| Agenor Miranda Rocha, o Pai Agenor, é quase uma lenda no Candomblé.
Nascido em Luanda, Angola, no dia 8 de setembro de 1907, foi iniciado
aos cinco anos de idade pelas mãos de mãe Aninha, venerável ialorixá
fundadora do Axé Opô Afonjá, tradicional terreiro de Salvador, Bahia.
Profundo conhecedor dos segredos de Ifá, Professor Agenor, como
também é conhecido, foi designado por sua mãe Aninha para ser aquele
que jogaria os búzios sempre que fosse necessária a determinação das
herdeiras do axé. Foi ele quem jogou os búzios para a escolha de várias
mães-de-santo dos mais tradicionais terreiros da Bahia, entre as quais
Mãe Senhora e Mãe Meninha do Gantois.
Leia agora (ou imprima e guarde) a entrevista concedida pelo professor
a Eduardo Logunwá
Como foi que o senhor entrou
para o Candomblé?
Eu acho que o Candomblé foi que me chamou. Não fui eu que
entrei, não. Ele é que foi me buscar. Porque eu nasci em Luanda, Angola,
e vim pequeno para Salvador. Fiquei muito doente. Os melhores médicos
da atualidade, em Salvador, me desenganaram. Diziam que eu ia morrer.
Uma vizinha nossa (da família) foi à casa de minha mãe Aninha. Quando
ela viu no jogo e disse: "esse menino não tem doença. É o único
jeito que o Orixá tem de trazê-lo para o nosso meio”. Porque a minha
família era toda católica apostólica romana. Não acreditavam em Candomblé.
Mas como eu estava à morte, desenganado, consentiram que eu fosse à
Aninha. Quando minha mãe Aninha começou a mexer nas folhas
para me dar a iniciação, eu comecei a voltar a mim. E estou até hoje.
Todos já morreram e eu estou aqui! Por causa do santo! Foi o Poder do
Axé!
Como o senhor define o Candomblé?
É uma festa, onde se canta, dança...Agora,
esses cantos, para quem entende, são rezas e imitação dos gestos dos
Orixás.
E o Orixás?
Os Orixás são um vento sagrado.
E todos os Orixás estariam encatados num fragmento da natureza. Yemanjá
não está encantada no mar? Oxum não está nos rios, nas cachoeiras? Xangô
não está no fogo? Ogun não está no desbravamento das matas? E assim
por diante... Iansã não está nos ventos? São encantados.
E como podemos rezar para estes encantados?
As danças, os gestos, são as rezas para os Orixás. Quem não
reza? Quem não tem um pedido para fazer à natureza? Quanto mais não
seja pede saúde, paz. Não é? Já está pedindo alguma coisa. Pedir é natural do homem.
Como o senhor vê a solidariedade no Candomblé de hoje? Como anda
a ética em nossa religião?
Eu fiz santo com cinco anos, estou com 93. Então eu posso
falar isso de cadeira, viu. Não havia isso não.
Um se dava com o outro. Hoje o senhor é um pai-de-santo, vai fazer uma
obrigação, chama um colega, por uma deferência, por amizade. O povo
diz que o senhor chamou porque não soube, que o outro veio lhe dar a
mão. No tempo que eu fiz não era assim, não. Todos se davam e sobretudo
se respeitavam. Hoje não respeitam. Hoje é um querendo ser mais que
o outro. Eu que não sou mais do que ninguém! Agora se o senhor me perguntar
se em toda religião há fofoca, há. Porque
no meu entender toda a religião é boa. Quem faz a religião má são os
adeptos. Não há religião que mande falar mal do outro, que mande matar,
que mande roubar. Não é verdade? Os adeptos é que fazem
( a religião má).
Professor, qual sua experiência com a fé?
Felizes daqueles que ainda têm fé no seu Orixá e no Orixá dos outros.
Por que hoje isso é difícil. Só o Orixá da pessoa é que é bom. Porque
tem muita gente que está no Candomblé e não tem fé. Qualquer coisinha,
"cadê meu santo? Onde é que está meu santo?" Isso é não ter
fé. Se eu estou na Terra..., aqui não é planeta de expiação? Como é
que eu vou reclamar do meu santo? Feliz por ele me dar a resignação
para passar pelo que eu estou passando. Eu tenho as pernas boas, eu
estou vivo! Ainda estou vivo! (risos) Agradeço a meu Orixá. Eu tenho
fé! Agora, eu não sei, tem muita gente que diz que tem fé, mas qualquer
coisa que aconteça diz logo: "cadê meu santo? Eu sou do santo,
eu dei comida ao meu santo ontem e ele está me dando isso?!" Eu
não. Eu posso ter o que tiver
que eu estou sempre colocando o meu santo acima de tudo, porque poderia
ter sido pior se ele não tivesse me ajudando.
Que mudanças o senhor observa no Candomblé de hoje em relação do
tempo de sua juventude?
No luxo, na vaidade, mudou. Mas o Orixá não é o mesmo? É a mesma coisa
quem diz: "eu sou Keto!" E na Angola os Orixás não são os
mesmos? Os nomes são diferentes, mas são os mesmos, não é? Então nós
temos que respeitar a todos. A evolução permite que o candomblé hoje
seja diferente do meu tempo. Eu não vou querer que o Candomblé hoje
volte para chegar ao meu (do meu tempo). De dia para dia está havendo
evolução. Quantas coisas novas sabemos que estão sendo descobertas?!
E temos que ficar só amarrados? Não, não. Evolução é tudo, não? O
Candomblé também tem que evoluir, ué!
O senhor considera-se um homem feliz?
Eu tenho tudo que acho que posso
ter na terra. Desejaria muito ser perfeito, mas estou na terra, não
sou. Tenho concepção de que eu não sou. (risos).
Entrevista realizada no dia 26 de março
de 2001, em São Paulo.
Eduardo Logunwa Erin Epega,
praticante da Tradição de Orixá (Candomblé) desde 1975, consagrado Sacerdote
de Ologun-Ede em 1997 e iniciado também para os Orixás Exu e Oxum pela
Iyalorixá Sandra Epega. Desde então faz atendimentos a clientes através
do Oráculo de Ifá (Jogo de Búzios). É Graduado em Ciências Sociais,
modalidade Antropologia, pela Unicamp, onde iniciou seu trabalho de
pesquisa sobre religiões africanas no Brasil. Estuda psicologia e psicanálise.
Relaciona-se com sacerdotes no Brasil e na África, com os quais mantém
constante troca de informações. É membro da Comissão Estadual de Comunicações
e Relações Públicas do INTECAB - Instituto Nacional da Tradição e Cultura
Afro Brasileira. Atualmente desenvolve projeto de pesquisa sobre Banhos
rituais e medicinais no universo religioso afro-brasileiro.
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