Afastados de outras casas, no meio de sitios ou cercados, em arrabaldes de grande densidade de população pobre, eram apontado

 

 

Xangô do nordeste

 

 

                    Autor Gonçalves Fernandes 

Afastados de outras casas, no meio de sítios ou cercados, em arrabaldes de grande densidade de população pobre, eram  apontados os Xangôs no Recife como centro de bruxaria. Dessas casas modestas de taipa dos negros a imaginação dos moradores mais próximos fazia séde de praticas demoníacas

O batuque noturno dos toques indentificava o Xangô. Uma grande maioria da vizinhada só chegava mesmo a conhecer o batuque escutado de longe. Não se tinha idea, exceção de poucas pessoas, no sentido religioso dos toques. Repórter e gente da policia, esses sabiam um pouco mais. Batidas policiais, noite alta, levadas pelo batuque, traziam vez por outra para a publicidade noticia do terreiro surpreendido.

 A repressão policial dificultava qualquer tentativa de contacto com a vida intima dos terreiros,  nome que os negros dão aos seus templos. Só mesmo os iniciados tinham acesso às cerimônias do culto.

O noticiário dos fatos diversos era muito pouco como contribuição: as reportagens não chegavam a alcançar os terreiros em ação. Uma tentativa nesse sentido foi levada a um termo feliz pelo Serviço de Higiene Mental da Assistência a Pscopatas, à frente o prof. Ulisses Pernambucano.

O relatório do dr. Pedro Cavalcanti, que transcrevo, marca o inicio das pesquizas do S.H.M. estudando a questão das seitas afro-pernanbucanas:

 

A BAIANA DO PINA

 

            “Visitei hoje a seita africana da “baiana do Pina”. Esta seita não é registrada na Secretaria da Segurança Publica. Chama-se D. Fortunata Maria da Conceição a sua presidente. Recebeu-me desconfiada, porem sabedora das minhas intenções não se fez de rogada para me prestar interessantes declarações. E’ ela natural da Costa d’Africa, estando já há muitos anos no Brasil, tendo residido no Rio (morro da Favela), na Baía (Largo do Sapateiro), em Maceió, e emfim no Recife, no Pina.Diz ter 110 anos de idade. È de nação Nagô e adora Sta. Bárbara. No seu terreiro há toques todos os sábados e domingos. Foi a inciadora de mais dois terreiro aqui no Recife: o do finado Gentil, no Totó, e o do seu Filho José Gomes da Silva (Néri) no Jacaré. Tem em sua casa (que pé muitíssimo enfeitada com bandeirinhas de papel de cor) três grandes oratórios com cerca de 15 imagens de santos catolicos, algumas delas grandes. A “baiana” informou-me não ter nenhuma imagem trazida da costa. Prontificou-se a fazer comigo uma revisão na palavras africanas que o Serviço conseguiu com pai Anselmo, pois descofia que deve haver coisa errada. 1-9-1932 (as.) Pedro Cavalcanti. Auxiliar- técnico”.

 

 

 

 

ECLETISMO RELIGIOSO – A PRESSÃO

DA POLICIA – MARACATÚS E CENTROS

ESPIRITAS – PRATICAS MAGICAS

 

 

 

            Não se encontra no Recife um só culto negro-fetichista puro. As diversas modificações sofridas através do tempo, inciando-se com transferência na adoração dos “encantados da Costa” em imagens de santos católicos, maneira de concilar a imposição do senhor com os sentimentos de veneração do escravo africano aos seus deuses, trouxeram o enlaçamento com a religião do branco. A esse ecletismo religioso juntou-se a influência espírita.

Da pressão da policia resultou camouflarem de sociedade carnavalesca e centro espírita os terreiro afro-pernanbucanos. Maracatu e Centro Espírita aparecem de tal maneira que fez desconfiar.  O “Diário da Tarde” de 1º de Setembro de 1933 noticiava:

 

 

“AFOGADOS, REFUGIO DOS MACUMBEIROS AFRICANOS. A POLICIA DISSOLVE DOIS NUCLEOS DE BRUXARIA ALI EXISTENTES. “PAI NOBERTO” NOVAMENTE EXPERIMENTA O AGRADVEL CONFORTO DE UM XADREZ.

 

            A secção de policia de costumes vem movendo ultimamaente severa repressção aos núcleos de macumba e feitiçaria africana que ainda existe esparsos pelos subúrbios.

            Ciente de que Afogados estava  infestado desses centros de bruxaria o sr. Edson Moury Fernandes, ajudante daquela secção, acompanhado do investigador Pedro Monteiro, dirigiu-se hontem a noite áquele arrabalde disposto as dar uma batida em ordem. Sob o protesto de que se tratava de casas de maracatu os macumbeiros vinham ali exercendo grande atividade, reunindo grande numero de adeptos. O primeiro núcleo de catimbó visado pela policia foi o “maracatu Estrela Baiana”, situado á rua da S. Mangueira em Afogados. Aí os macumbeiro foram surpreendidos em flagrante por aqueles policias. Uma mulata pernóstica de nome Otavia Josefina da Silva era a presidente da função. O mestre era o individuo José Eudet, vulgo Dé, a quem os macumbeiros atribuíam qualidades sobrenaturais...

Foram apreendidas pela polcia varias garrafas de azeite de dendê, moedas de cobre que se achavam de areia. Debaixo de uma garrafa sobre a qual se achava equilibrado um prato com restos de comida, esta um bilhete assinado por uma Pedro da Silva, que pedia ao mestre Dé para atrazar um individuo que perseguia sua família. Foram também encotradas três facas de ´pmta enferrujadas, metidas nas repspectivas bainhas. Supões-se que isto significa crimes que não foram descobertos e que precisam ficar encobertos pelo poder oculto do mestre Dé. Todos os macumbeiros foram presos e recolhidos ao xadrex da Segurança Publica.

Após essa batida aqueles policiais se dirigiram ao Centro Africano de Noberto Costa, conhecido por Pai Noberto, em Miramar. O aludito africano de há muito que organizou naquela localidade um núcleo de bruxaria com um freqüência numerosa de clientes. No salão principal de sua casa que é obra de capim, está instalado um altar adeante do qual os macumbeiros professam a sua misteriosa e sinistra liturgia. Separam casais, perseguem inimigos, desmacham casamentos, praticam emfim toda uma serie interminável de coisas espantosas, apavorantes...

Ao som de toadas africanas, em hora de S. Budun, os macubeiros sacrifiam carneiros, porcos,  bodes, galinhas e outros animais domésticos.

            Aí a policia apreendeu vários apetrechos, coriscos untados de azeite, bonecos, rosários, ossos de animais, etc.

            Pai Noberto foi preso há mezes pela polcia desta capital por ter deshonrado uma moça a quem seduzira prometendo fazer um “trabalho” para ela ser feliz. Todos os catimbozeiros desse Centro inclusive Pai Noberto foram presos também e recolhidos ao xadrex da Segurança Publica.

 

 

Ainda do “Diário da Tarde”, da sua edição de 12 de Abril de 1934 recortei a noticia:

 

O CENTRO ESPIRITA CARIDADE E AMOR EM JESUS CRISTO TRANSFORMADO EM SÉDE DE “MACUMBAS” DESENFREADAS EDELIRANTES – AS EXTRANHAS RECEITAS DOS “ESPIRITOS”. ETC.

 

 

            A secção de Costumes e Repressão a Jogos inicou há algum tempo, como é sabido, intenso seviço de repressão aos macumbeiros que infestam alguns pontos afastados da cidade. As primeiras deligencias policiais foram coroadas de êxito  o mais completo e o “Brasil Novo”, durante dias consecutivos acolheu e abrigou uma extranha fauna humana composta de fanticos e exploradores encontrados pelos investigadores a render seu culto misterioso Ogum...

            Meses depois o capitão Jurandyr Mamede, então secretario da Segurança Publica, solicitou a cooperação da Assistência a Psicopatas afim de que a repressão pudesse torna-se mais eficiente, separando-se os desequilibrados mentais daqueles que fossem simplesmente e conscientemente exploradores do  primaresmo e da ignorância dos fanáticos.

            Alarmados ante a vigilância da policia de costumes, os catimbozeiros retraíram-se, passando a organizer com mais cautela as sedes de suas reuniões e a disfarçar convenientemente, quase sempre, sob o rotulo de sociedades espíritas os verdadeiros fins que têm em vista. Os “centros espíritas” funcionava livremente desde que se munam de uma autorização policial. Aproveitando-se dessa circunstancia os fies de Exu passaram a ser “espíritas” e o que dantes funcionava logares deserto de longínquos arrabaldes, passou a ser feito até em pleno coração da cidade. Ainda não há muito, casualmente, foi descoberta uma dessas sociedades espíritas clandestinas, cujos freqüentadores eram a fina flor do “bas-fonds” da cidade...

Um novo centro que surge – O “Centro Espírita Caridade e Amor em Jesus Cristo” surgiu há cerca de uma semana numa viela recuada e tranqüila de Dois Irmãos. Tranqüila, é de ver durante o dia. Porque durante a noite o sono e o repouso eram afastados dali a ponta-pés pela dansa dos espíritos do tal “centro” e pela algazarra constante, initerrupta, dos fieis. Aquilo intrigava os visinhos. Nunca se haviam visto espíritos mais barulhentos do que aqueles. Barulhentos e extranhos: berravam de maneira infernal durante horas seguidas, cantavam embolada e “cocos” que nada tinham, na verdade, de espirituais e sambavam a noite inteira num sarapateio de ensurdecer. Aquilo intrigava os visinhos que nada viam, é claro, mas que tinham forçosamente de ouvir aquilo tudo, até alta madrugada, a menos que preferissem desertar de casa e procurar repouso, que ali lhes era vedado, em logares distantes.

            Uma queixa á policia – Ante-hontem, porem, um deles esgotou a paciência e procurou a policia. Fez-se aí uma narrativa angustiosa e comovente das suas torturas. Ninguém mais do que ele respeitava espíritos. Tanto que como bom cristão que se orgulhava de ser resava em intenção deles todas as noites, etc.

Mas é que os “espíritos” freqüentadores do tal centro eram positivamente diferentes de todos os espíritos. Sabistas impenitentes e cantadores incaqnsaveis, expulsavam de vários quilômetros em torno o socego e o repouso.

            No centro Espírita Caridade e Amor em Jesus Cristo. – Hontem, quarta feira, seria dia de função segundo o deninciante. Uma turma de investigadores da  Secção de Costumes, cerca das 24 horas, encaminhou-se para o “Centro, etc. Ainda a uma certa distancia perceberam os policiais os sons das cantigas e o ritmo compassado dos pés batendo em cadencia no solo. Já nas proximidades da casa – um mucambo de miserável aparência – verificaram que a taboleta afixada á porta de entrada – “Centro Espirita Caridade e Amor em Jesus Cristo” – era como de costume pura e simples tapeação. Assim o provaram o batuque monótono de tambores e as toadas africanas – preces e invocações a Ogum – que, vezes lentamente, vezes agitada, num delírio de turba enfurecida, subiam para o céo, entoadas em conjunto por dezenas de bocas. O espetáculo que minutos após se lhes deparou vieo difinitivamente comprova-lo. Era o habitual espetáculo que oferecem as macumbas. Reunidos numa sala estreita e abafada, onde se repirtavam emanações de álcool e catinga de corpos suados, cerca de trinta pessoas, homens, mulheres, crianças, sapateavam em torno a uma pequena fogueira no centro do salão. Á entrada inopinada dos policais sucederam-se momentos de pânico e estupefação. Detidos todos os presentes, iniciou-se a busca pelo mucambo: dentes de lebre, pés de veado, velas de parafina, cabelos e uma infinidade de bugigangas semelhante, foi resultado da colheita. Dentro de uma caixa de papelão foi encontrada grande quantidade de papeis, na sua maioria cartas de clientes  soliciatando a receita dos “espíritos”. Entre eles, também prospectos de propaganda, em forma de conselhos médicos e sugestões dos “espíritos”  á Humanidade...”

            Pai Noberto pratica “despachos” como outros babalorixás. Almeida por exemplo, de quem falo noutro capitulo, foi apanhado em pleno exercício da mágica: a policia encontrou no seu Pegí p retratp de um rapaz de família importante do Recife, embebido em sangue, amarrado em fitas, cartas do mesmo jovem submetidas a processo semelhante. Tratava-se de realisar um “pacto de sangue” para resolver um caso amoroso...

            Na lista que me foi fornecida pelo babalorixá Anselmo, pessoa de muito bons costumes, Noberto e Almeida estão entre os “que não tem competência”.

 

 

ONDE ESTÃO LOCALISADOS OS TERREIROS – CONVITE PARA OS TOQUES

 

            De algum tempo para cá a grande maioria das seitas afro-pernambucanas são registradas no Serviço de Higiene Mental, que é avisado com antecedência dos sés toques, seus técnicos recebidos com grande cortezia nos terreiros.

            Assim estão localisados os principais terreiros do Recife:

 

Seita Africana Santa Bárbara – rua da Mangeira 137, Campo Grande (Mãi do terreiro:        Maria da Dores).

 

Seita Africana Santa Bárbara – rua do Progresso 13, Água Fria (Pai do terreiro: mauel ANSELMO Rei Hipólito).

           

Seitas Africana São Jorge – rua do Totó 6, Tejipió. (Pai do terreiro: Lucio Alves Feitosa).

 

Seita Africana Saão João – rua da Regenaração 1045, Água Fria. (Pai do terreiro: Artur ROSENDO Ferreira).

 

Seita Africana Cosme e Damião – rua Francisco Berenger 147, Encruzilhada (Pai do terreiro: APOLINARIO Gomes da Mota.

 

Seita Africana São Sebastião – rua Serena 660, Campo Grande. (Pai do terreiro: OSCAR  de Almeida).

 

Seita Africana da Rua do Mangerico, Água Fria. (Pai do terreiro: João NEPOMUCENO Sampaio).

 

Seita Africana Santa Bárbara – rua José Maria 20, Encruzilhada. (Pai do terreiro: José Gomes da Silva, vulgo NERI).

 

Seita Africana Santo Antonio – rua do Craveiro, Fundão (Mãi do terreiro: Maira CELINA).

 

Seita Africana Santa Bárbara – rua das Moças 406, Arruda. (Mãi do terreiro: Josefa Guedes Pereira, vulgo ZEZEFINHA).

 

Seita Africana Navegante – rua da Mangava 265, Campo Alegre. ( Pai do terreiro: Severino Bezerra).

 

Seita Africana Senhor do Bomfim – rua da Mangueira 137, Campo Grande. (Mãi do terreiro: Maria das Dores Silva).

 

Seita Africana Ôbaoumin – Estrada Velha 686, Chapéo de Sol. (Pai do terreiro: ADÃO).

 

Seita Africana Senhora Sant’Ana – rua 13 de Julho 135. (Mãi do terreiro: Joana Batista, vulgo JOANA BÓDE).

 

Seita Africana Obaruidá – rua do Cipó 21, Campo Grande. (Pai do terreiro: José Costa, vulgo NOBERTO).

 

Seita Africana São Jerônimo – rua da Mangabeira s/n., Mangueira. (Pai do terreiro: José Caludio de ALMEIDA).

 

            Ocupam, como se vê ruas afastadas de arrabaldes distantes do centro da cidade, sendo que na zona correspondente ás estradas de Beribe e Campo Grande se encontram em sua grande maioria esses terreiros, alguns de difícil acesso aos que não conhecerem bem a topografia da região.

            Vale como documento transcrever alguns dos convites recebidos pela direção do S.H.M. dos babalorixás que dirigem os cultos, para assistir  aos seus toques:

 

            “Illmo. Senr. Dor. Ulyse. Saúde. Felicidade, é que lhe desejo. Faço estas duas linhas participando a V. sara. Que amanhã vou fazer a festa de changou e como disse a V. sra. em casas do  senr. Oscar, e fiz o convite o sr. me disse que um dia ou dois antes mandasse lembrar, por isso escrevo a V. as., doutor Pedro Cavalcante doutro Gilberto eas Exmas. Famílias. Fico esperando a chegada da V.S. Nada mais, do criado Obr. Endereço Rua da Mangaba nº 265, Campo Alegre (ª) Sivirino Beserra”.

