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"Yemanjá, cujo o nome deriva de Yeye
oman ejá, "Mãe cujos filhos são peixes", é o Orixá dos Egbás, uma nação yorubá
estabelecida outrora na região de Ibadan, onde existe ainda o rio Yemanjá. As
guerras entre nações yorubáslevaram os Egbás a emigrar, em direção oeste, para
Abeokutá, no inicio do século XIX. Evidentemente, não lhes foi possível carregar
o rio, mas, em contrapartida, transportaram consigo objetos os sagrados,
suportes do Axé da divindade, e o rio Ogun, que atravessa a região, tornou-se a
partir de então, a nova morada de Yemanjá.
Este rio Ogun, entretanto, não deve ser confundido com Ogun, o deus do ferro e
dos ferreiros, contrariamente à opinião de numerosos autores que escrevem sobre
o assunto no século passado. Estes mesmo autores publicaram, a partir de 1884,
copiando-se uns aos outros, uma série de lendas escabrosas e extravagantes que
fizeram a delícia dos " meios eruditos", mas que eram completamente
desconhecidos nos meios tradicionais.
O templo principal de Yemanjá fica em Ibará, bairro da cidade de Abeokutá. Os
fiéis desta divindade vão procurar, todos os anos, a água sagrada para levar os
Axés, suportes de seu poder, não no rio Ogun, mas na fonte de um de seus
afluentes, chamado Lakaxá. Esta água, recolhida em jarras, é trazida em
procissão para seu templo.
Yemanjá seria a filha de Olokun, deus ( em Bénin e em Lagos) ou deusa ( em Ifé)
do mar. Em certa lenda, ela aparece casada pela primeira vez com Orunmila,
senhor das adivinhações, depois com Olofin-Ododúa, Rei de Ifé, com o qual teve
dez filhos cujas atividades bastante diversificadas e cujos nome enigmáticos
parecem corresponder a outros tantos Orixás. Dois dentre eles são facilmente
identificados: "O
arco-iris-que-desloca-com-a-chuva-e-guarda-o-fogo-nos-seus-punhos" e "O
trovão-que-se-desloca-com-a-chuva-e-revela-seus-segredos". Estas denominações
representam, respectivamente, Oxumarê e Xangô.
Yemanjá, cansada de sua permanência em Ifé, foge mais tarde em ~direção ao
oeste. Olokun que havia dado, autrora, por medida de precaução, uma garrafa
contendo um preparado, pois "não-se-sabe-jamais-o-que-pode-acontecer-amanhã";
recomendara-lhe que a quebrasse no chão em caso de perigo. E assim, Yemanjá foi
se instalar na "Noite-da-Terra", à este, em Abeokutá, "ilusão à migração dos
Egbás". Olofin-Ododúa, rei de Ifé, lançou seu exercito em procura de Yemanjá.
Esta, cercada, em vez de se deixar prender e ser conduzida de volta a Ifé,
quebrou a garrafa, segundo as instruções recebidas. Um rio criou-se na mesma
hora, levando-a para Okun, o mar, lugar de residência de Olokun.
As imagens que representam Yemanjá dão-lhe o aspecto de uma matrona, com seios
volumosos, símbolo de maternidade fecunda e nutritiva. Esta particularidade de
possuir seios um pouco mais que majestosos - e somente um deles, segundo outra
lenda - foi a origem de desentendimentos com seu marido, embora ela já o
houvesse, honestamente, prevenido antes do casamento, dizendo-lhe que não
toleraria a mínima alusão desagradável ou irônica a esse respeito. Tudo ia muito
bem e o casal viva feliz. Uma noite, porém, quando o marido havia se embriagado
com vinho de palma, não mais podendo controlar as suas palavras, fez comentário
sobre seu seio volumoso. Tomada de cólera, Yemanjá bateu com o pé no chão e
transformou-se num rio a fim de voltar para Olokun, como na lenda precedente.
As saudações a Yemanjá são bastante interessantes:
"Rainha das águas que vem da casa de Olokun.
Ela usa, no mercado, um vestido de contas.
Ela espera, orgulhosamente sentada, diante do rei.
Rainha que vive nas profundezas das águas.
Nossa Mãe de seios chorosos".
Yemanjá recebe sacrifícios de carneiro e oferendas de comidas à base de milho
branco, azeite, sal e cebolas.
Ela se apresenta sob diversos nomes, ligados, como no caso de Oxun, aos diversos
lugares profundos, Ibús, do rio Ogun.
No Brasil, como em Cuba, dá-se sete nomes a Yemanjá e se conta:
que de Olokun, o mar, nasceram;
Yemowô, que na África é mulher de Oxalá;
Yamassê, mãe de Xangô;
Yewá ( Euá), rio que na África corre paralelo ao rio Ogun e que freqüentemente é
confundido com ele;
Olossá, a lagoa na qual deságua o rio Ogun;
Yemanjá Yogunté, casada com Ogun Alagbedé. "É - diz Lydia Cabrera, falando de
Yemanjá em Cuba - uma amazônia terrível, que traz pendurada na cintura o facão e
os outros instrumentos de ferro de Ogun. Ela é severa, rancorosa e violenta.
