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Ogun
Ogun
é na África, em país Yorubá, o deus do ferro, dos
ferreiros e de todos aqueles que utilizam este metal: agricultores, caçadores,
açougueiros, barbeiros, marceneiros, carpinteiros, escultores de madeira. Desde
o início do século, os mecânicos, os motoristas de automóveis ou de trens, os
reparadores de velocípedes e de máquinas de costura vieram se juntar ao grupo de
seus fiéis.
No Brasil, Ogun é sobretudo conhecido como Deus dos
Guerreiros. Perdeu sua posição de protetor dos agricultores, pois os escravos,
nos séculos anteriores não possuíam interesse pessoal na abundância e na
qualidade das colheitas e, sendo assim, não procuravam sua proteção nesse
domínio. Como deus dos caçadores ele foi substituído por Oxossi cujo culto era
muito popular em Ketu, local de origem dos escravos
libertos que criaram os primeiros candomblés da Bahia.
No Brasil, Ogun é uma única divindade, tendo, porém,
sete nomes: 1. Ogun Mejê;
2. Ogun Alagmedé; 3.
Ogun Onirê; 4,
Ogun Alakorô; 5.
Ogunjá; 6. Ogun
Ominí, 7. Ogun
Wari.
O nome Ogun Mejê teria a
sua origem na frase em Yorubá
Ogun Mejê Mejê
Lodê Iré (Ogun
está nas sete partes do Iré"),
alusão a sete vilarejos, hoje desaparecidos, que teriam existido em volta de
Iré. Este número sete, que lhe é associado, é
representado nos locais que lhe são consagrados por instrumentos de ferro
forjado, em número de sete, quatorze ou vinte e um, alinhados todos sobre uma
haste de ferro: lança, espada, enxadas, torquês, facão, ponta de flecha, enxó,
símbolos de suas atividades guerreiras, agrícolas, de ferreiro, de caçador, de
escultor, etc.
A origem deste número sete. ligado a Ogun, e do
número nove em relação a Oyá-Yansã nos é relatada
por uma lenda onde Oyá era a companheira de
Ogun Alagbedê (2.º da
lista) - Ogun o ferreiro - antes de se tornar mulher
de Xangô Ela ajudava Ogun no seu trabalho, levava
docilmente suas ferramentas da casa para a oficina e, lá, ela manejava o fole
para ativar o fogo da forja. Um dia, Ogun ofereceu a
Oyá uma vara de ferro, parecida com uma de sua
propriedade, e que tinha o dom de dividir em sete partes os homens e em nove as
mulheres quepor ela fossem tocados, no decorrer de
uma luta. Xangô gostava de vir sentar-se à forja a fimde
apreciar Ogun bater o ferro e, freqüentemente,
lançava olhares a Oyá; esta, por seu lado,
furtivamente o olhava. Xangô era muito elegante, muito elegante mesmo, afirma o
contador da história. Sua imponência e seu poder impressionaram
Oyá e, um belo dia, ela fugiu com ele.
Ogun lançou-se a sua perseguição, encontrou os
fugitivos e brandiu sua vara mágica. Oyá fez o mesmo
e eles se tocaram ao mesmo tempo. E, assim, Ogun foi
dividido em sete partes e Oyá em nove, recebendo ele
o nome de Ogun Mejê (1.º
da lista).
Ogun teria sido o filho mais velho de
Odudúa, o fundador de Ifé.
Era um temível guerreiro que brigava sem cessar contra os reinos vizinhos.
Guerreou contra a cidade de Ará e destruiu. Apossou-se
drrra cidade de Iré, matou o rei, aí instalou
seu próprio filho no trono e regressou glorioso, usando ele mesmo o título de
Oniré, rei do Iré, sendo
chamado Ogun Oniré (3.º
da lista).