 

            “Recife,15 de Setembro de 1933. Ilmo. Snr. Dr. Ulysses Pernambucano. Mui digno Dierertor  do Azilo di alienado da Tamarineira, comunico-lhe a V.S. e os seus amigos que eu tenho de fazer os toques do meu terreiro nos dias 16 a 21 do corrente di comformidade com a ceita Africana, venho por meio desta convidar a V.As. e os seus amigos para comparicer ao toque nos referidos dias 16 a 21. no mais só com a nossa vista do seu cr.º Obr. (a.) Manoel Anselmo de França.”

 

            “Illmo Sr. Dr. Ulysses Pernambucano. Saudações. Levo ao vosso conhecimento que estamo no próximo domingo 17 do corrente as 16 horas a disposição de Vsa. Sia. Causo seja lembrado, faço votos para que não seka esquecido este convite. N.B. a hora do Toque é as 16 terminando as 20 horas em ponto. Do Cdo. E Odo. (a.) Adão”.

 

            “Illmo. Sr, Dr. Ulisses Pernambucano. Venho por meio desta comunicar ao Dr. Que tendo de ralisar hoje um toque em meu terreiro, com alta consideração convido o Dr. e a família afim de assistir ao referido toque. Sem mais as ordens. Do Cdo. E Odo. (a.) Artur Rozendo Pereira”.

           

            “Desejo que estas linhas vá encontral-o gosando perfeita saude, juntamente com todos que lhe são caros. De. Tendo de realisar nos dias 23, 24  e 25 do corrente mez, em nossa séde a rua do Sipó n.º 21, em Campo Grande uma festinha de nossa Seita Africana e como sendo meu dever comunicar a V. As. Segundo me pediu para lhe avisar com antecedncia, quando tivesse de realisar qualquer festa venho pelo presente convidar a V. As. Para que com vossa presença haja melhor realce na referida festa. Do criado humilde (a.) José Antonio da Rocha, Campo Grande, 22 de Dezembro de 1933”

 

            “Recife 11 de 5 de 1934. Saudações Dr. Olicio. Participo que toco amanhã 12 do corrente principio as 10 horas e convido-lhe para vir apricial o nosso toque. Do criado (a.) Artur Rozendo Pereira”.

 

 

REGULAMENTO DAS SEITAS E ALGUMAS TOADAS

 

 

            Como formalidade, a polica exige para os centros espíritas e seitas africanas a apresentação dos seus regulamentos, documento essencial para a concessão da licença de livre funcionamento. Os regulamentos dos cultos negro-fetichistas do Recife são duma maneira geral copia ou decalque do que transcrevo linhas abaixo, seguindo-se-lhe três que fogem desse tipo mais ou menos estandardizado:

 

“ESTATUTO DA SEITA AFRICANA EM ADORAÇÃO A SANTA BARBARA SITUADA A RUA FRANCISCO BERENGER N.º 147, LOGAR ENCRUZILHADA.

 

 

 

            Apolinario Gomes da Mota, Babalorixá da referida seita em adoração aos encantados da Costa da Africa com os seus regulamentos seguintes:

            Temos que oferecer os nossos sacrifícios a todos os encantados da Costa da Africa de conformidade com as ordens e repeito, conforme o rito da seita.

            Temos que foncionar as festas depois dos sacrificos oferecidos a todos os babatumael.

            Não poderão os filhos dos santos ir dansar sem que primeiro não cumpram com os seus deveres.

            Ir ao Pegí fazer o seu adobalê aos pés dos santos aos pés do seu babalorixá, aos pés de sua inan e sua mãi pequena e ao Ogan

            Não poderam os filhos de santo tomarem bebidas alcoólicas nem fumarem na ocasião das festas.

            Os filhos de santo na ocasião das manifestações terão o direito a um iabá como a uma toalha para enchgar todos aqueles que estiverem manifestados tendo o cuidado para não deixar nem um cair, estas responsabilidades caberão a mãi pequena e a toadas as ilais”.

 

“SEITA AFRICANA SENHORA SANTANA. PRESIDENTE JOANAS BATISTA.

 

            As darás que se fazer festejos aos antos africanos são estas: 24 de dezembro Natal,  1 de Janeiro Anos, 20 de Janeiro, 1 de abril, 24 de Junho, 26 de de Julho, 24 de agosto, 27 de setembro e 8 de dezembro.

            Também os filhos de santo tem obrigação quando chegar as datas de seus aniversários festejar na ocasião que estamos tocando, tem por obrigação aziabarta com as toalhas enchgando os tocadores tem por obrigação também quando chegar um espírito azabar enchugando eles. Por causa de qualquer um filho de santo queira ir em qualquer terreiro tem que participar ao seu Pai de Santo ou Mãi de Santo. São esta esplicação desta irmandade. São estas. 8 de 3 de 1934”.

            “Fortunata Mria da Conceição, sua criada oiou, com suas toadas e seus regulamentos:

            Xangô – este é o oficio de Aloés em ligua Africana:

 

            Oumicáérú zaquí caraginé aracutan ati tu padê só lon-nan ebôsiórominhá a leudes é Ounicá é biarocou

 

            Yemanjá: (N. Sra. da Conceição)

            Emidelodiy aba ou miou

            Edemó seo a oruu mibi

 

            Oxum – (N. Sra. dos Prazeres)

            Babiou e mascum sim barrura

            Lisubisú e imbalirar

 

            Oiá – (Sta. Bárbara na língua da Costa)

            Edé i ariou Oiá

            Miçan escagalê

           

            Abaluaê – (S. Sebastião)

            Ênu pin-nan pelo jó

            Abaluaê tala fo maré

 

            Ogum – (S. Paulo)

            Ogum dê Xangô

            Dê ralanquê in negô

 

            Oxaguiam – (O Pai Eterno)

            Oxuguiam pelo amou nigi

            Agou agou a lá

            Ou du du a pele amou nigi

            Agou agou a lá

 

            (a.)  Fortunata Maria da Conceição, sua criada oiou. Dias das orações são os sábados, domingos e feirados e dias santos. Regulamento de Xangô: não usar chpéo, não fumar e respeitar a moral”.

 

            “No terreiro de Eloy, dedicado a Sta. Bárbara assim estão ordenados os preceitos: dias para toques 13 de Maio, 13 de Junho, 13 de Janeiro, 29 de Junho, 26 de Junho.

            O pai de santo trata-se por babalorixá, a mãi de santo por Ialourixá. Na hora do toque todos os de santo tomam a benção faz o seu adobalê, vai aos pés de Mãi de Santo faz o adobalê tomam a venção aos pés da Mãi pequena.

 

            As toadas do principio do toque:

 

            Paoabahou

            Abaumutibá

            He bagé camadê choilê

            Helebá cilú

 

           

            Os filhos de santo na hora do toque não bebem enm fumam. A seguir salvam o segundo orixá Ogum, traduzido para o portuguez é S.  Jorge. Em terceiro logar salva-se Odé, na língua portugueza chamamos S. Miguel. Em quarto Xangô na ligua portuguez é Sto. Antonio. Em quinto logar Yemanjá na língua portugueza chamamos nossa Sr. da Conceição. Em sexto Abaluché na língua portugueza é S. Sebastião. Em sétimo Nana-burucu na língua portugueza conhecemos por Santa Bárbara. Em oitavo nossa senhora dos Prazeres ou Euloia. Em nono Oxim Maré, no portuguez São Cosme e São Damião. Em décimo Orixalá, no portuguez Sant’Ana. Os instrumentos que tocam nos dias de festa chama0se Teu. O pai de santo a.) Eloy Barbosa da Silva”.

 

 

SEITA AFICANA SANTA BARBARA. – FUNDADA EM 21 DE AGOSTO DE 1931.

 

 

            Compromisso para os filhos: Art.º 1.º - Para ser filho desta seita é preciso:§ 1.º - Estar em pleno goso social. § 2.º - Não ter nodoa que desabone sua conduta moral e social e não sofrer moléstias contagiosas. § 3.º - Combinar com seus superiores, Paes, Maridos e etc.

            Art.º 2.º - Ser proposto por um filho da seita ou em reunião julgado pelo demais filhos. § 1.º O Orsé da sexta-feira é obrigado para todos os filhos; os que faltarem sem motivo justificado são multados em R$ 500 réis, cuja a multa não há perdão, sem excepção. § 2.º - Nas mesmas condições os que faltarem as obrigações  e os toques. § 3.º - É dever dos filhos serem unidos repsitar uns aos outros, terem ordem quer em dias de obrigações, diversas e nos dias demais.

            Art.º 3.º - É dever dos filhos fazerem odubalé nos pés de seu Babalorixá e Ialorixá, e dar Baxuxú aos irmãos mais velhos quando chegarem e na ocasião de dansar. § 1.º - Ajudar a cantar  e estar sempre em atividade, junto com a mãi pequena. § 2.º - Comprar seus trajes de acordo com as cores do seu anjo de guarda.§ 3.º - Não fumar no salão quando estiver em obrigações, ou diversões e evitar bebidadas alcoólicas.

            Art.º 4º - Os filhos desta seita não poderão compartilhar em outra, quer em obrigações ou diversões a não ser com autorisação do seu superior. § 1.º - Os que não cumprirem, serão punidos. § 2.º - É dever dos filhos serem constantes na seita, com especialidade nos dias de Quinta, Sexta, Sábado e Domingo, e os demais dias que for necessário. § 3.º - Trazerem suas quotas marcadas, pagarem suas multas quando cahirem em falta, trazerem velas, arroz e o necessário para os seus anjos de guarda.

            Art.º 5.º - As datas commemoradas por esta seita 1 e 20 de Janeiro, 1, 6, 13, 3 24 de Junho, último Domingo de Julho, 27 3 30 de Setembro, 21 e 24 de Agosto, de 4 a 25 de dezembro, 23 de Abril, 19 de Março e o mês de Maio, e os demais são extraordinairos.

            Art.º 6º - Os filhos desta seita têm que terem paciência com todos, tratar bem e com bons modos os crentes, evitar com delicadeza os abusos dos apreciadores. § 1.º - terem crença, fé e gsoto com os encantos, cumprirem os preceitos da lei. § 2.º - Trajarem branco nos dias de sexta-feira, não comerem carne, e não adulterar da quinta-feira para sexta, e nem nos dias de obrigações. § 3.º - Os filhos, e filhas que desrepeitarem os artº e parágrafos destes compromissos serão punidos de acordo com as suas faltas.

            Art.º 7.º - É dever dos filhos e filhas, respeitar, e fazer respeitar as salvações de Eamesan, Xangou, Orixalá, Obaluaê, sendo  que no do anjo de guarda do Paes, e de Eamesan, cumpre o que manda o Art.º 3.º.

            (Ass.) José Gomes da Silva, BABALOURIXA. Celina Anunciada da Silva, IALOURIXA. Alzira Francisca Mendes, MÃE PEQUENA. José Viera Passos, TACIPA.

 

 

REGULAMENTAÇÃO DOS “TOQUES”

 

 

            O abuso com que certos pais de terreiro “sem competência” repetiam os seus toques (o que o babalorixá Adão reclamava a todo o passo ao pessoal do Serviço de Higiene Mental e aos seus íntimos) fez despertar um rumor que chegou aos corredores da Segurança Publica. No dia 21 de Julho de 1935 noticiava o “Diário de Pernambuco”.

 

“VAI SER RESTRINGIDA A LICENÇA PARA OS TOQUES NOS XANGÔS. A POLICIA BAIXARÁ UMA PORTARIA A RESPEITO.

 

 

            A secretaria da Segurança Publica condedeu há tempos licença a varios xangÔs do Recife para realizarem toques nos seus terreiros.

            As  reuniões dos negros efetuavam-se quais todos os sábados e constituam até certo ponto centros freqüentados por curiosos e estudiosos das religiões africanas.

            Verificados os toques em pontos relativamente distantes da cidade, supunha-se que não incomodassem a niguém.

            A policia licenciaria as reuniões em face de pareceres emitidos pelo Serviço de Higiene Mental da Assistência a Psicopatas, tornado-se assim legal atos que, proibidos, eram realisados ás escondidas dando logar ás vezes a abusos.

            Agora, no entanto, a Comissão de Censura das Casas de Diversões Publicas vae se dirigir ao Secritario da Segurança Publica solicitando providencias no sentido de ser baixada uma portaria na qual fiquem designados os únicos dias em que se poderão realisar os toques.

            Estes serão em numero de dezoito anualmente, assim destribuidos, atendendo-se á tradição das festas que lhe dão margem:

            Festa dos Rei Magos: 5, 6 e 7 de Janeiro;

            Festa de São João: 23, 24 3 25 de Junho;

            Festa de Nossa Senhora de Sant’Ana: 27, 28 e 29 de Dezembro;

            Festa do nascimento de Cristo: 24, 25 3 26 de Dezembro”.

           

            O Serviço de Hiegiene Mental informou-se que essa sugestão partira do babalorixá Anselmo, encontrando na Comissão de Censura ambiente favoral. Foi mesmo Anselmo, o babalorixá de Água Fria, que intendeu de fazer padrão para os toques o seu calendário religioso.

            Veja-se o sincretismo católico nessa distribuição de festas, que foi muito mal recebida pelos pais de santo da cidade. O próprio babalorixá Adão foi até o S.H.M. onde formulou um protesto veemente.

            Essa regulamentação mexeu tanto com os cultos afro-pernambucanos que o “Diaro de Pernambuco” na sua edição de 23 do mesmo mês publicava:

 

“EM TORNO DA RESTRIÇÃO DOS DIAS PARA OS “TOQUES” NOS “XANGÔS”.

 

 

            Declarações do professor Ulysses Pernambucano á nossa reportagem – O que dizem ao Diário de Pernambuco os “babalorixás” Oscar e Anselmo.

            Pleiteado pelo Serviço de Higiene Mental da Assistência a Psicopatas de Pernambuco, foi concedido aos “xangôs” licença policial para funcionarem com plena liberdade. A medida foi recebida com simpatia pelos babalorixás que se viram assim livres de perseguição policial para os seus toques, podendo cumprir o seu rito dentro da melhor ordem.

            Os xangôs, por outro lado, são pontos de atração para os estudiosos do afro-brasileiro, nos seus característicos científicos, através o seu culto religioso, suas dansas e sua musica.

            As licenças aos xangôs são concediadas pela policia com parecer do Serviço de Higiene Mental, tornando-se assim perfeitamente legal.

            Agora resolveu a Comissão de Censura das Casa de dirvesões Publicas dirigir-se ao secretario da Segurança Publica no sentido de restringir os dias de “toques” nos xangôs”. Conforme o Diario de Pernambuco publicou ante-hontem, serão restringidos a 18 os “toques”.

            A respeito procuramos ouvir o professor Ulysses Pernambucano, diretor geral da Assistência a Psicopatas. Além da autoridade que lhe dá esse cargo. O prof. Ulysses Pernambucano foi o autor da inicativa concedendo licença aos “xangôs” afim de evitar a perseguição policial,e, no ano passado dirigiu o 1º Congresso Afro-brasileiro, reunido no Recife.

 

 

O QUE CABE AO SERVIÇO DE HIGIENE MENTAL

 

            Disse-nos o Prof. Ulysses Pernambucano:

            - “O serviço de Higiene Mental não está ligado diretamente a essa parte policial dos “xangôs”. Coube-lhe pleitear e obter liberdade para as reuniões dos “xangôs”, sem perseguição da policia, como acontecia antigamente.

            Quanto á parte que nos cabe, não temos em absoluto nos desinteressado. Ainda este ano obtive do governo do Estado a dispensa do pagamento da taxa das licença para os “toques”. Como esta medida notidiada não afeta ao nosso serviço junto aos “xangôs” nada temos que dizer sobre ela.

 

 

DE ACORDO COM OS BABALORIXÁS

 

            - “O que parece – acrescenta o prof. Pernambucano – é que a medida agora tomada pela policial está de acordo com os “babalorixás”. Posso mesmo adeantar que foi o babalorixá Anselmo quem apresentou a lista dos dias para os “toques”.

