalinhado com os costumes e posturas pertinentes ao seu tempo de iniciado.
Isto não descredibiliza somente a ele, mas a religião como um todo.
Ainda dentro da linha de exemplificação, muitos outros assuntos poderão ser
levantados dentro da proposta lançada por mim para a reflexão e debate dos
irmãos e que também fazem parte deste tema central. Senão vejamos:
a) CHEGADA NA CASA-DE-SANTO
Parece-me de bom costume que o filho-de-santo, independentemente do seu tempo de
iniciado, entre na “Roça” e fique em local reservado para “Esfriar o Corpo”
(exemplo: uns 15 a 20 minutos) e bebendo um pouco de água fresca. Logo depois,
tomar o seu banho de asseio, seguido de banho litúrgico (variável de casa para
casa) e, depois, colocar a roupa litúrgica específica para ocasião e dentro dos
costumes pertinentes ao sua idade de iniciado.
Banho tomado e roupa trocada, cumprimentar ritualisticamente aos Minkisi da Casa
e os locais de “Firmeza”. Feito isso, iniciam-se os cumprimentos às dignidades
presentes, começando pelas mais antigas de iniciação até os de sua idade.
Terminado, os mais novos do que aquele que chegou, vão cumprimentá-lo. Cabe
lembrar que os cumprimentos aos mais velhos deve iniciar pelo Zelador/Zeladora
da Casa.
Os cumprimentos deverão ser em conformidade com os nossos rituais, ou seja, em
posição de “debulé” ou “dobale”, batendo makó, beijando a mão e solicitando que
o mais velho nos abençoe na forma dialética da nossa Raiz. Atenta-se para o
detalhe que não se cumprimenta seus familiares religiosos ou dignidades de
outras Raízes de pé ou com a cabeça alta. Isto só é aceitável em condições
igualitárias da hierarquia sacerdotal, ou seja, ndumbe com ndumbe, Munzenza com
Munzenza com o mesmo tempo de iniciação e todos os tipos de Kota, com ou sem
cargo, com o mesmo tempo de iniciação.
Lembrem-se que tomar a benção a um mais velho não é somente uma obrigação, mas
UM DIREITO ADQUIRIDO por todos que fazem parte de uma Casa-de-Santo. O direito
que temos de receber de uma pessoa mais velha de iniciação, que nos abençoe
naquele momento.
b) PRESENÇA JUNTO AOS MAIS VELHOS
Não se passa entre duas pessoas mais velhas, por exemplo, quando estão
conversando, sem que antes se peça licença de forma ritualística e de acordo com
os costume da Raiz a que pertença, sempre de cabeça inclinada, num gesto de
respeito (NÃO SUBMISSÃO).
Não se senta em condição de igualdade e na mesma altura que pessoas mais velhas
de iniciação, a não ser em condições de excepcionalíssima necessidade e com a
devida permissão. Lembre-se que a CADEIRA é um mobiliário que faz parte das
tradições e hierarquia de nossas comunidades. Por mais presunção que seja de
minha parte, o contrário também vale, ou seja, um mais velho se juntar aos mais
novos de forma contumaz e corriqueira. Isso o estimulará a não compreender o que
é hierarquia e quando ele estiver com o mesmo tempo de iniciação que o seu, não
se sentirá prestigiado quando o mesmo acontecer com ele. Isso não é ser pedante
nem ter humildade, mas saber mostrar ao mais novos, ESPONTANEAMENTE, COM
EDUCAÇÃO e SIMPLICIDADE a importância de ser mais velho e que hierarquia é para
ser praticada. Sentar-se à mesa com o Zelador/Zeladora, desnecessário detalhar
que somente aqueles que possuem “Cargo” (e confirmados) e as dignidades que o
Zelador/Zeladora convidar.
O gesto de servir alimentos e bebidas é privilégio e obrigação das
filhas-de-santo que são iniciadas para Minkisi considerados como energias
femininas. Munzenzas do sexo masculino, porém com Nkisi “feminino” não serve nos
almoços, jantares, cafés da manhã, somente munzenzas do sexo feminino, iniciadas
para Nkisi de “energia feminina”. Aos iniciados do sexo masculino deverão estar
destinados os trabalhos mais pesados, com, por exemplo, as faxinas do
caramanchão e terreno da Roça, a limpeza dos quartos-de-santo e todas as tarefas
que necessitem de força mais bruta.
