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Ossanyin é o deus das plantas medicinais e litúrgicas. A
sua importância é fundamental pois nenhuma cerimônia pode ser feita sem a sua
presença, sendo ele o detentor do Axé - a força, o poder - imprescindível até
mesmo aos próprios deuses.
O nome das plantas, a sua utilização e os encantamentos que seu poder são os
elementos mais secretos do ritual dos cultos aos deuses Yorubás.
O símbolo de Ossanyin é uma haste de ferro tendo ao alto um pássaro de ferro
forjado; esta mesma haste é cercada por seis varetas pontuadas dirigidas em
leque para o alto. O pássaro é a representação do poder de Ossanyin: é o
mensageiro que vai à toda parte, volta e se empoleira sobre a cabeça de Ossanyin
para lhe fazer o seu relato. Este símbolo do pássaro representa o Axé, o poder
bem conhecido das feiticeiras, elas mesmas freqüentemente chamadas Eleyés,
proprietárias do Pássaro-Poder.
Cada divindade tem suas ervas e suas folhas particulares, dotadas de virtudes,
de acordo com a personalidade do deus. Lydia Cabrera publicou uma lenda
interessante, difundida em Cuba, sobre a reparticão das folhas entre as diversas
divindades: "Ossanyin havia recebido de Olodumaré o segredo das ervas. Estas
eram de sua propriedade e ele não as dava a ninguém, até o dia em que Xangô se
queixou à sua mulher, Oyá-Yansã, senhora dos ventos, que somente Ossanyin
conhecia o segredo de cada uma dessas folhas e que os outros deuses estavam no
mundo sem possuir nenhuma planta. Oyá levantou as saias e agitou-as,
impetuosamente.
Um vento violento começou a soprar. Ossayin guardava o segredo das ervas numa
cabaça pendurada num galho de árvore. Quando viu que o vento havia soltado a
cabaça e essa tinha se quebrado ao bater no chão, ele gritou: "Ewé O!! Ewé O!!,
Oh! as folhas! Oh! as folhas!!" mas não pôde impedir que os deuses as pegassem e
as repartissem entre si".
A colheita das folhas deve ser feita com cuidado extremo, sempre em lugar
selvagem, onde as plantas crescem livremente. Aquelas cultivadas nos jardins
devem ser desprezadas, porque Ossanyin vive na floresta, em companhia de Aroni,
um anãozinho, comparável ao Saci-pererê, com uma única perna e, segundo se diz
no Brasil, fumando permanenemente um cachimbo feito de casca de caramujo,enfiada
numa vara oca e cheia de suas folhas favoritas. Por causa desta união com Aroni,
Ossanyin é saudado com a frase seguinte: "Holá!
Proprietário-de-uma-única-perna-que-come-o-proprietário-de-duas-pernas!", alusão
às oferendas de galos e pombos, que possuem duas patas, a Ossanyin-Aroni, que
não tem senão uma perna.
Os curandeiros, quando vão recolher plantas para seus trabalhos, devem fazê-lo
em estado de pureza, abstendo-se em relações sexuais na noite precedendo e indo
à floresta, durante a madrugada, sem dirigir a palavra a ninguém. Além disso,
devem ter cuidado em deixar uma oferenda em dinheiro, no chão, logo que cheguem
ao local da colheita.
Ossanyin está estreitamente ligado a Orunmila, o senhor das adivinhações. Estas
relações, hoje cordiais e de franca colaboração, atravessaram, no passado,
períodos de rivalidade. As lendas refletem as lutas de precedência e de
prestígio entre adivinhos-babalaôs e curandeiros. Como estas histórias são
transmitidas pelos Babalaôs, não é de estranhar que tenham a glorificar mais
Otunmila e os adivinhos babalaôs do que Ossanyin e os curandeiros.
Segundo uma lenda recolhida por Bernard Maupil, "assim que Orunmila nasceu,
pediu um escravo para lavrar seu campo; compraram-lhe um no mercado. Era
Ossanyin. Na hora de começar seu trabalho, Ossanyin percebeu que ia cortar a
erva que curava a febre. E então gritou: "Impossível cortar esta erva, pois é
muito útil'. A segunda, curava dores de cabeça. Recusou-se, também, a
destruí-la. A terceira, suprimia as cólicas. 'Na verdade, disse ele, não posso
arrancar ervas tão necessárias'. Orunmila, tomando conhecimento da conduta de
seu escravo, demonstrou desejo de ver estas ervas, que ele se recusava a cortar
e que tinham grande valor, pois contribuíam para manter o corpo em boa saúde.
Decidiu, então, que Ossanyin ficaria perto dele para explicar-lhe a virtude das
plantas, das folhas e das ervas, mantendo-o sempre ao seu lado na hora das
consultas".
Uma outra história nos dá conta que, se Ossanyin conhece o uso medicinal das
plantas é, entretanto, a Orunmila que cabe o mérito de haver conferido nomes a
estas mesmas plantas. Os poderes de cada planta estão em estreita ligação com o
seu nome, e as palavras de encantamento que são obrigatoriamente pronunciadas,
no momento de seu uso, são indicadas pelos adivinhos aos curandeiros, fato este
que dá aos primeiros uma posição de supremacia sobre os segundos. Isto é dito
pelos Babalaôs, afim de demonstrar que, sem o poder liberador da palavra, as
plantas não poderiam exercer a ação curativa que possuem em estado potencial.
Na África, os curandeiros, chamados Olossanyin, não entram em transe de
possessão. Adquirem a ciência do uso das plantas após uma longa aprendizagem.
No Brasil, as pessoas dedicadas a Ossanyin usam colares verde e branco. Sábado é
o dia que lhe á consagrado e as oferendas que lhe são feitas compõem-se de
bodes, galos e pombos. Seus Iaôs, ao contrário daqueles da África, entram em
transe mas, nem sempre, possuem conhecimentos profundos sobre as virtudes das
plantas. Quando eles dançam, trazem não mão o mesmo símbolo de ferro forjado,
cuja descrição foi feita anteriormente. O ritmo dos cantos e das danças de
Ossanyin é particularmente rápido, saltitante e ofegante. Saúda-se o deus das
folhas e das ervas gritando-se: "Ewe O!" "Oh! as folhas!"
O arquétipo de Ossanyin é o das pessoas de caráter equilibrado, capazes de
controlar seus sentimentos e emoções. Daqueles que não deixam suas simpatias e
antipatias intervir nas suas decisões ou influenciar as suas opiniões sobre as
pessoas e os acontecimentos.
É o arquétipo das pessoas cuja extraordinária reserva de energia criadora e
resistência passiva, ajuda-as a atingir os objetivos que se fixaram. Das pessoas
que não tem uma concepção estreita e um sentido convencional da moral e da
justiça. Enfim, daquelas pessoas cujos julgamentos sobre os homens e as coisas
são menos fundados sobre as noções do bem e do mal do que sobre a da eficiência.
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