            Antes da divulgação da medida fui procurado por Anselmo para me manifestar sobre ela, não me manifestando, porem, por não se prender a mesma ao Serviço que dirijo.

            Acho, portanto, que não estão queixosos da medida policial que, decerto, vae evitar muito abuso”.

 

 

 

 

“EU PROTESTO CONTRA A MEDIDA” – DECLARA-NOS O “BABALORIXÁ” OSACAR

 

           

            Á noite nossa reportagem ouviu um dos “Babalorixás” do recife – Oscar de Almeida. É “babalorixá” do Centro Africano Santo Sebatião, de culto nagô. Oscar estava acompanhado de José Tavares, “Pai pequeno” do seu terreiro.

            - “Eu protesto contra a medida. Nem posso ceder a ela porque a data princiapl do meu terreiro, 20 de janeiro, foi cortada. Também foram cortadas as de 26 de janeiro, 5 de outubro, e 4 de dezembro, dias que não podemos deixar de festejar.

            Por isso não posso me subemeter á medida da policia”.

 

 

 

NÃO FOI OUVIDO

 

 

            - “Vim a saber do que havia por um “filho de santo” que me mostrou a notica.

            Não fui ouvido a respeito.

            Temos no terreiro 28 toques por ano e como vamos ficar reduzidos a 18? Principalmente as nossas datas principais foram esquecidas.

            Não posso deixar de festejar o 26 de janeiro que é a “deixa de meu pai”. Essa data vem sendo festejada desde meu avô que deixou para meu pai  e meu pai deixou para mim.

            Se a medida foi feita de acordo com Anselmo, como me disse dr. Ulysses, ele não consultou os outros babalorixá.

            Eu acho que ele não ouviu também o babalorixá Rosendo. Se fomos nós três que fizemos o Congresso Afro-brasileiro, essas medidas que nos interessam deviam ser consultadas a nós. ~e não fazer assim”.

            Oscar fala-nos ainda do seu terreiro e nos convida para assistir um “toque”.

 

 

 

 

O QUE NOS DIZ O “BABALORIXÁ” ANSELMO

 

 

            Ouvimos ainda o “babalorixá” Anselmo de culto nagô também. Anselmo, que foi umn dos organisadores do congresso afro-brasileiro, nos diz sobre a medida:

            - “O  que a policia fez agora foi uma medida boa. Dei a lista dos dias que devem festejar para evitar abusos.

            Outro dia fui forçado a botar para fora um “filho de terreiro”. E  ele achou de abrir outro terreiro.

            Estão abusando muito por aí. Mulheres e homens  e até casas suspeitas se fazer de terreiro.

            Mas se trata de uma coisa seria, de uma religião que não pode se deturpada.

            E’ preciso acabar com os abusos. A medida é boa, por isso,  e assim não me neguei a indicar os dias para os “toques”.

            O babalorixá Adão que nunca ligou a “pai de terreiro” nenhum daqui, e sempre dizia que eles não tinham conhecimento para tal, falou que coibir abusos era muito bom, mas dar voto lá no seu terreiro era que não podia ser. Lembrou que se fixasse em 18 o numero Maximo de toques anuais, ficando quem quizesse com o direito de reuni-los quando fosse a vez. E assim se entenderam.

            Os “pais de santo” “sem competência”, estes ficaram mais ás vistas. A “ialorixá” da Rua das Moças, Josefa Guedes, não tardou em ter cassada a sua licença de livre funcionamento para o terreiro. Isso, todavia, não lhe abalou muito a vida: apenas suas reuniões ficaram raras e tinham começo muito tarde.

 

 

O SENTIMENTO DE RIVALIDADE ENTRE OS TERREIROS

 

 

Existe uma grande rivalidade entre o terreiros. Filhos de um terreiro não dansa com outro pai. Alguns, os que tocam os adufos, são ás vezes solicitados para terreiro da mesma nação e uma espécie de aliança permite licença. Já se verificaram conflitos entre filhos de santo de terreiros de santo de terreiros diferentes, alguns até com o fim de impedir um toque.

A intriga não raro é posta em pratica para colocar mal pais de terreiro entre os técnicos do S.H.M (3) que gosam de certo prestigio entre os babalorixás. Esse prestigio que vem da iniciativa do prof. Ulysses Pernambucano tomando a cargo do S.H.M a fiscalisação que era exercida pela policia, e se fixou com o 1.º Congresso afro-brasileiro, animado pelo escritor Gilberto Freyre, tem valido o que nunca se poderia conseguir de outra maneira e que se ia perdendo tempo fora.

 

 

Capitilo 2

 

OUVINDO OS BABALORIXÁS

 

 

 

 

O BABALORIXÁ, A IALORIXÁ E O OGAN – O TERREIRO – A INICIAÇÃO DO AFILHADO

 

 

            Os babalorixás, sacerdotes, pais de terreiro ou pais de santo, filhos ou netos de africano na sua maioria, outros crioulos e até pardos como Néri, são os dirigentes do culto. A’ sua companheira chamam mãi grande.

            Nos terreiro dirigidos por mulher, esta toma o nome de ialorixá, mãi do terreiro ou mãi de santo, sendo as suas funções absolutamente equiparadas ás do babalorixá. Ambos marcam o ritmo aos tocadores de adufo (pequenos tambores que são batidos com as mãos diretamente) durante os toques, nome que dão ás suas toadas, fazem sortilégios, presidem os sacrificos e preparam os orixás. São ainda conselheiros e alguns praticam entre os seus filiados o curandeirismo.

            No terreiro de Anselmo, o Ogan espécie de protetor do culto, pode tirar as invocações e dirigir um toque até o final, não realisando, todavia as outras funções do pai de terreiro. No terreiro de apolinario os filhos de santo fazem ao Ogan a mesma saudação  respeitosa e as mesmas reverencias a que tem direito o babalorixá.

            Todos os pais de terreiro têm os seus herdeiros que por sua morte assume a chefia do culto. Nem sempre os sés parentes, mesmos os mais próximos são contemplados no testamento, que contem diversos nomes e extensa lista: na ordem em que estão escritos se sucederão.

            O terreiro propriamente dito é a sala principal da casa onde reside o pai de santo. Tem via de regra cerca de cinco metros quadrados, chão de terra batida, alguns cimentados, bandeirinhas de papel de seda colorido cobrindo integralmente o tecto. Ao fundo abre-se a porta do Pegí, o santuário sagrado da seita. Aí, num altar baixo de três ordens estão os fetiches dos seus deuses possantes, Xangô, Ogum, Odé, Abaluayê, Yemanjá, Yamessam, cercados de louça “da Baía”, quartinhas de barro cheias dagua, pratos cobertos por outros pratos, contendo alimentos dos santos, frutos, distribuídos nos três batentes. Estampas de santos católicos cobrem as paredes, onde se conservam os colares do babalorixá e da mãi grande, onde é comum ver-se uma espécie de espanador feito com a cauda de vaca, pendurado – pe um dos símbolos de poder do babalorixá. Búzios, craneos de animais sacrificados, encontra,-se pelo chão.

            Atrás da porta do Pegí sacrificam geralmente, antes do toque, um galo a Exu. O sangue da ave é deixado cair sobre o deus-fetiche num alguidar de barro vidrado. O galo sacrificado deve ser preparado depois e comido pelo babalorixá, pela mãi grande e pela mãi pequena.

            No Pegí é que são inicIados os filhos de terreiro, que aí passam dias “para não levar sol, força de chuva e sereno, não ter raiva nem se contrariarem”, satisfazendo aí mesmo todas as suas necessidade.

            Uma fotografia do arquivo do S.H.M, mostra três afilhados da Seita Africana São João, de Artur Rosendo, ao sair do Pegí, após os preparos do Axé (folhas, eifum, pemba, etc., trazidos da África ou comprados na Baía) para “sentarem” os santos. Apezar dos oito dias de preparo (fazem todas as necessidade no Pegí porque não podem levar sereno ou sol nem se enraivecerem) muitos só vão cair com o santo muitas noites depois.

            Um deles “sentou” Xangô e os outros dois Ogum. Desta forma dansam a noite toda assim como os que “sentaram outros santos”.

            Os nomes das peças dos seus vestuários são os seguintes:

 

            Gorro                                     filafi

            Volta                                      aquelé

            Palhas de dendê                    maruô

            Seta de Xangô                                   molêta

            Faixa                                      ojá

 

 

            A tanga de Xangô ao invez de ser de palha como a de Ogum, é de fazenda em cores, com guizos nas extremidades.

            Ao sair do Pegí chama-se Iawô. Antes, porém, são precedidos por mulheres com toalhas (iabá) e homens (ocurim) seguros na ponta das toalhas (Alá).

            As festas religiosas (toques) têm inicio ás vezes com um rozario cantando, tirado em voz alta em frente a um altar com santos católicos. Depois das orações vestem então as suas cores, de acordo com o santo da devoção, e os filhos do terreiro estão preparados para o toque.

            No terreiro de Adão, ao lado da casa, há uma capela perfeita, com altar, imagens católicas grandes, etc. durante todos o mez de Maio realizam-se ali exercícios Marianos, preces tiradas por Adão, com assitencia de grande numero de filiados á seita.

            No terreiro de Josefa Guedes, na rua das Moças, no Arruda, assisti alguns toques iniciados com praticas católicas. Do primeiro dei ao S.H.M o relatório que se segue.

 

 

 

UM TOQUE NO TERREIRO DE JOSEFA GUEDES

 

 

            No principio da rua das Moças, no Arruda, procurei me informar em que altura ficava o terreiro de Josefa. Já passava das 21 horas e não se ouvia o batuque marcado para aquela hora. Uma negra velha indicou-me com precisão: na curva da estrada, á esquerda, numa casinha recuada estão rezando um mez de Maio – ali é o terreiro.

            Junto ao cercado muitas pessoas assistiam ás preces. Via-se através das janelas, na sala iluminada por uma lâmpada a álcool, um oratório com santos católicos bem dispostos, imagens grandes e bonitas. O “mez de Maio” tirado por uma mulata bem vestida, era respondido por uma coro de mulheres quase todas jovens negras e mulatas.

            Entrei no sitio e acompanhei mais de perto, junto á janela, a cerimônia.

            Josefa deu pela minha presença, perguntou o que procurava. Quando lhe disse ser do S.H.M  me fez entrar tratando-me como se fosse pessoa de suas relações.

            Sua casa abre-se com uma sala espaçosa, janelas na frente e dos lados. Um corredor estreito liga esta sala a um pequeno quarto mobiliado com cama de casal, penteadeira e uma cômoda, e leva ao terreiro, onde se abre a porta de um outro quarto – o Pegí; ligada á sala do terreiro, a cozinha espaçosa.

            Como nos demais terreiros, as mesmas bandeirinhas de papel de seda cobrindo o tecto, estampas de N. S. da Conceição, Jesus Cristo, S. S. Virgem, nas três faces largas da parede, onde ainda se vêm cartazes: “é proibido fumar”, “Respeito e moralidade”.

            Josefa ofereceu-me uma cadeira, mandou que os batedores dessem o “sinal”, e foi ao quarto da frente. Voltou logo depois com um costume de “baiana”, grande quantidade de colares e pulseiras como ornamento.

            Os filhos do terreiro que se agrupavam na sala ajoelharam-se e beijaram-lhe as mãos, outros ditaram-se por terra junto aos seus pés.

            Josefa mandou que todos se colocassem em redor do terreiro. Os adufos bateram antes de qualquer toada. A mãi de santo sentou-se num tamborete, marcando o compasso dos adufos com uma pequena vara. O circulo de filhos do terreiro já formado, a Ialorixá tirou a invocação:

           

            Odé

            Dudu

            Caiu

            Maioá

 

Repetida pelo coro: Odé-é-é, dudu cá-iú, ma-ioá

 

            O circulo se  movimenta, os adufos batem forte, as dansas em volta da sala.

            Josefa dirige-se para mim e diz que esta toada é a abertura do toque, pedindo aos orixás que olhem para nós.

            As dansas em volta da sala, a toada sempre repetida por mais de quinze minutos.

            Segue-se a “salvação” a Ba-Odé:

 

Coupé milodé

                        Coupé milodé

            Omin papé

                        Ou-dé ou-bé com marefó

            Com marefó coupé

                        Milodé olé

 

            Josefa volta-se para o lado do Pegí, donde sai um mulato duns 25 anos, cambaleando até o centro do circulo que dansa. Ergue os braços, grita forte e entra a espernear furiosamente, braços abertos, dando voltas em torno. Josefa bate no “manifestados” com a vara, manda que o ponham na rua, diz que o mulato está bêbado e não com um santo.

            Refeito o circulo, tira a invocação:

 

            Nan nan eu há

            Nan-nanbrucú eu há hei

            Nan nan eu há hei!

 

            É a toada a Nananbrucú, salvando a terra  e o mar, informa Josefa.

            As filhas de santo deste terreiro chamam a atenção pela sua beleza, são quase todas jovens negras e mulatas de 18 a 30 anos. Seus gestos são perfeitos e tem-se a impressão que representam, a marcação é perfeita.

            Começa a saudação a Abaluaê:

           

            Abaluaê talabô

            Abo e mouro

            Ogum Ogum

            No are olodó

            Coa-nan ou lodo

 

            É pedindo a São Sebastião para livrar o ovo da peste , me diz a mãi de terreiro enquanto o coro das filhas responde a toada.

            Segue-se toada a Mi-Xangô,. Louvando todos os babalorixás e todos os mi-xangô:
           

            Ei a baçou é

            MI-xangô babarixá

            Lerú ou

 

            Os adufos batem dolentemente, as dansas têm uns requebrados e um volteio de ventre que ainda não tinha visto para outras toadas. É duma sensualidade extrema esse bailado mi-xangô, que não presenciei em nenhum outro terreiro.

            Terminada a louvação os adufos param de tocar, há um intervalo. Josefa aproveita-o para me mostrar o seu Pegí. NO pequeno quarto poço iluminado, um pequeno altar em três ordens, totalmente cheio de fetiches diversos. Os seus encantados possantes, o grande Xangô num vasto alguidar de barro vidrado, Ogum, Yemanjá, Abaluaê, Orixá-lá, este ultimo representado por uma estampa emodurada do Senhor do Bomfim. As mesmas  quartinhas de barro cheias de d’água, água do santo, pratos com as comidas dos santos, frutos, garrafas com “caximbo” (bebida feita com cachaça, mel de abelha, canela, etc.). Duas grandes esteiras cobrem o chão.

            Voltamos ao terreiro. Josefa chama os batedores de adufo; os filhos que conversam em voz baixa formam o circulo em torno da sala.

 

            Ou-guê reibé guerá

            Guerá guereibé-ou guerá

 

 

            Josefa que sempre tira as toadas fora do circulo, ora sentada no tamborete, ora de pé, diz estar salvando Oiá: “a toada é adorando a espada de Oiá”.

            O circulo para, depois dos filhos terem repetido muitas vezes os mesmos versos. Os adufos param.

            Josefa tira:

                       

            Ou-gué ninseledÔ bababou

            Mil quer que

            Mosolé no aro milé

 

           

            É a toada a Oloxum, salvando todas as águas que vai ser continuada com a invocação a Yemanjá:

 

            Para-manjá

            No caiombé

            Cihei no caiombé

            No caiombé di hei

 

            A toada terminal é a de Orixá-lá:

 

            Gui gui Alá é pó

            É pó gui gui

            Alá é pó

            E abatalá lodeou

 

            “Salvamos o Senhor do Bomfim para terminar” disse-me Joseja. “O doutor pode ir se embora”, juntou. Os filhos do terreiro continuavam no entanto com jeito de quem não tem vontade de ir embora, os batedores de adufos nos seus logares, a madrugada não tinha ainda clareado.

            Fui levado á porta com uma insistência toda envolta em amabilidade e o portão fechou-se à minha saída.

