RELAÇÃO BAHIA ÁFRICA

Entre os filhos de africanos da primeira geração que retornaram, no século passado, para se educar ou iniciar um aprendizado em Lagos, voltando depois à Bahia, onde tiveram uma certa influência sobre a reafricanização dos cultos, temos que citar dois, cujos nomes ficaram gravados nos anais dos candomblés.
Um dele foi muito digno Martiniano Eliseu de Bonfim, Ajimuda, cujo pai, trazido por volta de 1840 como escravo, comprou a sua alforia em 1850, depois de dez anos de cativeiro e, cinco anos mais tarde, comprou a de sua mulher (1855). Martiniano nasceu livre, por volta de 1859, e acompanhou se pai, ao dezesseis anos (em 1875) a Lagos, onde trabalhou como aprendiz de marceneiro. Seu pai regressou à Bahia e só se reencontraram em 1880, quando este passou dez meses em Lagos. Martiniano voltou à Bahia por volta de 1886, aos 27 anos, sendo recebido de braços abertos nos meios do candomblé. Sua permanência na África tinha-lhe dado muito prestígio e, ele tornou-se rapidamente um Babalaô-adivinho muito procurado. Ele possuía o título de Ojeladê entre aqueles que, na Bahia, cultuavam o espírito dos mortos, os Egunguns. Muito amigo de Aninha, ele a ajudava com seus conselhos e seus conhecimentos sobre a história dos Yorubás, o que levou a criar, no Opô Afonjá, em 1935, os títulos honoríficos de doze Obás Xangô, Reis ou Ministros, concedidos aos amigos e protetores do terreiro. Três dos colaboradores desta obra se orgulham de aí estarem incluídos: Carybé, Obá Otum Onan Xokun, Jorga Amado, Obá Otun Arolu e eu mesmo, Oju Obá.

O rival mais importante de Martiniano Eliseu do Bonfim era Felisberto Américo Sousa, cujo nome foi inglesado para Sowser e cognonimado Benzinho, ironicamente, pois era freqüentemente agressivo. Seu pai africano nasceu por volta de 1833, em Abeokuta. No Brasil, recebeu o nome de Eduardo Américo de Sousa Gomes e com Júlia Maria de Andrade - filha de Rodolfo Martins de Andrade, Bangboxé Obitikô, trazido de Kétu por Marcelina Obatossí - teve Felisberto Benzinho. Eduardo voltou para África onde teve numerosa prole. Felisberto fez o mesmo na Bahia, e suas filhas Irene Sousa dos Santos e Caetana Américo Sowser têm mantido fielmente as tradições trazidas da África. Na geração seguinte, o atual, Ary Sowser tornou-se Pai de Santo de um terreiro na Boca do Rio, muito bem organizado e onde se festeja, com muita pompa, Oxaguian, a quem ele é consagrado

Nem todos os africanos e africanas libertos e seus descendentes, que voltaram à África, retornaram ao Brasil, depois de terem completado seus conhecimentos do ritual do culto dos Orixás. Muitos deles regressaram à África para ali permanecerem em caráter definitivo. Curiosamente, eles regressavam abrasileirados, como fez notar Gilberto Freyre, desafricanizados, aparentemente cristianizados, vestidos à ocidental, construindo casas assobradadas de estilo brasileiro e formando uma sociedade fechada, sem se misturar facilmente com os seus antigos compatriotas africanos. Tinham conservado relações comerciais com a Bahia e faziam freqüentes viagens de uma margem a outra do Atlântico, a bordo de numerosos veleiros que continuavam a navegar entre os dois continentes e que, embora carregassem do Brasil, tabaco em rolo, barris de cachaça e de carne de sol, não transportavam mais escravos, desde 1851, ano em que foi definitivamente abandonado o tráfico negreiro. As mercadorias provenientes da África consistiam em azeite de dendê, obi, orobô, panos da Costa e muitos outros produtos necessários à realização do culto dos deuses Yorubás no Brasil, sem esquecer os condimentos para oferendas, quer de oferendas aos Orixás, quer de quitutes da apimentada culinária da Bahia.

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