É de boa prática que copos de bebidas (água, refrigerantes, café, etc.) sejam
servidos aos mais velhos ou visitantes ilustres, com um prato ou bandeja sob a
base do copo, caneca, xícara, etc.
Fumar na presença de mais velhos e visitantes é terminantemente proibido. Apor
cinzeiros sobre as cadeiras dos mais velhos ou dos Minkisi é ato de falta
gravíssima. Dentro dos “quartos sacralizados”, entendo que não merece nem
comentários a respeito.
Em dia de festividades e no momento de distribuição dos alimentos, é de bom tom
que se dê preferência a que os visitantes sejam primeiramente servidos,
principalmente aqueles que se destacam como dignidades comprovadas, em
retribuição a honra que eles nos fizeram pelas suas presenças.
O uso de bebidas alcoólicas dentro de uma Casa-de-Santo, quer seja em dia de
festividades ou não, se for utilizada, deverá ser com o máximo de moderação.
Lembrar que aqueles que estão de “obrigação”, assim como os nossos Minkisi
merecem o máximo de nosso respeito e, com toda certeza, bebida alcoólica não faz
um bom par com Nkisi.
Se não solicitado, um irmão mais novo não tira e nem faz conclusões e nem dá
opiniões em roda de irmãos mais velhos. Quantos de nós já não presenciamos ou
vivenciamos situações constrangedoras a esse respeito e, em algumas ocasiões,
com pessoas que não fazem parte de nossas casas?
c) IDUMENTÁRIA, ADEREÇOS, SÍMBOLOS E OBJETOS SAGRADOS.
A indumentária religiosa é um dos fatores que fazem a distinção e mostram a
posição hierárquica assumida por uma pessoa dentro da Casa-de-Santo, de acordo
com as tradições. Essa distinção é feita tanto em nosso país como em terras
africanas. No Brasil, por questões culturais e que também foram absorvidas pelos
costumes europeus, tomaram características diferentes daquelas do continente
africano, mas, mesmo assim, formaram um modelo que diferenciam desde o Ndumbe
até a mais alta dignidade de sua Casa.
Roupas limpas e bem passadas, são condições indiscutíveis em qualquer condição
da hierarquia sacerdotal. Os homens devem estar trajados de “Roupa de Ração”, ou
seja, calças amarradas com cadarço e camisas com mangas (podendo ser camiseta).
Algumas casas dão preferência ao tecido do tipo morim, fustão e cretone,
variando de casa para casa. O uso deste tipo de vestimenta deverá ser destinado
para os rituais internos. O uso de bermudas e “shorts” não fazem parte de nossos
rituais. O uso de batas deve ser destinado aos que possuem 7 ou mais anos de
iniciação e com suas “Obrigações” em dia e correspondente a esta idade.
O uso de roupas coloridas não é proibitivo aos iniciados com menos de 7 anos,
porém deve obedecer aos critérios da Casa que, normalmente liberam este tipo de
estamparia em dias de festividades, dependendo de que tipo é este comemoração. A
cor branca sempre é bem aceita em qualquer tipo de ocasião e ritual.
Quanto às mulheres, JAMAIS DEVEM USAR CALÇAS COMPRIDAS dentro da Casa-de-Santo.
Os cauçolões devem estar sob as saias.
Uma Ndumbe deve usar poucas anáguas. À medida que é iniciada e vai ganhando
tempo de iniciada, o número de anáguas vai aumentando.
O uso de chinelos deverá ser após ter completado e pago a “Obrigação de Três
Anos”. As Kotas poderão usar sapatos com saltos e maquiagem, porém a discrição,
o bom senso e o bom gosto, combinados, não fazem mal algum para escolha destes
complementos, pelo contrário, tornam harmoniosa a imagem da pessoa.
O pano-de-cabeça é obrigatório para os filhos-de-santo do sexo feminino,
independentemente se for de Santo Masculino ou Santo Feminino. Em conjunto com o
pano-de-cabeça, indispensável o uso do pano-da-costa, que deverá estar com um
laço em forma de borboleta para as iniciadas de Santo Feminino e em forma de
gravata para as iniciadas de Santo Masculino.