            Neste terreiro de Josefa, que se diz neta de africano, soube, e depois tive confirmação de fonte segura, de que nos fins das festas religiosas, retirados os convidados e pessoas extranhas, as filhas do terreiro eram possuídas pelos filhos do terreiro. Não se trata duma prostituição sagrada, observada  em alguns cultos primitivos. Anselmo na sua lista de babalorixás “sem competência”, expressão que para si envolve um significado todo especial, inclue Josefa (mais conhecida por Mãi Zezefinha tendo mesmo denunciado que ela faz da seita um motivo para “negocio” suspeito...

            Tive noticia de que no antigo terreiro de Almeida ocorria coisa semelhante. Posso garantir que em terreiros como o de Adão, Anselmo, Apolinario, Joana entre muitos, absolutamente não são usadas tais praticas.

 

 

 

NO TERREIRO DO PAI ADÃO

 

 

            Entre os páis de terreiro, Pai adão é, sem duvida, o mais destacado. Todos os outros o têm em conta de um grande babalorixá, e si em voz baixa falam mal da sua importância, não é sem grande respeito com que o cumprimentam.

            É filho de africano de Lagos, e tem atualmente cerca de 60 anos. Do seu pai herdou os fetiches que possue e se fez babalorixá.

            Desejando conhecer a pátria dos seus antepassados não mediu dificuldades: tomou um cargueiro para Lisboa, dali um outro para Lãs Palmas e num barco inglês alcançou Lagos (1906). O conhecimento da língua que lhe fora ensinada pelo seu pai lhe fez familiar a religião e permitiu que se aperfeiçoasse na liturgia do culto. Não se livrou com tudo do sincretismo católico. Referiu-me mesmo que em Lagos, mercê da volta de muitos antigos escravos, outros mesmo libertos já de nascença, o culto yorubano se faz assim mesclado em muitos terreiros.

            De volta ao Recife, tempo depois, instalou o seu terreiro. Esteve antes na Baía e em Maceió.

            Seu porte é o de um grande chefe, arrogante, e trata os médicos do S.H.M de igual para igual. Deixa, porém, ás vezes, transparecer a sua gentilesa em cumprimentos assim: “Só sinto alegria e só o dia é belo quando vejo você, etc.”

            Durante o dia, sentado numa velha  protonoa de jacarandá, costume de brim branco muito bem engomado fumando bons charutos, recebe os filhos do terreiro que lhe vão pedir a bençam ajoelhados, ou conselhos para resolver negócios,etc.

            Julga-se um grande sacerdote, uma figura quase sagrada e não se nivela aos demais babalorixás, aos quais critica severamente pelas indiscreções em torno dos segredos do culto. Sua restrição á divulgação de assuntos ligados ao terreiro é tal que, sendo amigo do senhor Gilberto Freyre, se negou a participar do 1.º Congresso Afro-brasileiro. Entre os diversos pais de terreiro do Recife foi a única excepção.

            Na sala onde faz o seu terreiro, ordinariamente é sala-de-jantar. Uma longa mesa bem posta, sempre convidados presentes, o ar patriarcal que inspira o ambiente é o clima em que vive Adão.

            Essa casa, no Chapéo de Sol, linha de Beberibe, tem um sitio esplendido, cercado de arvores frondosas. Por detrás da casa há um Iroco, gameleira sagrada que é venerada como santo. Iroco, disse-me Adão, é o pão encantado. A gameleira  secular tem junto ao tronco montinhos de areia sobre os quais há varias quartinhas de barro cheias dágua. Ali fazem sacrifício de animais em dias determinados do ano, que não consegui saber.

            Na ordem das invocações a toada de Iroco é cantada em quinto logar no terreiro de Adão.

            Em poucos terreiros, nesta cidade, há semelhante adoração. Não sei si por falta da gameleira sagrada. Diversos pais de terreiro interrogados por mim respondiam evasivamente.

            Ao lado da casa Adão tem a sua capela. Ali, toda cheia de santos católicos, imagens e estampas no altar que toma todo o fundo da sala, bancos, de madeira dispostos como se fosse em igreja, fazem rezas, terços. O mez Mariano então é muito concorrido, sendo as orações tiradas por Adão.

            Confrote á sala do terreiro está o Pegí. Tem duas portas , a quem dá para o terreiro e uma outra ao lado da capela, ambas sempre fechadas a chave. Em dia de toque a porta que dá para o terreiro fica bloqueiada por bancos longos que são postos para os convidados. Nos outros terreiros esta porta é sempre livre, o Pegí visitado de quando em vez.

            Dificilmente consegui que Adão me deixasse penetrar no seu Pegí. É um quarto espaçoso, escuro. Ao fundo um altar baixo, de cimento e tijolos , tomando toda a largura, com três ordens de batentes, onde se vêm dois Oxês de Xangô, figuras esculpidas em madeira, á maneira dos primitivos, dois tronos de Xangô uma espécie de pilão esculpido ao redor, cobertos por um pano vermelho e branco, cores do orixá. Entre os pilões está Xangô:numa tijela de barro vidrado o fetiche do deus, a pedra negra de meteorito embebida em azeite. Xangô é um deus poderoso – o deus do trovão. É filho de Onanminhã, e de sua geração é também outro deus – Xerê. São seus descendentes Yamassay, dada e Baianênin, “deuses fêmeas”, disse-me adão. Dadá  ver-se acima do Xangô. É representada por uma espécie de capa pequena com capuz, toda coberta de pequenos búzios brancos, bem ao centro dois espelhos pequenos. Está dependurada na parede. Esse dada, os oxês e os tronos, Adão os herdou do seu pai. Ao lado de XangÔ estavam: Orixalá (uma cuia de louça cheia de buzinhos e de água), Yemanjá (uma terrina de louça onde se vê uma pedra de raias vermelhas), Ogum (um alguidar de barro vidrado cheio de ferros, punhais e um revólver velho enferrujado – são as ferramentas de Ogum). Havia grande quantidade pratos e louças cobertos por outros pratos, por panos coloridos, quartinhas de barros cheias, por panos coloridos, quartinhas de barro cheias católicos na parede. Numa bacia de pó de pedra um busto grosseiro feito em barro escuro, olhos brancos. Muitos colares em volta de feitiches diversos, outros em penca dependurados na parede, contas de varias cores. Pelo chão craneos de pequeninos animais, “ilús” (pequenos tambores), algumas peles.

            Mostrei desejo de tirar uma fotografia do Pegí e adão não me permitiu. Falei para fotografar os oxês: deu-me licença mas quando me dispunha a leva-los para a luz, negou-se e por fim me disse que deixasse aquilo para outra vez.

            Mostrei desejo de tirar o seu retrato. Adão negou-se quase espavorido. “não gosto que tirem o meu retrato”, disse como desculpa. Creio que essa recusa tem motivo na interpretação do primitivo que tem medo de morrer pelo fato de deixar um desconhecido tirar-lhe o retrato. Frazer. Citado por Otto Rank observou que entre varios povos há o temor de tirar uma fotografia. Ele o constatou entre o selvagens. É que o primitivo vê no retrado uma minifestação da alma. Nina Rodrigues assinala que o negro receia que uma parte da alma do homem seja absorvida pelo retrato. Para o negro sendo a alma do individuo representada por sua imgem há o temor de que em mãos extranhas sirva essa imagem para uma pratica mágica que o exponha a alguma desgraça

            As festas religiosas no terreiro de Adão são realisadas em datas especiais do ano.

            As invocações aos orixás são cantadas nos seus toques na ordem seguintes:

 

1)      – Exu

2)      – Ogum

3)      – Oxê-ossí ( que é o mesmo Odé)

4)      – Otim

5)      – Iroco

6)      – Oxú-marí (arco-iris)

7)      – Abaluaiyê (S.Sebastião)

8)      – Nanan-burucú (encantda d’agua, mãi do Abaluayê)

9)      – Yê-uá (outra encantada d’agua)

10)  – Oba (N. S. Dos Praseres, santa guerreira)

11)  – Oxum (dona da água doce)

12)  – Yemajá (dona do mar)

13)  – Yamassí

14)  – Dadá

15)  – Baianênyn

16)  – Onanminhã (pai de Xangô)

17)  – Xerê

18)  – Xangô

19)  – Oyá ou Yamessan

20)  – Orixá-la (pai de todos os santos)

 

 

 

Falando sobre Exu, divindade inquietante disse-me Adão: “falam que nas seitas africanas se faz bruxaria adorando o diabo. Isto não é verdade. Bruxaria assim quem faz não é o negro. É o portuguez e o índio. Veja: donde é que vem o Livro da feitiçaria e o Livro de S. Cipriano? Nós não adoramos o diabo. É verdade que temos exu, que foi como um anjo que se perverteu, justamente como na religião católica, que representa a mesma cousa que a nossa para o branco. Mas não adoramos exu. Procuramos é satisfaze-lo, acalma-lo, para que ele não venha atrapalhar as coisas, não faça mal”.

Não consegui apanhar as toadas cantadas no terreiro de Adão. Cantam muito depressa, são pouco repetidas e fora do toque ele sempre se esquivou de canta-las para que eu as copiasse. A pouca frenquencia dos seus toques, que são raros impediu-me de trazer neste trabalho alguma toada que fosse do seu terreiro. No ultimo toque que aí assisti quando se iniciava a toada “salvando” Oba, adão mandou que os convidados se levantassem até o final da salvação.

Para cada toada há um jogo especial de mãos e uma cadencia especial nos “ilús”. Forma-se o circulo com os filhos de santo, negros de todas as idades, mulatos, crioulos. Ao centro, todo vestido de branco, ao envez do paletó uma camisa ampla abotoada até o pescoço, descendo até os quadris, usada por fora das calças está o pai do terreiro. Ele tira as toadas, os “ilús” batem, e só então os filhos respondem, iniciando a dansa ao redor. Dansam todos em volta do babalorixá, que dá o ponto, os gestos, imitados por todos. Os braços são levantados para o alto nas invocações, atirados para os lados, ao chão, os quadris se mexem num volteio mais ou menos lento que se vae acelerando aos poucos com o ritmo dos “ilús”. O circulo gira ao redor do terreiro, as toadas sobem noite a dentro, o ritmo alucinante enche o ambiente.

      Terminada uma toada param os “ilús” e a dansa. O pai de terreiro tira então a toada seguinte que é escutada em silencio e respondida com marcação dos adufos.

      Neste terreiro de Adão nunca presenciei uma queda de santo. É dificílimo. O escrúpulo de Adão não permite mistificações. Passa-se ano inteiro sem que um dos filho sequer manifeste o Orixá.

      Adão, tirando as toadas, tem atitudes de místico profundo. Sua fisionomia se anima de felicidade e de beatitude.

      Com a saudação a Orixá-lá que é considerado o pai de todos os orixá (uma espécie de Pai Eterno no ou espírito Santo, explicou-me Adão) termina a cerimônia religiosa.

      Fui informado e obtive confirmação de que adão não exercendo outra profissão qualquer (a maioria dos babalorixá do Recife são pintores, pedreiros, capinas, etc.) gasta, todavia, só de despesas caseiras 30$ por dia. Essa situação folgada em que vive tem sua explicação na pequena renda do seu sitio, nos presentes (eu o vi receber um grande peru “para Xangô”), donativos de pessoas que lhe vão pedir conselhos, solução para seus casos, receitas para mau-olhado, sua clientela crédula. Um portuguez, grande comerciante de calçados nesta cidade, o sr. J.A.F., deseperançado por um negro seu conhecido á presença de Adão. Não consegui saber a que praticas ele se submeteu, mas que abandonou o tratamento após a primeira visita ao terreiro.

      Adão se gaba de ser o único babalorixá no Recife que fala língua nagô. Da última entrevista que tive com o pai de santo obtive o vocabulário que apresento:

1)      – céu = olorun

2)      – terra = ilé

3)      – mar = olocum

4)      – maré = ossá

5)      – sol = ourum

6)      – lua = oxú-pá

7)      – rei = Oba

8)      – estrela = iraé

9)      – arco-iris = oxum marí

10)  – homem = ocurim

11)  – mulher ôubirim

12)  – menino = ô-madê

13)  – casa = ilê

14)  – minha esposa = (Obirimim

15)  – mesa = tapacê-tafingueu

16)  – gato = ôlôfú

17)  – peru = telou-telou

18)  – pato = péqueié

19)  – roupa = acho

20)  – chapéu = aquelé

21)  – sapato = bata

22)  – cabeça = orí

23)  – olho = ejú

24)  – nariz = imum

25)  – boca = ênum

26)  – orelha = itu

27)  – lábio = èêtê

28)  – queixo = iban

29)  – nuca =  i-pacó

30)  – peito = aia

31)  – ombro = êigicáa

32)  – braço = ápá

33)  – mão = oúó

34)  – pênis = ôquou

35)  – testículo = eépan

36)  – cabelo = irum

37)  – dente = éfin

38)  – unha = ê-cana

39)  – coxa = itan

40)  – perna = itan-essé

41)  – pé = essé

42)  – nadega = idí

43)  – vargina = êbeu

44)  – coração = hó-can

45)  – amor = ifé

46)  – saudade = moda-rué

47)  – burro = queté-queté

48)  – cavalo = éxim

49)  – boi = malú

50)  – vaca = abou-malú

51)  – cachorro = adi-iá

52)  – cabra = êuré

53)  – bode oubi-có

54)  – carneiro abu

55)  – ovelha = agutan

56)  – porco = lede

57)  – macho = aço

58)  – fêmea = abou

59)  – bebida =otí

60)  – bebida de cor = otí funfun

61)  – café = êmi-dudú

62)  – açúcar = ió

63)  – sal = ió-obé

64)  – faca = ó-obé

65)  – faca de ponta = obé-muxo-inxô

66)  – agulha = oberé

67)  – linha = ou

68)  – côco = aban

69)  – banana = óguedé

70)  – arvore = igí

71)  – comida = ôuingúê

72)  – bom dia = ôguirê

73)  –como vai? Arare-colê?

74)  – bem = adupé

75)  que fim levou? = oucuatidio

76)  – faz tempo que não lhe vejo = oupé-me-ti-rié

77)  – como vai sua casa = ilê-ré-um-có?

78)  – como vão os menios? = a uan madê?

79)  – aeus = oucu-ou

80)  – pai = babá

81)  – mãi = ia

82)  – filho = ô-man

83)  – santo = orixá

84)  – boa tarde = oquá san

85)  – boa noite = oquá-lé

86)  – anoitecer = irolé

87)  – madrugada = niforé

88)  – noite = ale

89)  – dia = ossan

90)  – cadeira = idiôçou

91)  – banco = aputí

92)  – bigode ou barba = irum-ban

93)  – mãi pequena = ia quequerÊ

94)  – zelador = équéde

95)  – tambor = ilú

 

 

A RELIGOSA DO MARACATÚ

 

 

            Adão, falando sobre o Maracatu, contou-me que há muitos, no tempo de seu avô, os negros de todas as nações que havia no Recife, se reuniam em certas épocas do ano na porta de igrejas e dansavam muito. Na ocasião de se despedirem da dansa diziam: “Muracatucá”, que quer dizer: vamos debandar. Os estudantes gostavam muito de assistir aquelas dansas e, ouvindo sempre essa palavra, engendraram, com negros mesmo, uma dansa semelhante, chamando-a MARACATÚ, que lhes parecia ser os seus nome. As figuras do rei e rainha do “maracatu” já existiam. Não que fossem rei e rainha de festa de carnaval, mas rei e rainha dos escravos da sua nação e nação e naquela época tinham até o titulo dado pela policia.

            Hoje em dia sendo o maracatu associação carnavalesca, conservam no entanto a tradição de, antes de qualquer passeio pelas ruas da cidade, render homenagem a N. S. do Rosário dansando na porta das  igrejas.

 

 

 

 

NO TERREIRO DE ANSELMO – O TOQUE – A INCIAÇÃO DO “OGAN” – “DESPACHOS” – A HISTÓRIA DA GALINHA DE OIÁ – VOCABULARIO VARIAS INVOCAÇÕES

 

 

 

            Tive noticia de que na noite de 13 de Maio, Anselmo ia dar um toque dedicado a um seu Ogan, ogan de Ogum.

            Cerca de 2 horas da madrugada, alcancei a rua da Regenação, areial interminável lá para os lados de água fria. Depois de longa caminhada noite a dentro, a terceira entrada do lado esquerdo, lá ao longe  o riacho que se atravessa sobre dois troncos de coqueiro, a ligeira subida em rampa a direita, quase ao fim do caminho a casa de taipa coberta de zinco.