Por razões que
ignoramos, ogun nunca teve direito de usar uma
coroa, Ade, feita co pequenas contas de vidro e
ornada por franjas de missangas, dissimulando o
rosto, emblema de realeza par os Yorubás. Foi
autorizado a usar, apenas, um simples diadema, chamado
Akorô, e isto lhe valeu ser saudado como Ogun
Alakorô (4.º da lista). Ogun
decidiu, após numerosos anos ausente de
Irê, voltar para visitar seu filho. Infelizmente as pessoas da
cidade, celebravam, no dia de sua chegada, uma cerimônia durante a qual os
participantes não podiam falar, sobre pretexto algum. Ogun
tinha fome e sede. Descobriu alguns potes destinados a vinho de palma, mas
ignorava que estivessem vazios. Ninguém o havia saudado ou respondido às suas
perguntas. Ele não reconhecia o local por ter ficado ausente durante muito
tempo.
Ogun, cuja paciência é pequena, enfureceu-se com o
silêncio geral, para ele considerado ofensivo. Começou a quebrar, com golpes de
sabre, os potes e, logo depois, sem poder se conter, começou a cortar a cabeça
das pessoas mais próximas, até que seu filho apareceu, oferecendo-lhe as suas
comidas prediletas, tais como cães e caramujos, feijões regados com azeite de
dendê e potes de vinho de palma. Enquanto saciava a sua fome e a sua sede, os
habitantes de Iré cantavam louvores onde não faltava
a menção a Ogunjajá, que vem da frase
Ogun je
ajá - "Ogun come
cachorro"- oque lhe valeu
o nome de Ogunjá ( 5.º nome da lista). Satisfeito e
calmo, Ogun lamentou seus atos de violência e
declarou que já vivera bastante. Baixou a ponta de seu sabre em direção ao chão
e desapareceu pela terra a dentro, transformando-se
em Orixá.
No Brasil, as pessoas consagradas a Ogun usam
colares de conta de vidro azul-escuro e, algumas vezes, verde. Terça-feira é o
dia da semana que lhe é consagrado. Seu nome é sempre mencionado, por ocasião de
sacrifícios dedicados aos diversos Orixás, no momento em que a cabeça do animal
é decepada com uma faca - da qual ele é o senhor - e o sangue começa a escorrer.
É o primeiro, também, a ser saudado depois de Exú,
devidamente cumprimentado, é despachado. No momento da entrada dos Orixás
manifestados e vestidos com suas roupas simbólicas, é sempre
Ogun que desfila na frente, "abrindo o caminho" para
os outros Orixás.
Esta primazia foi, no entanto, contestada por Obaluayé
e Nanan Buruku que, como
veremos mais tarde, se insurgiram contra ela e, para provar sua maior
antiguidade de vinda ao mundo, se recusaram a utilizar facas de ferro forjado
por Ogun, este"recém-chegado"
!!! Ogun é também representado
por franjas de folhas de dendezeiro, devidamente desfiadas, chamadas
Mariwó. Era, segundo se diz, a roupa por ele
usada, em outros tempos, quando a tecelagem ainda não tinha sido inventada.
Estes Mareiwós, pendurados em cima da porta e das
janelas de uma casa, ou na entrada dos caminhos, representam proteções e
barreiras contra as más influências.
Na África, os locais consagrados a Ogun ficam ao ar
livre, na entrada dos palácios dos reis e nos mercados. São geralmente pedras em
forma de bigorna colocadas sob uma grande árvore, Araba,
( Ceiba
Pentandra) e protegidas por uma cerca de nativos,
Peregún (Draceana
fragans) ou de Akoko (Newboldia
laevis). Nestes locais, periodicamente, realizam-se
sacrifícios de cachorros e de galos.
O culto de Ogun é bastante difundido no conjunto dos
territórios onde se fala o Yorubá e ultrapassa as
fronteiras dos países vizinhos, Gegês, no
Daomé e no Togo, onde é
chamado de Gun. Em todos estes países,
Ogun-Gun é respeitado e temido. Tomá-lo como
testemunha, no decorrer de uma discussão, tocando com a ponta da língua a lâmina
de uma faca, ou um objeto de ferro, é sinal de sinceridade absoluta.