Aos iniciados com mais de 7 anos e com “Obrigação” paga, será permitido o uso de
brincos (do tipo: argolas, búzios, corais, monjolos, dependendo do Nkisi para
que foi iniciada), da mesma forma a permissão para o uso de pulseiras e
braceletes.
As filhas-de-santo que têm permissão para usarem a Bata, deverão estar com seus
panos-da-costa colocados na altura do peito ou arrumados na altura da cintura,
porém, nunca em forma de faixa enrolada na cintura, pois não é o costume certo e
nem elegante para a vestimenta. A quem defenda, em casas mais antigas e
tradicionais que o pano-da-costa deverá estar sobre o peito ou na cintura,
quando da participação da filha-de-santo em trabalhos ritualísticos. Caso
contrário, em dias de festividades, o pano-da-costa deverá estar sobre o ombro
direito, caindo para frente e para trás. O pano-da-costa é uma peça do vestuário
feminino indispensável para qualquer ocasião que se esteja na Roça-de-Santo ou
em visita a uma outra Casa. Talvez seja ele e o pano-de-cabeça sejam as peças
mais tradicionais da indumentária feminina em nossos candomblés, oriundo de
terras africanas, enquanto o camisu e as anáguas fazem parte do legado dos
costumes europeus.
A dixisa, tanto utilizada em nossas casas jamais devem ser arrastadas pelo chão.
Sobre ela não se fuma e nem se bebe bebida alcoólica. Elas fazem parte do
conjunto de objetos sagrados de nosso culto. Os membros da casa do sexo feminino
devem carregar as esteiras debaixo do braço e os de sexo masculino devem
carregá-las sobre o ombro. As mulheres iniciadas para Minkisi de “energia
feminina” é que devem esticar as esteiras para o dobale de seus irmãos do sexo
masculino. Somente em último caso que as mulheres de “santo masculino” estendem
as esteiras para os seus irmãos realizarem o dobale.
Às filhas-de-santo é proibido utilizarem os atabaques para tocarem ou mesmo
removê-los de seus locais. Da mesma forma a regra serve para outros instrumentos
do tipo gã (ganzá), berimbau, reco-reco, xequerê, maracá e outros. Esta
atividade é destinada aos Kambondos, confirmados para este fim.
Todos os filhos da Casa, independentemente do tempo de iniciado, ao passarem na
frente das cadeiras dedicadas aos Minkisi, atabaques ou pessoas mais velhas,
devem fazê-lo abaixando o corpo.
A formação da roda de filhos-de-santo que estarão dançando para os Minkisi deve
seguir a hierarquia dos anos de iniciação e postos ocupados na Roça. Não devemos
esquecer que a dança também faz parte dos nossos rituais e louvação aos nossos
ancestrais, numa forma de reverenciá-los e reviver suas passagens por nossas
terras. Sair da roda sem um motivo justificado denota uma falta de respeito e
pouco caso com os nossos deuses.
Bem meus irmãos, acho que me empolguei demasiadamente a respeito deste assunto e
me tornei prolixo, para o que peço desculpas pela extensão do texto aqui
apresentado. Sei também que poderia continuar apontando outros pontos mais que
por si só justificariam a necessidade de continuarmos mantendo e sustentando a
defesa de que a postura e os costumes ensinados pelos nossos mais velhos e que
hoje estamos abandonando em nome de uma igualdade inexistente, fazem parte das
tradições afro-brasileiras e só enriquecem os nossos cultos, ao contrário de
muitos de irmãos nossos que pelo Brasil afora estão confundindo educação e
tradição com anarquia.
Finalmente, há que se chamar à atenção para que os mais velhos sempre tenham em
mente que a hierarquia sacerdotal serve para diferenciar os tempos de iniciação,
mas que jamais deverão servir aos propósitos da humilhação de seus irmãos mais
novos. Que a hierarquia, posturas e costumes servem para ser utilizados entre os
componentes de uma comunidade e nunca de nós para com os nossos Minkisi. Para
estes, seremos sempre munzenzas, e que bom que seja assim, pois desta forma
seremos sempre agraciados por suas dádivas, orientações e ensinamentos.