            Estavam saudando os encantados. O Ogan de Anselmo é que tirava as toadas. O pai do terreiro, junto dos adufos, tocava o agogô. Negros e mulatos, entre eles crianças, formavam o circulo. A sala iluminada por uma lâmpada a álcool, o tecto todo decorado com bandeirinhas de papel colorido.

            As toadas tiradas pelo Ogan eram repetidas:

 

Ogum daquérá

Queriaê

Ogum daquérá

Queriaê

 

 

            Os adufos param, terminada a toada. O Ogan, no meio do circulo, canta outra, o batuque se reinicia com outro ritmo, as dansa em volta da sala, repetida a invocação:

           

                                               Ogum ia mangue

                                               Ogum ia mangue

                                                           Alalerejá Ogum já mangue

                                                           Alalerejá Ogum já mangue

                                                                       Obigêe!

                                                                       Ogum!

 

            Segue-se, quase sem intervalo, nova invocação:

 

                                               Nana a godê a godé

                                               Ogum bê a sanan bê

                                               Ogum bê a sanan bê

                                               Ogum bê, Ogum bê

                                               Ogum a lodo

                                               Aba in nagô

                                               Ogum ou balê

                                               Ogum a olodê

                                               Aba in nagô

 

 

            Os adufos emudecem novamente. As dansas cessam por um momento, todos se conservam nos seus logares. Nova toada a Ogum é tirada pelo Ogan. Os adufos batem forte, os filhos do terreiro jogam com os braços para os lados, para a direita e para a esquerda, gingam com os quadris. Catam:

 

                                               Ogum Ogum

                                               Nossefira ela nibô

                                               Ogum Ogum

                                               Ogum Ogum

                                               Nossefira ela nibô

                                               He lá olé

                                               He lá olé

 

 

            A saudação a Ogum continua com as toadas:

 

                                               Ogum dê arerê

                                               Ain nein lê rou laborô

                                               Maderê

                                               Maderê

                                               Ain nein le rou jaborô

                                               Maderê

                                               Maderê

                                               Ogum dê!

                                               Ogum de criolô

                                               Uayê Uayê

                                               Ogum de criolô

                                               Uayê Uayê

                                               Sapatá sussurê

                                               Nossa filha é mangê

                                               Ogum de criolô

                                               Nahora ago ilê

                                               Nahora ago ilê

                                               Ogum jobi

                                               Nahora ago ilê

                                               Nahora ago ilê

                                               Do pê

                                               Nahora ago ilê

                                               Nahora ago ilê

 

 

            O circulo acelera seus movimentos. Uma filha do orixá cai em estado de santo. Inicia uma dansa bárbara, de movimentos indescritíveis, rodopiando no centro do circulo. Tem uma fisionomia de alucinada, agita os braços para o alto. O Ogan canta a toada:

           

                                               Odé, bomba yê

                                               Nahora ago ilê libe

                                               Ogum biná

                                               Nahora ago ilê

                                               Nahora ago ilê

                                               Ogum alÔ ilê

                                               Ogum he!

 

           

            A possessa agita agora os braços em movimentos ralentisados. Joga com a cabeça para a frente e para traz, junta as mãos que tocam a cabeça e descem á borda da saia. Volta-se para o pai de do terreiro, que já não bate o agogoô, atira-se aos seus pés. O babalorixá a levanta, a mãi pequena e ai ilais levam-na para o Pegí.

            O Pegí do terreiro de Anselmo é bem menor que o de Adão. Estava iluminado a velas, os mesmos fetiches-deuses e objetos encontrados nos demais, no pequeno altar de três degraus. Na parede, estampas de santos, Jesus Cristo, São Sebastião, São Jorge, N. S. da Conceição. De extraordinário havia, num velho caixote de kerozene fechado com uma grelha estreita de madeira, uma cobra grande viva. Sei que entre os gêges havia o culto da cobra-deus. Anselmo excusou-se de explicar a presençar da cobra, limitando-se a dizer que era muito bom para o terreiro te-la ali.

            A dansas no terreiro contiuam. O Ogan tira a toada

                                              

                                               Mariou ou

                                               Aúde barou

                                               A ginginhã

                                  

 

            O coro dos filhos do terreiro responde a louvação, que continua:

           

                                               Mambá mambá

                                               Si-bá-lé-riou

                                               Ou nirê sarêuá

                                               Ou nirê!

                       

 

            Anselmo, que agora está ao meu lado, explica-me que o cantigo pode ser traduzido assim: “meu Ogan está se louvando nesta casa – o meu anjo da guarda”. Diz mais que a toada pede a retirada dos santos.

            As cantigas continuam com um ritmo mais doce:

                                  

                                               Tutu Ogum mayê

                                                           Mayê

                                               Lá no ayê ou ou

                                               Lá no ayê ou ou

 

            Anselmo explica-me que quer é dizer: “lá no céu está Ogum, lá em cima”.

            Um intervalo interrompe as dansas. Coisa de dez minutos recomeçam, com invocações a Xangô:

 

 

                                               Xangô jôá

                                               Micojóá

                                               Jambelê

                                              

           

            Anselmo diz a tradução ao meu ouvido: “Xangô venha e se sente junto de nós todos”. Explica: a toada pede forças a Xangôs.

                                  

                                               Gingolá

                                               Alen quê

                                               Gingolá

 

           

(venha pra cá, para nossa casa – traduz Anselmo).

                                              

                                               Xangô de criolô

                                               Uayê uayê

                                               Xangô de criolô

                                               Uayê uayê

                                               Sapata sussurê

                                               Nossa filha é magê

                                               Xangô de criolô

 

            (esta toada tem a mesma musica que uma anterior a Ogum, mudando na letra por apenas o nome do orixá).

            O Ogan tira a toada que “salva” Iroco. Perguntei Anselmo se ele adorava aquela entidade no seu território. Ele responde que sim mas que não tinha a gameleira na visinhança. Por isso o seu Ogan abria a toada por meio de Ode que é caçadora e está sempre na mata.

 

                                               Odé   Odé

                                               Bamilê

                                               Orixá Irocô

                                               Odé

                                               Odé  Odé

                                               Didé nabá

                                               Orixá Irocô

                                               É um abaÔ

                                               Ou didé mafá

                                               Ou mi orixá Irocô

                                               É um abaô

                                               Ou didé ô

                                               Ou didé mafá

 

            O circulo se movimenta mais apressado, os adufos aceleram o ritmo da marcação. Ouve-se:

 

                                               Aba outi ne bê

                                               Aba ou Aba na

                                               Ou qui lô xê

                                               Ensariô

                                               Babá in nagô

 

            Pergunto a Anselmo porque aquela toada com marcação completamente diferente. Ele diz que interroga si é Xangô mesmo. Perguntei porque motivo e ele me apontou a mãi grande que começava a respirar forte a agitar os braços, salientando-se dos outros. “Seu santo é Xangô, parece que ela vai cair com o santo, só pode ser Xangô mesmo, mas por causa das duvidas o Ogan pergunta si é”, disse-me Anselmo.

            A mai grande entrou a dansar furiosamente os adufos dão cadencia cada vez mais apressada. Uma toada a Xangô é tirada pelo Ogan. Duas ilais enxugam de vez em quando a manifestada. Sua dança já vai a uns trinta minutos, depois dirige-se a mim e me abraça para a direita, depois para esquerda, olhos vidrados, fungando com nariz, fazendo caretas caretas, abraça em seguida meus companheiros de visita. Volta ao centro do circulo. Os filhos do terreiro param de dansar. Os adufos continuam a bater, as toadas se elevam. Todos se aproximam agora dos tocadores de adufo. Vejo o relógio, são 4 horas da manhã. Aquela cerimônia eu já tinha assistido no mesmo terreiro. A minifestada faz caretas extraordinárias, alonga os lábios em bico, dansa quase parada, remexendo com os quadris. Estende as mãos em concha para todos nós, recebe moedas de todos os valores. As mãos já estão cheias, ela atira as moedas aos pés dos tocadores de adufo. Volteia rápida, braços abertos, corre em volta forte por muitas vezes, fungando com o nariz. Abre os olhos amortecidos, responde para Anselmo que as visitas já podem sair porque o santo já se foi embora.

            O candidato a Ogan no terreiro de Anselmo passa oito dias deitado no Pegí, quase se mexer, para receber os axé, preparados com as folhas de mato especiais. Com essas folhas machucadas, o babalorixá faz um banho para a cabeça do futuro Ogan, cantando as toadas do santo que o jgo dos pequenos búzios marcou (o babalorixá joga sobre a pele dum adufo quatro buzinhos, pedindo aos orixás que digam, um por um, se algum deles quer baixar no Ogan para livra-lo de inimigos, de malfazejos, de arma branca e de fogo, de qualquer feitiço. Pela forma como os buzinhos caem, virados para baixo ou para cima sabe-se qual é o santo que tem gosto em baixar). Findo o tempo de repouso no Pegí, sabendo-se qual o seu santo, tendo recebido  os seus banhos na cabeça acompanhados das toadas ao orixá, assiste na igreja a cinco missas, cinco dias seguidos, e então é considerado Ogan do culto; então dá uma festa (toque) fazendo todos as despesas,

            Anselmo diz que faz “despachos” e por meio de sacrificios pode evitar, por exemplo, o mal que um inimigo possa fazer. Para isso deve-se comprar um galo e leva-lo ao terreiro. Ele faz o sacrifício da ave a Exu ou a Ogum. Exu é um irmão alvoraçado de Ogum. É filho rebelde na  família. Há quem o queira comparar ao diabo. Explica que a vida de Exu foi sempre andar pelo mundo fazendo mal aos outros. Mas é um deus poderoso porque é o cavaleiro de todos os orixás, dá recados e leva recados.

            Diz Anselmo que as estradas têm dono e assim também se pode botar na estrada um despacho ou ebó, que atua sobre o deus dono da estrada que é um encantado. Ele recebe o sacrifio e satisfaz o pedido.

            Anselmo  assevera que os seus despachos só visam fazer o bem. Seu “pai”, lá na Baía, lhe fez jurar só fazer o bem com os seus poderes de babalorixá. Assim livra de mão-olhado, de faca, de tiro, de catimbó.

           

            Mostrado-me uma  estampa de S. Bárbara (Oia), Anselmo contou-me a história da galinha de Oiá, que apresento com suas palavras:

            “Oiá criava muitas galinhas bonitas e gordas. Quando N.S. Senhora estava de resguardo do parto de Jesus, disse que estava com vontade de comer uma galinha. Uma santa que era antes muito pecadora, mulher perdida, ouviu essa conversa e não teve duvidas: roubou uma galinha e mandou de presente a N.Senhora. N. Senhora não sabia de quem era o presente e ficou  muito satisfeita. Quando Oiá deu pela falta da galinha, não sabendo como foi, começou a dizer:

           

                                                           É minha quiquoé

                                                           É minha quiquoé

                                                           Ah he haboadié

                                                           Uayê min sin sin

                                                           Uayê min sin sin

                                                           Uayê min sin sin

 

Estas palabras de Oiá então foram cantadas como toada até hoje”.

 

 

            Consegui de Anselmo alguns vocábulos do dialeto da sua nação, que ele aprendeu com seu pai na Baía:

 

1)      – Uayê = céu

2)      – Ualê = terra

3)      – Uaboadié = galo

4)      – ilê ou quê = casa

5)      – Ocurim = homem

6)      – Mobirin = mulher

7)      – Aquiquoié = galinha

8)      – Aledé = porco

9)      – Patapá = burro

10)  – Exi = cavalo

11)  – Efó = gato

12)  – Apepeé = pato

13)  – Age = comida

14)  – Otim-dudú = vinho tinto

15)  – Otim-fim-fim = bebida branca

16)  – Epô-nagô = azeite dendê

17)  – Acho = roupa

18)  – Ubatá = sapato

19)  – Aqueté chapéo

20)  – Fin-fum = homem branco ou coisa branca.

21)  – Omin-dudú = café

22)  – Obá = rei

23)  – Pipá = vermelho

24)  – Malú = boi

25)  – Ió = sal ou assucar

26)  – Efum = farinha

27)  – Afilaf = gorro

28)  – Aja = faixa

29)  – Obé = faca

30)  – Eguí = carvão

31)  – Ojú = olho

32)  – Orí = Cabeça

33)  – Alessé = pé

34)  – Acocoro = bicho

35)  – Putí = banco

36)  – Ajôcô = mesa

37)  – Tolutolú = galinha da guiné; pode se também peru.

 

                                  

 

            No terreiro de Anselmo, em toques anteriores, consegui apanhar as toadas:

                        Louvação a Abaluaiê:

                                  

                                   Ajanuma o nirumba

                                   Um é ô nirumba

                                   Ajanuma cosi lê

                                   Um é ô nirumba

                                   Ajuê a ô nirumba

                                   Um é ô nirumba

                                   Sapata é ourixa

                                   É um é ô nirumba

                                   É um é ô nirumba

 

                        Cântico a Orixá-lá, pedindo Acho e Ilé:

 

                                   Orixá-lá dê acho ilé

                                   Odô-nilé u-ilé

                                   Odô-nilé u-ilé

                                   Odô-niqui nicó

                                   Ê ô Orixá-lá lá no fé-baum

                                   Angó oman xêxê                  

                                   Angó oman xêxê

                                   Egô uala egô ualá

 

           

                        Toada a Sant’Ana:

           

                                   Onãnã ô na

                                   O-á-ô-á-ô na-ô-á

 

                       

                        Toada chamando os orixás:

                       

                                   Ogum nitô co bá olê marô

                                   Rolarolé

                                   Rolarolé

 

                        Louvação:

                                  

                                   Onicá orixaquí quan naigé êranexí

                                   Onicá odolôrã

                                   Canigé aracutã

                                   Atetú

                                   Cadê olé-nã

                                   Sua-rami Orocô aêmiúa

                                   Omin uá ô-cô êmará ou co

                                   Omin uá ô-cô

                                   Omin uá ô-cô êmará ou co

 

                       

                        Toada pedindo aos orixás feijão, água, milho, etc:

                       

                                   Marô mi maió

                                   Marô mi maió

                                   Marô mi maió e abaô

                                   Uarê uê e abado

                                   Uarê uê e abado

                                   Uarê uê réré

 

 

 

NO TERREIRO DE APOLINARIO O TOQUE  - CALENDARIO RELIGIOSO – TOADAS

 

 

            Meu confrade R. Ribeiro descreve um toque no terreiro de Apolinário, no relatório que transcrevo:

 

                        “Visitamos hoje a seita africana Santa Bárbara, localizada á rua Francisco Berenger 147, Encruzilhada. Apolinário Gomes da Mota recebeu-nos á porta, levando-nos a seguir para ver o mez de Maio tirado por suas filhas e que já ia em meio. Na sala da frente estava armado um vistoso santuário decorado a branco e azul encerrando duas virgens da Conceição. Todos já com vestes próprias do XangÔ, entoavam hinos católicos á virgem. A seguir passaram ao terreiro iniciando-se o toque. O babalorixá mostra-nos a decoração daquele: 2 bandeiras inglezas,  pregadas á parede, encima por outra menor, brasileira, têm em seu ângulo inferior um escudo dividido em quatro partes. Na primeira um olho, logo um livro, na terceira um pilão e na quarta um homem. Explica-nos ele: “olhe e leia o pisar deste homem. Este homem aqui quer dizer Xangô”. “são os distintivos do meu terreiro”.

           

            No seu pegí há uma abundancia de quadros de santos católicos. Apolinário rege a preparação com toques isolados dos atabaques emquanto as filhas aguardam caladas. Ele e a mãi pequena tiram as primeiras entoadas. Inicia-se o circulo móvel, cumprimentado cada filho o babalorixá, sua esposa e mãi pequena. Muda-se o ritmo e iniciam a salvação a Ogum: “Ogum magê ... etc”, com o bambolear dos quadris e as flexões dos braços. A grande maioria dos presentes é mestiça. Acelera-se o ritmo, sempre em salvação a Ogum. Não utilisam o agogô. Toada a Ode abalogum... “Ode Ode, bamilê”.