Um juramento feito, evocando-se o nome de
Ogun, é mais solene e digno de fé que se
possa imaginar, comparável àquele que faria um cristão sobre a Bíblia ou um
muçulmano sobre o Corão.
A vida amorosa
desse Orixá caracteriza-se pela instabilidade. Ogun
foi o primeiro madiro de
Oyá-Yansã, aquela que se tornaria, mais tarde, mulher de Xangô. Teve,
também, relações com Oxun antes que ela fosse viver
com Oxossi e com Xangô. E, também, com Obá, a
terceira mulher de Xangô. Teve numerosas aventuras galantes quando partia para
as guerras, tornando-se, assim, o pai de diversos outros Orixás, como Oxossi e
Oranmiyan.
Oranmiyan,
ao que se diz, fora concebido em condições muito particulares, dificilmente
aceitas por um geneticista, pois teria tido dois pais ao mesmo tempo...
De acordo com a lenda, Ogun, no decorrer de suas
expedições guerreiras, conquistou a cidade de Ogotum,
saqueou-a, dela retirando valiosos despojos. Uma prisioneira de rara beleza,
Lakanjé, agradou-o ele não respeitou a sua virtude.
Mais tarde, quando a mesma mulher foi vista por Odudúa
( pai de Ogun) este
mostrou-se igualmente perturbado, desejou possuí-la, tornando a finalmente como
uma de suas mulheres.
Ogun, amedrontado, não revelou a seu pai o que havia
se passado entre ele e a bela prisioneira. Nove mês
mais tarde, Oranmiyan vinha ao mundo . Seu corpo,
entretanto, estava dividido verticalmente em duas dores: marrom de um lado, pois
Ogun possuía a cor escura, e amarelo do outro, como
Ododúa, que era bastante claro de pele.
Oranmiyan tornou-se um temido guerreiro, estabeleceu
aliança com Elempe, rei do país
Tapa-Nupé, casando-se com sua filha Torossí.
Desta união nasceu Xangô, do qual falaremos mais tarde.
Oranmiyan fundou o reino de Oyo, onde colocou
sobre o trono Dada-Ajaka, seu filho mais velho,
concebido com outra mulher; instalou seu terceiro filho,
Eweka, como rei de Benin e tornou-se, ele próprio,
Oni, rei de Ifé, depois da morte de
Ododúa.
As saudações, Oriki, festa a
Ogun na África demonstram seu caráter aterrador e violento:
Ogun que tendo água em casa, se lava com sangue.
Os prazeres de Ogun são os combates e as lutas.
Ogun come cachorro e bebe vinho de palma.
Ogun, o violento guerreiro.
O homem louco com músculos de aço.
o terrível Ebora que se morde a si próprio sem
piedade.
Ogun que come vermes sem vomitar.
Ele mata o marido no fogo e a mulher à beira do fogareiro.
Ele mata tanto o ladrão como o proprietário da coisa roubada.
Ele mata tanto o proprietário da coisa roubada como aquele que critica esta
ação.
O arquétipo de Ogun é o das pessoas violentas,
brigonas e impulsivas, incapazes de perdoarem as ofensas de que foram vítimas.
Das pessoas que perseguem energicamente seus objetivos e não se desencorajam
facilmente. Daquelas que nos momentos difíceis triunfam onde qualquer outro
teria abandonado o combate e perdido toda esperança. Das que possuem humor
mutável, passando furiosos acessos da raiva ao mais tranqüilo dos
comportamentos. Finalmente, é o arquétipo das pessoas impetuosas e arrogantes,
daquelas que se arriscam a melindrar os outros por uma certa falta de discrição
quando lhe prestam serviços, mas que, devido à sinceridade e franqueza de suas
intenções, tornam-se difíceis de serem odiadas.
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