Obaluayê, o "Rei do Mundo" ou Omolu, o "Filho do Senhor" são os apelidos geralmente dados a Xapanan, deus da varíola e das doenças contagiosas, cujo nome é perigoso de ser pronunciado.
É sincretizado com São Lázaro e São Roque, na Bahia, e com São Sebastião, no Recife. As pessoas que lhe são dedicadas, usam colares de cores preta e vermelha.
Quando o deus se manifesta sobre um de seus iniciados ele é acolhido pelo grito Atotô ! que, no país Yorubá, é a expressão utilizada pelos interlocutores de um personagem importante para mostrar-lhe que suas palavras são escutadas com respeito e atenção. Seus Iaôs dançam inteiramente revestidos de palha da costa. A cabeça, também, é recoberta por um capuz de palha cujas franjas recobrem seu rosto. Em conjunto, parecem pequenos montes de palha, em cuja parte inferior aparecem pernas cobertas por calças de renda e, na altura da cintura, mãos brandindo um Xaxara, espécie de vassoura feita de nervuras de folhas de palma, decorada com búzios, contas e pequenas cabaças que se supõe conter remédios. Dançam curvados para frente, como que atormentados por dores, e imitam o sofrimento, as coceiras e os tremores de febre. A orquestra toca para Obaluayé um ritmo particular chamado Opanijé, no decorrer da qual lhe são apresentados pratos de Aberem, milho cozido enrolado em folhas de bananeira, carne de bode e pipocas que todos comem junto com ele.

Segunda-feira é o dia da semana que lhe é consagrado. O chão do adro da igreja de São Lázaro, na Bahia, é coberto, neste dia, de pipocas que as pessoas passam em seus próprios corpos para se preservarem de possíveis doenças contagiosas, associando, assim, numa mesma manifestação, a sua fé na força do deus africano e do santo católico.
As proibições alimentares das pessoas dedicadas a Obaluayé são: carneiro, peixe de água doce de pele lisa, bananas prata, frutos de plantas trepadeiras, abóboras, melões, chuchus, jacas, caranguejos, etc.
Diz-se que o filho de Nanan Baruku é originário, como ela, de Oxumarê, do país Mahi. Os locais consagrados a estas três divindades, Pejis, são, por este motivo, reunidos numa mesma cabana, separada das dos outros deuses.
Na África, o culto de Obaluayé, assim como o de Nanan Buruku, do qual trataremos no próximo capítulo parece fazer parte de sistemas religiosos pré-yorubás.
Segundo certas lendas, Obaluayé estaria instalado na região de Ifé, antes da chegada do conquistador Odudúa e teria precedido Orunmilá, na colina de Oké Itaxé. O local de origem de Obaluayé- Xapanan ainda é desconhecido, ma sparece ter sido no país de Tapa-Nupê.
Uma lenda confirma esta última suposição: "Obaluayé era originário de Empé (Tapa) e havia levado seus guerreiros em expedição aos quatro cantos da Terra. Uma ferida feita por suas flechas tornava as pessoas cegas, surdas ou mancas. Obaluayé chegou assim, ao Daomé, batendo e dizimendo seus inimigos, e pôs-se a massacrar e a destruir tudo o que encontrava à sua frente. Os daomeanos, porém, tendo consultado um Babalaô aprenderam como acalmar Obaluayé com oferenda de pipocas. O Orixá, tranqüilizado pelas atenções recebidas, mandou-os construir um palácio onde ele passaria a morar, não mais voltando ao país Empé. O Daomé prosperou e tudo se acalmou. Apesas da escolha feita po Obaluayé deste novo local de residência, continuaram a saudá-lo Kabiyési Olutapá Lempé, "Rei do país Tapa no país Empé".
Sapata, versão Fon de Daomé de Xapanan, teria sido originário de país Nagô. Isto é atestado, tanto pelo fato de que, no decorrer da iniciação, os futuros Sapatassí, pessoas dedicadas a Sapata, são chamadas de Anagonu, gente Anagô ou Nagô; como, também, pelo fato de que a língua ritual - falada nos conventos de iniciação a este deus e usada nas preces - é o Yorubá primitivo, ainda cotidianamente falado pelos Ana-Ifé, habitantes da região de Tchetti e Atakpamé, aos quais faremos referência no capítulo seguinte.
A antiguidade do culto de Obaluayé e do de Nanan Buruku, freqüentemente confundidos em certas partes da África, está comprovado por um detalhe do ritual de sacrifícios de animais. Esta reação é realizada por estes dois Orixás sem o emprego deuma faca. A tradição exige que as pessoas entoem um cântico e que o animal passe, desta maneira, de uma vida a outra. Esta ausência de instrumento de ferro para fazer o sacrifício é explicada como uma recusa das duas divindades, baseada numa lenda onde Ogun briga com obaluayé e Nanan Buruku: o primeiro pretendia que ninguém poderia comer sem a sua ajuda, pois era o artesão das armas que abatiam a caça e do facão que servia para destrinchá-la; os outros dois, querendo provar-lhe o contrário, abstinham-se do uso do ferro.
Esta disputa entre divindades pode ser interpretada como o choque de religiões pertencentes à épocas diferentes, sucessivamente instaladas no mesmo local, dando nascimento a um mito onde a rivalidade dos deuses substitui e simboliza o conflito entre povos de civilizações diferentes: os seguidores de Obaluayé e Nanan, fazendo parte de cultos antigos onde o uso do ferro ainda era desconhecido; os adeptos a Ogun, pertencendo à época do ferro.

O comportamento dos seguidores de Obaluayé e de Nanan Buruku era ditado pela fidelidade ao ritual antigo em matéria de sacrifícios, ritual estabelecido antes da vinda do deus ferro.
Eis algumas saudações tradicionais para Obaluayé:
"Meu pai que dança sobre o dinheiro.
Ele mede as suas contas em caldeirões
Caçador negro que cobre seu corpo com tecido de palha da costa.
Não encontrei outros orixás que façam como ele.
Uma roupa de pele adornada por pequenas cabaças.
Meu pai que mata qualquer pessoa e a come.
Ninguém deve sair sozinho ao meio-dia".
A última saudação vem do fato de que Obaluayé é freqüentemente chamado de Olodê, dono do exterior (fora das casas) e que ele gosta de passear pelas ruas na hora do sol forte, no meio do dia, sendo perigoso cruzá-lo no seu caminho.
O arquétipo de Obaluayé é o das pessoas com tendência masoquista, que gosta de exibir seus sofrimentos e as tristezas que os afligem intimamente. Pessoas que são incapazes de sentir satisfação, quando sua vida corre tranqüila. Podem atingir situações materiais invejáveis e rejeitar, um belo dia, todas essas vantagens por causa de certos escrúpulos imaginários. Pessoas que em certos casos, sentem-se capazes de se consagrar ao bem estar dos outros, fazendo completa abstração de seus próprios interesses e necessidades vitai

 

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