            A primeira queda de santo se deu meia hora após o inicio do toque. O filho sentou Oxum. Vem nos cumprimentar, seguindo após para o pegí. Iniciam a salvação a Yemanjá e depois a Omulum. A Segunda possessão é num filho. Salta e rodopia. A seguir ergue-se e inicia os cumprimentos.

            Iniciam a salvação a Nanambrucú – “Sou eu mala... sou eu mala oê...” A esposa do babalorixá senta o santo e tira a mãi pequena de uma cadeira, envolvendo-lhe o pescoço. Seguem depois para o pegí.

            Após um intervalo, um dos assistentes começa a dansar desordenamente, tente depois despir o paletó e a camisa. E’ logo “preparo” e trazido para o centro da sala. Sentara Oxum...

            Salvam xangô todos ajoelhados, fronte baixa, mão na testa. Um dos filhos dá saltos e estende os braços para o alto, tocando o papel crespo do tecto. “Veja que xangô o desse menino!” – diz-nos jubiloso o babalorixá. “Adão ficou besta!”, conclue. Em voz baixa recomenda-lhe afastar-se do centro do terreiro para não tocar a lâmpada elétrica. Outro senta Xangô. Uma das filhas ao sentar Xangô, gesticula demonstrando estar de “barriga cheia”.

            Continúa a salvação a Xangô. Descresce de pouco a pouco o fervor. O toque torna-se mais compassado, os movimentos lentos no circulo. Já tarde, uma filha de outro terreiro, branca, senta seu orixá. Dansa de modo mais comedido.

            Entoa-se o amalejá. “Estamos despedindo dos orixás”, explica Apolinário e todos vão se retirando rumo ao pegí e aos cômodos da casa. Levantam-se os tocadores e fechando a fila são os últimos a retirar-se do terreiro.

            Apolinário exerce ainda funções de curandeiro. Uma das suas filhas vem a ele queixa-se de dor no ouvido. O babalorixá espalma a mão e muito seguro apóia o polegar por traz do pavilhão auricular da filha, iniciando uma leve massagem. Depois um sopro e de nada mais se queixa ela (A) R. Ribeiro. Auxiliar-tecnico”.

            Neste terreiro de Apolinario, em 1934, consegui apanhar toadas,  o seu calendário religioso nos toque a que assisti.

            As festas dos orixás no correr do ano: 1.ª festa de Abaluaci, a 20 de janeiro; 2.ª de Páscoa, em dias de Marco; 3.ª de Yemanjá, em Maio; 4.ª de Xangô, em Junho; 5.ª de Sant’Ana, Julho; 6.ª do Inhame, em Agosto; 7.ª de SS. Cosme e Damião, em Setembro; 8.ª, de Baguirí, em outubro; 9.ª de Odé, em Novembro; 10.ª do Natal, em Dezembro. Com  pela 15 festas ao todo, 10 marcadas e 5 por aniversários dos filhos do terreiro.

 

            Toada a Oxum:

           

                                               Iabá oaijabê

                                               Oiram deôutô

                                               Oiram deôutô

                                               Mamã

 

           

            A Yemanjá:

                       

                                               Acarilêlá de bomi maocarê

                                               Acarilêlá de bomi maocarê

                                               No aoiá

                                               Aônirê acarilêlá

                                               De bomina axaré

 

           

 

A Xangô:

                                  

                                  

                                               Ei Sangô

                                               Ei ei ei

                                               O Orixá

           

           

            A Ode:

                       

                                               Aroulê coque

                                               Milo de enifabô

                                               Ode aroulê

                                               Famerê cofomorê ce

                                               Onifadê

           

           

            A abaluaê:

                                              

                                               Pacô baiá

                                               Baiá mixoquê ojú

                                               Baiá onixanerê

                                               Baiá mixoquê ojú

 

 

            A Nana-bôrucú:

           

                                               Nana eu á

                                               Nana eu á ê

                                               Nana eu á

                                               Eu-iê uiê lodo coiá

                                               Nana ou iôiô

                                               Ou are ou lodo

                                               Coiá ou are ou lodo coiá

 

           

A S. S. Cosme e Damião:

 

                                   Beijinho e bolorou

                                   E-uá lê ce

 

 

 

 

NO TERREIRO DE JOANA – TOQUE

 

           

            O dr. Pedro Cavalcanti acompanhou-me na visita ao terreiro de Mãi Joana, numa noite de junho do ano passado. Estávamos convidados para um toque de aniversario.

            A sala da frente, caiada de novo, ostentava estampas de Jesus Cristo, São Sebastião, S. S. Cosme e Damião.

            O toque teve inicio logo que chegamos. Já fazia tempo, no entanto, que os adufos batiam  alternadamente, cousa que escutei de longe, como que chamando os filhos do terreiro á cerimônia que se ia realisar.

            Este terreiro em sua disposição nada difere do de Anselmo, padrão para o dos pequenos babalorixá. Na parede princiapl, um quadro com um sereia saindo do mar: Yemanjá.

            Mãi Joana dispoz os filhos em redor da sala. Tirou a toada :

 

                                               Ogum cantou bou

                                               A lei mairou lê lá ré

                                               Acorou cotobô

                                               A lei mariou lê lá ré

                       

            Os adufos iniciam a marcação; o círculo se movimenta, como resposta  os filhos do terreiro retetem as palavras da mãi de santo.

            Ogum foi salvado em primeiro logar. Segui-se a louvação a Omulú:

 

                                               Omulú ou pá que rou a ou

                                               Opené’e de ariou a ou

                                               Ponepé do á-r

 

            A toada de Ochum, marcada agora por uma ritmo mais sincopado, foi tirada pela Ialorixá:

                                  

                                               Omo do bedú

                                               Orérê ourê rériou

                                               Mobodú ouré reriou

                                               Orei ro mire Ochum

           

            Os adufos batem alto, o batuque, é lento mas penetrante. As dansas continuam, os corpos se balançam para os lados, as mãos se sacodem para os lados, como uma marcha a “carnaval”.

            Súbito, pela porta aberta entra uma mulher vestida de branco, colares amarelos no pescoço, numa carreira louca, atravessa a sala, entra no circulo, atira os braços para a frente e para o alto numa dansa desordenada. Os adufos aceleram o ritmo. A mãi pequena e a ilais andam em redor dela, enxugam-na de vez em quando com uma toalha branca e amarela.

            A dansa muda a cadencia, a manifestada toda crispadas dirige-se á mãi do terreiro, faz o adobalê aos seus pés, é levada ao Pegí em seguida. (Esse  Pegí de  mãi Joana é dos mais pobres que já vi. Tem muitas estampas de santos católicos, muito mais mesmo que símbolos de encantados da Costa).

            Mãi Joana tira a invocação a Yemanjá:

                       

                                               Ode oreçô nó quiée Yemanjá

                                               Oportá le bê

                                               Oiuá oiô tê ofininí lá choro ô é

                                               Acho rê aêe ô torro fimim

                                               Iachô r}e-é-ú-é

 

 

            Os adufos cadenciam um ritmo diferente ao batuque. Já os gestos são diferentes. A mãi do terreiro canta:

                                  

                                               Obacuarêuá o poée xê kutú

                                               Kutú lá ô-dé impe ô ba ora rê uá

                                               Obacuarêuá o ba poée xê kutú

                                               Kutú lá ô-dé impe ô ba ora rê uá

 

            É a toada a Bacuçou, diz-me ela, agora fora do circulo, num dos ângulos do terreiro. Perguntei-lh o significado. Respondeu que não sabia: “naqueles tempos os pais de santo não ensinavam...”

            As invocações voltam a ser repetidas  nesta ordem: Ogum, Omulú, Ochum, Yemanjá e bacuçou, até o final do toque, adufos batendo em lise á entrada do Pegí.

           

 

 

NO TERREIRO DE MARTA – UM AGUIRÍ DA COSTA

 

 

            Sobre a seita africana senhor do Bomfim, na rua da Mangueira, em Campo Grande, dirigida pela Iaolirxá Maria das Dores da Silva, Pedro Cavalcanti forneceu ao S.H.M. este relatório:

            “Esta seita deu uma festinha na noite de 18 e tarde 19, em homenagem a Santa Bárbara. O toque este animado, decorreu na maior ordem e logrou a presença de grande numero dos filhos de Mãi Maria.

            Enquanto lá estive não houve nenhuma queda de santo. Em compensação vi uma coisa inédita: parte da cerimônia par “sentar” Oxum. No pegí encontrei deitada, cabeça recostada á parede, uma mulher que ia se iniciar na seita. Estava de olhos semi-cerrados, pálida e bastante suada. Cobria-lhe o corpo um lençou amarelo. No Pegí conversei com Mãi Maria, demorei-me alguns minutos e a mulhersinha não deu acordo de mim. A mãe do terreiro falou: “vai entrar na seita e está aqui para sentar Oxum. Tem que passar algumas horas no Pegí. Está vestida de amarelo porque esta é a cor do santo”. O pegí de Mãi Maria não se diferencia dos que vimos noutros terreiros. Não tem “santo” de vulto.

            Pai Rosendo, de quem Mãi Maria é filha, estava na festa e, a meu perdido, mostrou-me o aguiri da Costa pelo qual já enjeitou dois contos de reis. O aguiri livra de todos os perigos aqueles que o trazem debaixo do braço direito. Mas não só livra como dá sorte também. O aguiri consta de três pequenas caixas de couro em forma de pentágono, unidas por um cordão. Dentro das caixinhas é que estão os “preparos”...(a.) Pedro Cavalcanti. Auxiliar-tecnico”.

 

            Toadas do terreiro do babalorixá Sevirino Oguiam, morador á rua da Mangaba:

 

                        Toada a Ogum:

                                  

                                   Acajá loní abom má Sá

                                   Ou que belo já          

 

                       

                        Estribilho:

                                  

                                   Alou acajá ou bomá Sá

                                   Ou que belo já

 

 

                        Toada a Xangô agalenjú

                       

                                   Pelo manlê coaou

                                   Epelo manlê coaou

                                   Adoniá é ré

                                   Epelo manlê coaou

                                  

                       

                        Toada a Ossi-xabá:

                                  

                                   Ou fu-fu-ré ou ou quiem lesdibou

                                   Elei fan-di-bá-bá ti baou

                                   Ouluaie di ai ou ou rei acaú

                                   Aou si

 

 

                        Toada a Oscum:

                                  

                                   Tei a ou remim

                                   Oscum asce ou tarueram

 

                       

                        Toada a Yemanja:

                                  

                                   Ogum te Yemanjá

                                   Ogum Yemanjá Ogum

                                   Omilá ou enirê é ni-dei-lou

 

           

           

            Toadas do terreiro do babalorixá Oscar:

                       

                        A exu:

                                   Oxuxú a go mamam cain adaral

                                   Caina na ou bral

                                   Bararoel xuxuajô mamam cain ao adaral

                                   Cain a ou

           

                                   Barão bébe tiriri seonan

                                   Exu tiriri barão ô bêbe

                                   Tiriri lonan Exu oguim a

 

 

                        Toada a Ogum:

 

                                   Ogum hoi mariou bobel

                                   Ogum hoi mariou bobel

                                   Ogum hoi mariou bobel

 

                                   A um bobô a um toú gomel

                                   E lê lona ta begé

                                   A si baía odel oguim

                                   A corvou bodel

           

                        Toada a Odé:

                                  

                                  

                                   Amalodél bailai, amalodel bailai

                                   Otailocou coiço amalodel coajou

                                   Ode nintápa Ode abaira ode nintápi

                                   Ou laira ode nintápi odé

 

                                  

 

                        Toada a Omolú:

                                  

                                   Omulu-pá quereuahou

                                   Quem quejual ou o lou

                                   Pá que rudou qubem quejual ou

 

                       

                        Toada a Nana:

                                  

                                   Nanan e he Ogum mandou

                                   Nossa fise e lesse nanan

                                   E he Ogum mandou basalan

 

                        Toada a Ochum:

 

                                   Já querer o lor dor

                                   Oi- eié ou já querer

                                   O bor dor abacei ojáquerer e bór bôr

                                  

                        Toada a Yemanja:

                                  

                                   Yemanja Epara manjar caambe dicí

                                   Oá-am dé-ié do caamb dé ié

                                  

                        Toada a Iasan:

                                  

                                   Edo-maude tan e do aiê

                                   Aiê aiê aiê-á

                                   Edua-cáce-ei e loa

                                   Eloia, eloia ou

                                  

                        Toada a Xangô

                                  

                                   Aquel edul aboul mtim

                                   Arerê lodol mael ê-cá quere

                                   Lá xocoabar olô dó má

 

 

                        Toada Orixá-lá:

 

                                   Tório-madê Orixá-lá

                                   Tório-madê Orixá-lá

                                  

                       

              Toadas do terreiro do babalorixá José Silva:

                                  

                        Toada a Amensan

                       

                                   Hoiá hoiá   (bis

                                   Lameihá fefereré  (bis

                                   Lameihá fefereré  para-mar

 

 

                        Toada a Ogum:

 

                                   Ogum clachau marou

                                   Orixá zougum ou mariou

                                   Mariou mariou

                                   Oia Ogum calachau marô-ou

                                   Gum-gum corrourá arou   (bis

 

                       

                        Toada a Xangô:

                       

                        Xangô Ogum de loudé   (bis

                        Ou-seu Ogum dele   (bis

 

 

CAPITULO 3

 

 

PROCESSÃO E MAGIA

 

 

 

 

O ESTADO DE SANTO – MAGIA – FEITIÇARIA MÉDICA – O XANGÔ E A POPULACÃO DO RECIFE

 

 

           

            O estado de santo observado nas cerimônias religiosas  dos terreiro é  um do ângulos de interessante para o S.H.M.

            Nas minhas observações vê-se o estado de santo provocado no terreiro, durante a dansa, ou ainda fora dele, em logar onde chegavam apenas a musica da toada  e o batuque já amortecidos dos ilús.

            No terreiro de Adão, onde as praticas são mais puras, menos dissolvidas pelo sincretismo religioso, raramente se observa uma queda de santo. O ritmo dos ilús, as musicas das toadas são, no entanto, muito semelhantes ás dos outros terreiros.q

            A ingestão de bebidas diversas, infusões e decoctos de hervas, entre outras a maconha usadas em vários terreiros durante os toques, emquanto o filho de santo faz o seu adobalê no Pegí, pode favorecer talvez a eclosão da síndrome. Afora as formas e processos ligados a histeria e a estados diversos de modificação da personalidade, suficientes para justifica-la.

            No caso observado no terreiro de Joana, a paciente encontra-se em sua casa, a alguns minutos de terreiro, apressando-se para ir ao toque. Ao ouvir a toada do seu orixá caiu em estado de santo. A excitação efetiva da musica da toada ao seu santo foi o bastante para lhe desencadear aquele estado.

            Um desenho do século XVI, devido a Breughel, e que fazia parte da galeria do arquiduque Albert, em Viena, reproduzido nos livros “Vie Militaire et Religieuse au Moyen Age et à l’époque de la Renaissance”, de M. P. Lcroix e “Maladies du Système Nerveux” de Charcot, mostra uma procissão dansante (springprocessionen) que tinha logar por aquela época em Echternach. Parece que se observa ali um equivalente do estado de santo. Vêm-se vários camponeses que se dirigem dansando, em fila, acompanhados de músicos que sopram fortemente seus instrumentos, para uma capela onde se encontram os restos de uma santo. A procissão de vez em quando é pertubada: os participantes tomados das crises extranhas, gesticulam, se contorncionam, debatem-se. Duas pessoas velam os que estão tomado pela crise para não caiam, justamente como fazem a mãi pequena e as ilais nos terreios afro-pernanbucanos. A cena fortemente animada, deixa ver que alubricidade não era banida naquelas procissões.

            Charcot mostrando essa mesma ilustração numa das suas aulas na Salpêtrière, asseverou que era fácil, á primeira vista, reconhecer que a “histeria e a histero-esplepsia tinham ali um papel predominamte”

            No conceito de Nina Rodrigues “os oráculos fetichistas ou possessão de santo, não são mais do que estados de sonambulismo provocado, com desdobramente substituições da personalidade”.