Detesta pato e adora carneiro";
Yemanjá Assaba, ela manca e está sempre fiando algodão. Lydia Cabrera
acrescenta: "Ela tem um olhar insustentável, É muito orgulhosa, e somente escuta
dando as costas ou ficando ligeiramente de perfil. É perigosa e voluntariosa.
Usa uma corrente de prata amarrada no tornozelo. Foi mulher de Orumilá e este
aceitou seus conselhos com respeito";
Yemanjá Assessú, muito voluntariosa e respeitável. Lydia Cabrera especifica que
"ela vive em água agitada. É muito séria. Gosta de comer pato. Muito lenta a
escutar os pedidos de deus fiéis. Esquece o que lhe pedem e se põe a contar
minuciosamente as penas do prato que lhe deram como oferenda. Se acontece se
enganar nos seus cálculos, ela recomeça e esta operação se prolonga
indefinidamente".
Na Bahia, os adeptos de Yemanjá usam colares de contas de vidro transparentes e
vestem-se, de preferência, de azul-claro. seu Axé é constituído por pedras
marinhas e conchas, guardadas numa sopeira de porcelana azul. Seus Iaôs durante
o Xirê dos orixás, trazem um leque de metal branco nas mãos levadas
alternadamente sobre a testa a nuca, cujo simbolismo não me foi possível
perceber. Gisèle Cossard pensa que Yemanjá, por este gesto, procura chamar a
atenção para a beleza de seu penteado de rainha.
Saúda-se Yemanjá gritando-se Odoyá. Sábado é o dia da semana que lhe é
consagrado, juntamente com outras divindades femininas, as Ayabas, as rainhas.
Na Bahia, Yemanjá é sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada Conceição,
festejada no dia 8 de dezembro. Ela é mais ligada às águas salgadas do mar que
às águas doces dos rios, que é domínio de Oxun. Curiosamente, porém, as pessoas
fazem abstração, na Bahia, do sincretismo que liga o Oxun a Nossa Senhora das
Candeias, festejada no dia 2 de fevereiro, pois é nessa data que se organiza um
solene presente para Yemanjá, o que mostra que o sincretismo entre os deuses
africanos e os santos da igreja católica não é de uma rigidez absoluta.
Esta festa do dia 2 de fevereiro é uma das mais populares do ano, atraindo à
praia do Rio Vermelho uma multidão imensa de fiéis e de admiradores da Mãe das
Águas, freqüentemente rpresentada sob a forma latinizada de uma sereia, com
longos cabelos soltos ao vento. Chamam-na, também, Dona Janaína, a Princesa ou a
Rainha do Mar.
Neste dia (2 de fevereiro), bem cedo pela manhã, longas filas de pessoas se
formam diante da pequena casa construída rapidamente, na véspera, a fim d
obrigar as grandes cestas destinadas a receber os donativos e as oferendas par
Yemanjá.
Durante todo este dia, forma-se um lento desfile de pessoas de todas as origens
e de todos os meios sociais, trazendo ramos de flores frescas ou artificiais,
pratos de comida feitos com carinho, frascos de perfumes, sabonetes embrulhados
em papel transparente, bonecas, cortes de tecidos e outros presentes agradáveis
a uma mulher bonita e vaidosa. Cartas e súplicas não faltam, nem presentes em
dinheiro, assim como colares e pulseiras. Em algumas horas as cestas já estão
cheias e substituídas por outras. Ao final da tarde, os ramos de flores são
colocados em cima das cestas, transformando-as, assim, numas 30 braçadas de
flores, imensas. O entusiasmo da multidão chega ao seu máximo.
Não se escutam senão gritos alegres, saudações a Yemanjá, votos de prosperidade
futura. Uma parte da assistência embarca a bordo de veleiros, barcos e lanchas a
motor. A flotilha se dirige para o alto mar, onde as cestas são depositadas
sobre as ondas. Segundo a tradição, para que as oferendas sejam aceitas, elas
devem mergulhar até o fundo, sinal de aprovação de Yemanjá. se elas forem
rejeitadas e, conseqüentemente, devolvidas à praia, é sinal de recusa para
grande tristeza e decepção dos Admiradores de Yemanjá.
Tomo emprestada a descrição do arquétipo de Yemanjá de Lydia Cabrera, ela mesma
filha de Yemanjá, certamente a mais competente de todas aquelas que me foi dado
o prazer de conhecer: "As filhas de Yemanjá são voluntariosas, fortes,
rigorosas, protetoras, altivas e, algumas vezes, impetuosas e arrogantes; põem à
prova as amizades que lhe são devotadas, custam muito a perdoar uma ofensa e, se
a perdoam, não a esquecem jamais. Preocupam-se com os outros, são maternais e
sérias. Sem possuírem a vaidade de Oxun, gostam do luxo, das fazendas azuis e
vistosas, das jóias caras. Têm tendência à vida suntuosa mesmo se as
possibilidades do cotidiano não lhes permitem um tal fausto"
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