            A influencia da dansa que exalta e do “batucagé”  - hipnose provocada pela fadiga da atenção – a sugestão oral, todo esse complexo agindo numa mesma finalidade.

            Sobre a crise aguda de possessão, diz Arthur Ramos, que “a onda afetiva formidável da emoção religiosa – com todos os componentes que a ela se ligam – desempenharia papel dinamogenico de um complexo capaz de provocar a crise. Esta se manisfetaria, ora sob a forma de “tempestade de movimentos” (as convulsões clássicas), ora sob a forma de “reflexo de imobilisação” (estados cataleptoides)”. Resumindo sua apreciação no conceito: “a possessão espírito-fetichista é um fenômeno muito complexo, ligado a vários estados mórbidos”. Nas formas paroxísticas, processos afins da histeria e formas hiponoicas de pensamento, comuns da histeria, dos estados sonambúlicos, hipnótico, esquizofrênicos, com modificações da consciência e da personalidade. Nas formas su-agudas e crônicas, ligado ao automatismo mental (Arthur Ramos).

            As praticas de mágica são correntes entre os nossos babalorixás. Essa estratégia do animismo constitue a parte mais primitiva e importante da sua técnica, servindo para fins diversos, submetendo os fenômenos naturais á vontade do individuo ou protegendo-o de perigos, ou ainda prejudicando seus inimigos.

            O principio que rege a ação mágica pode ser expresso de modo mais conciso, abstraindo-se do excessivo do conceito, segundo as palavras de E.B.Taylor: mistaking na ideal connexion for a real one.

            Almeida utilisando um retrato da pessoa visada, amarrando-o em fitas, embebendo-o em sangue, evocou um pacto-de-sangue para solver um caso amoroso.]

            Anselmo refere que os seus ebós colocados nas estradas ou feito mesmo no terreiro visam unicamente fazer o bem e nunca malefícios. A técnica mágica é ai empregada sem fins hostis individuais, tendo ação protetora.

            Noberto, de tal maneira está certo que a doença é conseqüência de sortilégios, que afirma “tirar e botar doença”, ameaça velada que fez a um dos mês confrades do S.H.M. no inicio das nossas investigações. Não consegui saber a pratica mágica que usa para efeitos maléficos.

            A concepção da mentalidade primitiva que liga ao sagrado aquele que cura engendrou as formas místicas de tratamento usadas até hoje em dia. Entre as massas populares do Recife o mau-olhado é ainda considerado como causa de muita doença física, que assim só com rezas e benzeduras podem ser afastadas.

            Adão é Anselmo, todavia, fazem ebós para cura de mau-olhado, sacrifico a fetiche-deuses ou a encantados das estradas para afastar atrazos, evita-los, afastar doenças.

            “Os motivos que forçam ao exercício da mágica são fáceis de reconhecer, são os desejos do homem. Teremos apenas de admitir que o homem primitivo tem confiança desmedida no poder dos seus desejos. No fundo, tudo o que ele intenta obter pelos meios mágicos deve assim suceder, porque ele o quer assim”.

            Entre os pais de terreiro observa-se franca feitiçaria-medica. Este curandeirismo, de origem mágico-fetichista prende-se a fatores pré-logicos da mentalidade primitiva e não deve ser confundido com o charlatanismo, que é a transgressão voluntária, consciente, e responsal de um código de classe.

            Desta maneira só um trabalho continuo e persistente de educação poderá fazer desaparecer essa entidade – o homem-medicina, que a violência policial jamais conseguiur reprimir.

            A influencia imediata dos cultos negro-fetichistas no Recife é limitada a um numero relativamente pequeno de adeptos. Cada terreiro tem em media cerca de vinte e trinta filiados, na sua maioria mulatos, alguns crioulos, raramente um branco. Nada indica ser favorável o seu desenvolvimento. Pelo contrario, a obra de sincretismo religioso faz com que uma maioria freqüente os templos católicos, encarando alguns dos “filhos” o terreiro como um tradição venerável, outros como mero divertimento.

            Os filhos de terreiro são indivudos que ocupam profissões humildes (lavadeiras, cozinheiras, operários rurais, pedreiros, etc.). deve-se acentuar que não são bem vistos pelos de cor das massas proletárias e pequena burguezia. Causando aos  brancos de todas as classes apenas curiosidade, quando muito um vago receio de bruxaria e catimbó...

            O Serviço de Higiene Mental de Pernambuco investigando as religiões chamadas inferiores, no Recife, acompanhado de perto as suas praticas e atividade, tem em mãos o seu controlo para qualquer intervenção profilática necessária.

           

 

 

 

 

CAPITULO 4

 

 

 

A OBRA DO SINCRETISMO

 

 

 

AINDA O SINCRETISMO RELIGIOSO

 

 

 

 

            Naquela fase em que a perseguição policial os impedia de funcionar livremente, os pais de terreiro que se diziam “médiuns” e onde o sincretismo espírita intervinha mais fortemente na formação do culto, rotulavam de centro espírita o terreiro, enquanto aqueles em que era visível o complexo religioso espírita-catolico, predominantemente católico, voltaram-se para a escapula do Maracatu.

            Hipertrofiando as suas funções, há vários pais de terreiro que realizam os trabalhos de espiritismo.

            Essa mediunidade de alguns babalorixás, que as leis de sugestão de Baudouin poderiam, a certo modo, explicar, encontra terreno favorel nas formas de reação, primitivas, ancetrais, que encadeiam as funções do pai de santo.

            Nina Rodrigues, Arthur Ramos, ... assinalam a vulgaridade dos centros espírito-fetichistas, que se encontram espalhados pelo paiz.

            A denuncia chegou á Seção de Costumes e Repressão a Jogos ás 16 horas de hontem. Instalara-se em Beberibe, num beco tranqüilo e quase desabitado, um antro tenebroso de macumba e baixo espiritismo.

            Em conseqüência, o beco tranqüilo e quase desabitado se tornara num logar donde o silencio fora expulso e a tranquilidade escorraçada a ponta-pés.

            Todas as noites, um barulho tremendo. Sambas que se prolongavam até a madrugada. Toques prolongados de tambor.

            E mais inconveniente do que o barulho tremendo, e mais perigoso do que os toques contínuos de tambor, rixas diárias entre indivíduos desclassificados e turbulentos que freqüentavam o antro.

            Não era nenhum Xangô. Era, pura e simplismente, um caso de policia. E, como tal, resolveu a policia agir contra ele.

            A diligencia foi levada a efeito ás 23 horas aproximadamente.

            O comissário Siqueira, chefe da Seção de Costumes e Repressão a Jogos, acompanhado do investigador  Idelfonso, chegou ao local exatamente quando o antro se encontrava superlotado e era o barulho positivamente infernal.

            Nenhuma macumba em terreiro bem limpo, á luz da luz. Numa sala abafada e estreita, onde se respiravam emanações de álcool e o cheiro forte de corpos suados, dezoito indivíduos – 10 homens, 5 mulheres 3 crianças – ouviam, de um pretalhão de barbas brancas, cabeça raspada e pés descalços, uma espécie de pratica espírita, onde se misturavam, num conluio extranho, citações de Alan Kardec e imprecações a Ogun.

            Não ouve resistência.

            Ao “tintureiro” coube a tarefa de transportar os detidos á Secretaria da Segurança Publica. Foram aí identificados e mandados a exame, depois, no Hospital de Doenças Nervosas e Mentais, da Assistência a Psicopatas ““.

            O estado de lassidão mental imposto aos filhos do território, através da emoção do mistério próximo e de que fenômenos supra-normais vão acontecer, é propício a estas espécies de sugestões espontâneas  que oferece a sessão espírito-fetichista. Sendo que a “intervenção dum espírito estranho ao paciente se reduz a fenômenos da mesma família da auto-sugestão espontânea e que com ela se pode indetificar, levando em conta, todavia, uma “nuance” que é a da idéia original ser sub-conciente”.

            Sabe-se que quando uma emoção se alia á idéia, a sua realisação sugestiva tem maior oportunidade êxito (lei da emoção auxiliar). Sabe-se que a sugestão é exaltada pelo exemplo de sugestão semelhante realizada por outrem (lei do exemplo). Sabe-se que o exercicio facilita a sugestão (lei do exercício ).

 

            O “Diário da Tarde”, do Recife, nos seus fatos diversos de 16 de Novembro de 1934:

“O ESPIRITO CABLOCO. UM DESORDEIRO DIZENDO-SE MANIFESTADO, PÕE UMA LOCALIDADE EM POLVOROSA.

 

            José Porvino da Silva, vulgo Zé Bezouro. Refinadissimo Malandro. Perigosíssimo desordeiro. De dia, no xadrez. A’ noite, no “bas-fon”. “o espírito Cabloco apoderou0se de mim!” Zé Bezouro zunia como um bezouro doido. Voava e revoava, quer dizer, corria par um  e outro lado, gritando como um processo: “O espírito Caboclo apoderou-se de mim. E me ordena que eu mate gente.”

            O caso tornava-se mais complicado. Em Bomba do Hemeterio, onde passava, iam-se fechando prudentemente, as janelas e portas.

            -... “ordena que eu mate gente!”

            Já agora Zé bezouro empunhava numa mão uma pistola “comblain” e uma “peixeira” na outra.

            Alguns populares levaram o fato ao conhecimento do posto policia da Água Fria.

            Os soldados Severino Costa e Manoel Feliciano Gomes foram mandados á procura do malandro.

“o espírito do Caboclo...”. Zé Bezouro desta feita não terminou a frase.

            Foi subjulgado e desarmado por aqueles policiais e conduzidos á delegacia do 2. distrito.

            Verificou-se, aí, que em vez do espírito Cabloco, o que nele se manifestara, fora, simplesmente, o espírito...da cana”.

            O sincretismo religioso verificado nos cultos afro-brasileiros representa um fenômeno de resto já obervado em todos os tempos. Condicionado não só as necessidades exteriores como causas ocasionadas pela existência e pelos imperativos internos. Uma espécie de aliança com a família ressurgida, realisando novas alianças. Conciliando, de inicio, a ação julgada sinistra da divindade alheia com o poder das divindades próprias. E o escravo africano pedia ao deus do seu senhor que abrandasse a sua cólera (sentimento sinistro ante o ritual extranho) como pedia proteção seus deuses possantes.

            A identificação que se procedeu depois, uma como tração de poder e significado religioso, tem exemplo desde os tempos mais remotos entre os diverso povos. Uma legenda descoberta na britania, identifica a deusa Síria do amor com Pax, Virtus, Ceres, a mãi dos deus e a Virgem...

            A mistura de raças foi também uma mistura de divindades.

            Da influencia mais próxima do ritual negro, ficou entre os afro-pernambucanos o habito de imolar aves a santos católicos, santos padroeiros nos seus dias de festa. Isso se verificou até publicamente um dia, no logarejo Riachão, interior do Estado. Perus e galinhas foram sacrificados deante a capela do santo padroeiro, com a presença da grande multidão animada de entusiasmo.

            O “Diário da Tarde”, do Recife, edição de 6 de Agosto de !935, noticiava:

 

“ANIMAIS SANGRADOS, NUMA FESTA RELIGIOSA DO RIACHÃO . O INSPECTOR DE QUARTEIRÃO QUIS PROIBI-LO E QUASE FOI ASSASSINADO.

 

            O logar Riachão, situado no município deVitoria, conserva ainda hábitos antigos e espantosos.

            O fato ocorrido no dia 24 de Junho, causou espanto em todo o município. Uma festa religiosa  ali realisada terminaria, de acordo com o programa,  com o sacrifio ás divindade, de modestos perus e galinhas. A cena seria, na verdade, sensacional, e, porisso, a ocorrência á  festa de Riachão ultrapassou os limites.

            O comissário de Serra Grande soube da história e não quis se consumasse o rito bárbaro.

            Reação e tentativa de morte.

            Como estava anunciada, a festa, apesar de tudo, se realisaria com sacrifício das aves, o inspector  de quarteirão Manuel Pantaleão dirigiu-se ao local para cumprir as ordens do comissário.

            A reação foi geral e os indivíduos José Vicente, vulgo Joça Duda e João Serapio, Duda Alves, animadores principais da festa, quase assassinaram o policial a faca e cacete.

            O delegado de Vitória tomou as providencias a respeito, instaurando inquérito.

 

            Essas praticas, do ritual do terreiro, onde se imolam aves ao orixá, o que, explica o pai de santo, acalma e agrada o santo, tem sua origem no pensamento de uma divida de sangue, do crime primitivo que destruiu a unidade do seu mundo, no sacrifício totêmico agindo como uma reconciliação.

 

 

 

ORAÇÕES FORTES, PARA AJUDAR A “FECHAR O CORPO” E LIVRAR DAS PERSEGUIÇÕES... – OUTRAS ORAÇÕES CURATIVAS

 

 

            É crença entre os filhos de santo que conduzi orações fortes, dadas pelo pai de terreiro, e obtidas por meios mágicos, evita toda a sorte de desgraças, livra o individuo de cacete, de faca, de tiro, das intrigas, da prisão, “fechando o corpo”.

            Ter o “corpo fechado” é cousa desejada pelos desordeiros, que, quando isso julgam obter, fazem em torno a maior divulgação. Nas baixas camadas sociais dá-se o maior credito a esse privilegio  mágico, fazendo-se respeitar o capanga que o possue.

            Dizia-se antigamente que Nascimento Grande, figura muito popular no Recife, no começo deste século, notável pelos conflitos em que andava metido e donde saia sempre vencedor, tinha o corpo “fechado”. Assim lutava por tudo e contra quem quer que fosse, armado ou sem armas sempre com vantagens.

            Entre os afro-pernambucanos é conhecida esta oração como uma das mais fortes para ajudar a “ fechar o corpo”:

            Salvai a Santa Helena

            Na hora do meio-dia.

           

            Chegou Senhor Meu Jesus Cristo

            E perguntou:

            Helena onde vais?

            Seguir os passos dos nossos inimigos?

            Eu vou seguir os passos

                  Dos meus inimigos

                  Para Jesus e além.

 

-          Que armas levas contigo

Para guerrear os vossos inimigos?

 

-          Santisso Coração,

Santa Maria Eterna,

As cinco Chagas de Cristo,

Paixão e Morte,

Senhor meu Jesus Cristo,

Para Guerrear os nossos inimigos.

 

Os nossos inimigos

Sejam mortos de espírito,

Brando de coração,

                  Pleno de sono.

 

                   Facas no meu corpo não entrai !

                   Si eles olhos terão,

                   Não me verão

                   Bocas têm,

                   Mas não me falem;

                   Pé tem,

                   Mas não me alcance;

                   Braços me amarrais !

 

                   Cordas no meu braço

                   Não sustentais!

                   Ferro nos meus pés arrebentais !

                   Arma de fogo,

                   Não dês arma,

                   Correi águas no seu cano

                   Como correu a água da areia

                   Quando Nosso Senhor Jesus Cristo passou!

                   Meus inimigos passem por mim

                   Assim como passou por ti,

                   Pelo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo!”

 

 

            Outra oração forte é a seguinte:

 

                   “Senhor do meu coração

                   Livrai na minha grande aflição.

                 

                   Foi a Virgem se sentar,

                   No seu jardim de flores,

                  Chegou o devoto,

                  Valendo o Senhor!

           

                  Deus nos creou

                  Para servir e amar.

 

                   Valei Senhor,

                  Por baixo do nossos inimigos,

                  Não me fazer amar!

                       

                  Valei Senhor!

                  Nem minha arma seja pedida,

                  Nem meu sangue derramado,

                  Nem meu corpo seja preso

                  Pelas mãos dos inimigos.

 

                  Pela Hóstia Consagrada,

                  Pelo Cálice bento,

                  O Santíssimo Senhor do Sacramento,

                  Por baixo dos meus inimigos,

                  Não me fazer amar!

 

                  Dominarei, Padre Nosso,

                  Ave Maria,

                  Credo em Cruz!

 

           

 

            Estas orações, assim como muitas outras, semelhantes, fazem parte dos “preparos” com que se faz “fechar o corpo”, devendo ser conduzida dentro de um saquinho de algodão ou de couro, debaixo do sovaco ou pendurada no pescoço para “fazer mais efeito”, preso por um cordão de contas da cor do santo da devoção.

            Para curar olhado, resa-se, de Pernambuco á Paraíba, uma resa de negra velha. Primeiro, sentado ao lado da curandeira, fica-se muito tempo, para ver si o mal é mesmo causado por olhado, porque si não for, as orações devem ser outras... fica-se conversando sobre qualquer coisa. Si a companheira da mesa começa a sentir vontade de abrir a boca, bocejando, então é mesmo mau-olhado. Quem benze toma muitas precauções “porque o quebranto (olhado) pode voltar-se para si.” Na verdade a cura, explica a creatura-medicina, dá-se porque a força do olhado passa, no momento, para quem cura. Mas quem cura está já preparado para isso e, desta sorte, não lhe faz mal de espécie alguma a força do olhado.

            A formula mágica para curar quebranto é a seguinte:

           

            “Com Deus te botaram,

            Com quatro eu tiro.

            Com Deus te botaram,

            Com quatro eu tiro.

            Com Deus te botaram,

            Com quatro eu tiro.

 

            Dois de S. João Batista

            Dois de N. S. Jesus Cristo”.

           

            “Fulano de Tal,

            Assim como nasceste livre e são desse olhado,

 

            Quebrado os olhos malvados,

            Assim vai-te para as ondas do mar!”

 

 

            Resam então três padre Nosso e tres Ave Maria, enquanto se benze, com um ramo, ao doente do “olhado”. Dizem que quando o ramo murcha durante a resa do Padre Nosso é que o olhado foi botado por homem; mas si murcha durante a Ave Maria, foi mulher uem botou...

            Para prevenir olhado nas crianças, usam figa preta pendurada no pescoço. Verificando-se, apesar disso, o olhado, usam os afro-pernambucanos a resa:

 

 

            “benze assim este menino,

            Te botaram máo olhado,

            Quebranto para te matar.

            Te benzo para te curar,

            Com o poder de Deus,

            De Deus-Filho,

            Com o poder de Deus,

            Do Espírito Santo,

            Da Santíssima Trindade”.

 

 

            Si essas resas não conseguirem resolver o estado-de-olhado, “o que é muito difícil que aconteça”, só defumatorios preparados por pai de santo, ou outros processos mágicos mais complexos serão usados...

 

 

 

UMA SESSÃO NO CENTRO CABOCLO DE BATUQUE, DE CATEANA

 

 

            Na estrada do Fundão está a Seita de Caetana em adoração aos 3 Reis Magos. A casa de taipa tem logo á entrada, na sala de visitas, um altar todo cheio de enfeites. Ali realisam os toques, confronte aos  aparatos. Uma mesa atravancada de bules, tijelas, garrafas servindo de castiçais a velas acesas, ainda um livro onde se inscrevem os “sócios”. Por cima da mesa, na parede, estão pregadas estampas de santos: o Coração de Jesus, uma Índia e Santa Luzia.

            O altar está cheio de bichos em tamanho pequeno, cálices, uma casinha de papelão,

uma porção de vidros de cheiro, um Ogum-Cabloco. Começam a sessão sem sacrifícios, sentados em almofadões, em volta da sala, travestidos no estilo, á espera de Caetana.

            Os iniciados vestem calções vermelhos, capas de pena de passarinho, e têm na cabeça uma espécie de fez bordado a contas e com uma pena grande. Enfeitando o Busto Trazem uma fita verde e amarela do hombro  direito abaixo, até a cintura.

            O oficio de Nossa Senhora ou da Sereia do Mar começa com a chegada de Caetana. Ela vem toda vistosa, de turbante, envolta numa capa de setineta azul. Uma mulata vestida de branco entoa o oficio de Nossa Senhora, as palavras caem soltas e repetidas como se a letra não desse certo com a melodia. Todos repetem a louvação do mesmo jeito.

            Caetana tira a toada:

           

            Os Caboclos do monte que vieram cura

            Enrola...

            Vamos cura...

            Julgamento do alta

            Que vem nos ajuda...

            Enrola,

            Vamos cura !

 

 

Os presentes repetem a toada, enquando alguns dos filhos se manifestam. O transe atira no chão os possuídos do espírito de caboclo com a “força”. Dão-lhes um  frasco de cheiro a aspirar, e batem nos seus peitos e na testa com a palma da mão, tratamento que os faz voltar de pé, dando saltos rápidos. Os manifestados dão as mãos a alguns dos companheiros. As toadas cessam para dar logar a nova invocação:

 

            As correntes do Egito

            Paraná...

            Paraná...

            Deus enviou nossas nuvens

            Os doze pares de França

            O coração de Jesus

            Deu suas luzes

 

            Chegou o tempo de cura

            Somos caboclos encantados

            Da missão do meio do má.

 

            Caetana  faz ofertórios, vira-se para a porta e interroga: “Quem quer se emprega? Fala! Diga! Quem tem boca!”

            Há quem diga que quer isso ou aquilo. Voltam a cantar:

 

 

            ... a proteção dos homem da capitá

            Vem pra cidade de Pernambuco

            Todo o povo comunica.

           

            Caetana grita: “Fecha o olho pra firma os pensamento. Baixou! Fecha os olho! Ninguém firma ele sem fecha!”

            O circulo de crentes baixa com os olhos, a pequenas traves se entrechocam, as orações:

 

            No reino do céo,

            No céo,

            No céo,

            Deus  ordenou

            As tribu do Egito...

 

            Ciciam:

 

            Si pôpô assi !

            Assi...

            Si pôpô assi !

 

            A invocações enchem o ambiente, apitos e gritos, o batuque dos pequenos tambores em cadencia de samba, e os crentes cansa em volta da sala, uns atraz dos outros. Cantam:

 

 

            ...chama o Jesus para fazer má       

            Caboclos do Egito veio trabalha

            Vamos se limpa...

            Vamos virá    

           

            Atende as correntes do má

            Jesus de Nazaré vem nos alenta

            Alimpa meu corpo pra eu prosperá

            Meu negocio, Minha casa, háde properá

            Dinherio no bolso

            Em todo Logá!

 

 

           

            A pobreza do ritual do centro de Caetana reflete a influencia predominante católico-espirita-caboclo, muito pouco restanto da raiz africana.

            As suas sessões se cara teorizam por invocações a entidades católico-caboclas, de mistura com os 12 pares de França, cujo resurgimento não sei a que atribuir, com fins mágicos curativos e de resolução de situação sentimentaes e de negócios.

            Também chama a esse centro de “Catimbó de Caboclo”.

            Não existe nele o sentido de cultuar aos deuses como obrigação espiritual cheia de encargos sés como obrigação espiritual cheia de encargos e compromissos decorrentes da sua ação protetora, mas unicamente preocupações mágicas para êxitos imediatos.

 

 

CAPITULO 5

 

 

GRANDEZA E DECADENDIA DOS XANGÔS

 

 

BREVE NOTICIA DA PINTURA E DA ESCULTURA RELIGIOSAS

 

 

            Da injustiça dos dominadores vem a crença que aquela gente que o  trafego negreiro trouxe para aqui era despida de qualquer civilisação ou cultura. Gente africana de nações diversas, entre e algumas já avançadas no domínio das Belas Artes, suas produções assinalam, bem vivo, qualidade.

            Os desenhos duam simplicidade toda primitivista, esculturas religiosas, a decoração dos seus Pegí, madeira talhada, evocados longe da pátria perdida, tudo isso está bem documentado entre os escravos que colonisaram o Estado.

            Os Gêges, família da Costa dos Escravos, que tantos escravos gêges trouxeram para cá, eram conhecidos artistas, povo até como arquitetura própria.

            Para Pernambuco trouxeram muitos escravos do antigo reino de Ardra, onde se falava gêge, e donde levaram tantas peças bonitas de escutara para o museu do Trocadero os conquistadores franceses do Dahomey.

            Falando sobre o emprego de mascaras e da sua origem e mística, Daniel Real, inspector do Museu de Etnografia do Trocadero, buscando a mais remotas, exalta o valor artístico daquellas trabalhadas pelos artistas negros de Dahomey. Diz: “são incontestavelmente excelentes estudos do rosto humano, onde se observa um realismo, que é das principais caractesticas do estilo dahomeyano”.

            O culto religioso, sues sentimentos religiosos, são inspiração constante de travalhos de arte. Vimos um oxê de Xangô. Essa figura com jeito de mulher não é um ídolo, é uma sacerdotisa de Xangô. Nela estão bem figurados os caracteres étnicos próprios á sua gente. Os lábios grossos e caídos, os olhos salientes, op nariz chato, a desproporção entre os membros, bem postos pelo artista peculiares á raça.

            Leo Frobenius, que é bem a mairo autoridade de em Historia da Arte da África, com a instalação dos Arquivos Africanos, feita em 1928 no Instituto de Morfologia Humana de Francfort, trouxe ao estudo a realisação do seu sonho fantástico: juntar toda uma documentação artística e lietraria proveniente de épocas as mais recuadas, até os nossos dias, dum valor que não se pode imaginar. Ele explica o suporte mágico e religioso dessa arte dos negros, ligando a um tronco comum todas as obras humanas. (uma emancipação lenta através as idades trouxe aquele personalismo em que vamos encontrar as mascaras que ilustram “Lê realisme dês artistes noirs”, de Clouzot e Level). Na base, como inspiração um mesmo deus único e possante, e logo abaixo dele os princípios macho e femea, e os vários deuses menores aos quais submeteu o mundo, ao mesmo tempo, como ao poder de inúmeros gênios. Uma mistura de moniteismo e de paganismo, como se encontra entre vários povos em todos os tempos.

            Mas o que seduz na arte dos negros é a mistura extraordinária de abstração e de vida.

            Parece, ás vezes, que nos trabalhos plásticos  há mais interesse em revelar os dons do artista, do que tradições ligadas a um grande passado. Sabem dar um caráter profundo ás suas obras plásticas: a expressão que anima o rosto de Oxê, ora de uma gravidade inquietante, despida de beleza,ora de dor, ou, num milagre de estilização. Possante e truculenta e feliz.

           

 

 

ESTÃO MORRENDO OS PAIS DE SANTO

 

 

            Estão morrendo os grande pais de santo do Recife. Morrem pelo coração os babalorixás. Primeiro foi Adão. Logo depois, Anselmo. Agora morre João , também de repente.

            Pai Adão desde os último anos que não era o mesmo homem. Todo-mundo via isso. Chegou a nos procurar, a mim e ao dr. Ladislau Porto, pedindo para ver o que é que tinha.  Seu coração estava em frangalhos.

            Ele levou a receita e o regime, mais por levar, por delicadesa. Sabíamos que ele nunca tomara remédios, e o seu regime era todo imposto por Yemanjá.

            Os orixás possantes haviam de cuidar da sua alma, que importava a Adão ou Anselmo a vida do corpo e os males físicos?

            Mais tarde o filho caçula do babalorixá foi preso por crime de morte. Adão ainda mais se abateu. A moléstia crescia dia-a-dia.

            A noticia da sua morte se espalhou rapidamente em dois Estados. A estrada velha de Beberibe então não cabia mais de gente. Ali no Chapéu de Sol, em Água Fria, em Beberibe todo, era só no que se falava.

            No terreiro do velho pai de santo pairava uma intensa emoção. Em volta da casa-grande ouviam-se até as preces resadas na capela, toda enfeitada de verbenas e violetas.

            Uma multidão densa se juntava no terreiro, os olhos voltados para o morto. As orações subiam no ar, entrecortadas de soluços, os lábios tremiam as palavras em todos os filhos de terreiro.

            Como era querido o grande pai de terreiro!

            Sentiam a sua morte os que o conheciam e o estimavam, os que viveram ao seu lado e os que viam só de longe. Morto agora, o casarão do Chapéu de Sol estava todo cheio dos seus velhos amigos que lhe foram dizer adeus.

            Pai Adão estava morto no seu caixão negro limitado de velas. O grandes encantados não ouviam as suas invocações. Estava ali estendido sem vida, á espera de clemência de Xangô.

            O caixão de veludo negro foi levado para a capela. Todo o dia resaram ao seu lado. Toda a noite resaram em volta dele.

            Lá fora do terreiro ouvia-se: “Pai Adão era bom demais! Você vai ao enterro de Pai Adão?” todo mundo dizia que sim.

            No dia seguinte foi sepultado o pai de santo. Cerca de duas mil pessoas enchiam a estrada. Foi dispensada a carreta porque todos queriam pegar no caixão. As filhas de santo, travestidas de baiana, com as cores do seus santos só nos collares, blusas brancas cheias de rendas e turbantes de rendas, abriam duas alas. A irmandade do Senhor dos Martírios seguia pa frente do cortejo, toda paramentada. De mão em mão chegou o enterro á Encruzilhada. Ali, deixam levar o caixão na carreta.

            Mas,já próximo ao Campo Santo, ainda havia poeira na estrada Velha de Beberibe...

            Calou o batuque do terreiro do Chapéu de Sol.

            Pai Adão chamava-se Felipe Sabino da Costa, era filho do escravo Sabino da Costa. Nasceu no ano de 1877, segundo consta, na cidade do Recife, onde passou toda a sua mocidade. Mais tarde foi á Baía, onde residiu algum tempo. Casou nessa cidade com Maria da Hora, de que te muitos filhos.

            Seu sonho era conhecer a terra dos seus maiores. Foi á África. Fez viagem em cargueiros, de todo o jeito, e conseguiu realisar o seu desejo incontido. Passou anos em Lagos e voltou satisfeito do que aprendeu. O continente do outro lado do mar lhe ensinou  o que sua intuição vislumbrara. Dominava-o inteiramente o culto do seus pais. No Recife fundou terreiro, que  cedo ficou falado. Construiu depois até a capela, sua casa já era pequena.

            Viveu como um grande místico, amou aos seus filhos, e morreu cercado de verbenas e violetas.

            Depois, mais quatro mezes depois, foi Anselmo. A rua do Progresso de Água Fria cobriu-se toda de tristesa. Emudeceram os atabaques e agoguê dos arredores. Foi igualmente sentida a morte do pai de santo que mais serviços prestou ao S.H.M. sua popularidade, que não atingia a altura da de  Adão, era com tudo um fato na redondesa.

            Nas construções mais próximas, os mestres-de-obras lastimaram a perda do bom pintor, mas um circulo de muitas almas cobriu-se de luto profundo.

            No congresso afro-brasileiro do Recife foi muito estimável a contribuição de Anselmo. Ele deu a todas as sua sessões do pitoresco dos seus apartes, discutiu as teses com os doutores, e esclareceu muita cousa na sua simplicidade.

            Veio a vez de João, menos falado, lá no terreiro da Mostardinha, também sem se separar, véspera de Festa.

            Com Anselmo e Adão, João era um dos grandes pais de terreiro.

            A Ialorixá Maria Anunciada estava pedindo no S.H.M licença para bater no dia 31.

            - “Porque não toca hoje, Maria ? no dia de ano voltou para a Paraíba”.

            Ela respondeu que o babalorixá João tinha morrido véspera de festa e tinha sido enterrado em caixão bom puxando a carreta. Só o pessoal mesmo do terreiro distante soubera da noticia triste. Tocava sim, mas no 7.º dia.

            Maria disse isso com os olhos mareados. Perguntei si ele era seu parente. Respondeuj “Não. Ele era Babalorixá”.

            Eu que me acostumara nos meu tempos de auxiliar técnico do S.H.M. com a grande rivalidade dos terreiros, fiquei commovido com a resposta.

            A Ialorixá Maria, filha da Baiana do Pina, afilhada de Ogun, vestida de cor de rosa, vai bater quinta-feira em louvor do pai de santo da Mostardinha. É uma homenagem muito grande.

 

            Neste ano fizeram ter matanças, nos três terreiros. Três despachos foram botados no rio, e ter caminhos levam par se juntar com eles na Costa, os pertences dos grandes Babalorixás mortos.

 

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Começou a decadência dos Xangôs do Recife.

 

 

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